

"Gradiva" de Jensen e outros trabalhos















VOLUME IX
(1906 - 1908)




















       DELRIOS E SONHOS NA GRADIVA DE JENSEN (1907 [1906])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         
         DER WAHN UND DIE TRUME IN W. JENSENS GRADIVA
         
         (a) EDIES ALEMS:
         
         1907 Leipzig e Viena: Heller. 81 pgs. (Schriften zur angewandten Seelenkunde, Heft 1.) (Reeditada sem alteraes, com a mesma pgina de rosto, mas com 
uma nova sobrecapa: Leipzig e Viena: Deuticke, 1908.)
         1912 2 ed. Leipzig e Viena: Deuticke. Com 'Ps-escrito'. 87 pgs.
         1924 3 ed. Mesmos editores. Sem alteraes.
         1925 G.S., 9, 273-367.
         1941 G.W., 7, 31-125.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         Delusion and Dream
         1917 Nova Iorque: Moffat, Yard. 243 pgs. (Trad. de H. M. Downey.) (Com uma introduo de G. Stanley Hall. Omite o 'Ps-escrito' de Freud. Inclui a traduo 
da obra de Jensen.)
         1921 Londres: George Allen & Unwin. 213 pgs. (Reimpresso da anterior.)
         
         A presente traduo, totalmente nova e com ttulo modificado,  de James Strachey. O 'Ps-escrito' aparece em ingls pela primeira vez.
         
         Esta foi a primeira anlise de uma obra de literatura feita por Freud a ser publicada, com exceo, naturalmente, de seus comentrios sobre dipo Rei e 
Hamlet em  A Interpretao de Sonhos (1900a), ver a partir de [1], IMAGO Editora, 1972. Entretanto, ele j escrevera anteriormente uma curta anlise da obra de Conrad 
Ferdinand Meyer 'Die Richterin' ['A Juza'], e a enviara a Fliess, juntamente com a carta de 20 de junho de 1898 (Freud, 1950a, Carta 91).
         
         Atravs de Ernest Jones (1955, 382) sabemos que foi Jung quem chamou a ateno de Freud para o livro de Jensen. Acredita-se que Freud escreveu o presente 
trabalho especialmente para agradar a Jung. Isso ocorreu no vero de 1906, vrios meses antes do primeiro encontro dos dois, sendo esse episdio, assim, o prenncio 
dos cinco ou seis anos de suas relaes cordiais. O estudo de Freud foi publicado em maio de 1907, e pouco depois ele enviou um exemplar do mesmo a Jensen. Seguiu-se 
uma breve correspondncia,  qual se faz aluso no 'Ps-Escrito'  segunda edio (ver em [1]). As trs pequenas cartas que Jensen enviou a Freud em 13 de maio, 
25 de maio e 14 de dezembro de 1907 foram publicadas em Psychoanalytische Bewegung, 1 (1929), 207-211. Trata-se de cartas muito cordiais, as quais fazem crer que 
Jensen tenha ficado lisonjeado com a anlise de Freud, parecendo inclusive ter aceito as linhas principais da interpretao. Declara, em particular, no se lembrar 
de ter dado uma resposta 'um tanto brusca' ao lhe ser perguntado (parece que por Jung) se acaso conhecia as teorias de Freud, como relatado em [2].
         Afora a significao mais profunda, aquilo que atraiu especialmente a ateno de Freud na obra de Jensen foi, sem dvida, o cenrio em que ela se desenrola. 
J era antigo o interesse de Freud por Pompia, emergindo mais de uma vez em sua correspondncia com Fliess. Assim, como associao para a palavra 'via', em um de 
seus sonhos, ele fornece 'as ruas de Pompia que estudo no momento'. Isso ocorreu numa carta datada de 28 de abril de 1897 (Freud, 1950a, Carta 60), alguns anos 
antes de ele visitar realmente aquela cidade em setembro de 1902. Freud sentia-se particularmente fascinado pela analogia existente entre o destino histrico de 
Pompia (o soterramento e a posterior escavao) e os eventos mentais que lhe eram to familiares: o soterramento pela represso e a escavao pela anlise. Em parte 
essa analogia foi sugerida pelo prprio Jensen (ver em [1]), e Freud desenvolveu-a com prazer neste trabalho, assim como em contextos posteriores.
         Ao ler este estudo de Freud, vale a pena que se tenha em mente seu lugar cronolgico entre as obras do autor. Trata-se de um dos seus primeiros trabalhos 
psicanalticos, escrito apenas um ano aps a primeira publicao do caso clnico de 'Dora' e dos Trs Ensaios sobre a Sexualidade. Inseridos no exame de Gradiva 
encontram-se no s um sumrio da explanao de Freud sobre os sonhos, mas tambm o que talvez seja a primeira de suas exposies semipopulares de sua teoria das 
neuroses e da ao teraputica da psicanlise.  impossvel deixar de admirar a habilidade quase prestidigital com que ele extrai esse material riqussimo daquilo 
que,  primeira vista, parece ser apenas uma histria engenhosa. No entanto, seria erro menosprezar o papel que Jensen desempenhou, embora inconscientemente, nesse 
resultado.
         
         DELRIOS E SONHOS NA GRADIVA DE JENSEN
         
         Um grupo de pessoas, que acreditava terem sido os mistrios bsicos do sonho decifrados pelos esforos do autor do presente trabalho, sentiu, certo dia, 
sua curiosidade voltar-se para a questo da classe de sonhos que nunca haviam sido sonhados - sonhos criados por escritores imaginativos e por estes atribudos a 
personagens no curso de uma histria. A idia de submeter a uma investigao essa espcie de sonhos pode parecer estranha e improfcua, mas de certo ponto de vista 
seria justificvel. Est bem longe de ser geral a crena de que os sonhos possuem um significado e podem ser interpretados. A cincia e a maioria das pessoas cultas 
sorriem quando se lhes prope a interpretao de um sonho. S as pessoas simples, que se apegam s supersties e assim perpetuam as convices da Antiguidade, continuam 
a insistir que eles so passveis de interpretao. O autor de ousou, apesar das reprovaes da cincia estrita, colocar-se ao lado da superstio e da Antiguidade. 
 verdade que ele nem de longe acredita serem os sonhos pressgios do futuro, desse futuro que desde tempos imemoriais os homens vm tentando inutilmente adivinhar 
por toda sorte de meios proibidos. Entretanto, no  capaz de refutar de todo a relao entre os sonhos e o futuro, pois o sonho, ao fim da laboriosa tarefa de traduzi-lo, 
revelou-se ao autor como sendo a representao da realizao de um desejo do sonhador; e quem poderia negar que os desejos se orientam predominantemente para o futuro?
         Acabei de afirmar que os sonhos so desejos realizados. Quem no recear os percalos de um livro obscuro, e no exigir que um problema complicado lhe seja 
apresentado como simples e fcil, para poupar-lhe trabalho s expensas da verdade e da honestidade, poder encontrar provas detalhadas dessa tese na obra que mencionei. 
Enquanto isso, seria desejvel que ignorasse as objees que sem dvida surgiro contra a equiparao entre sonhos e realizao de desejos.
         Mas estamo-nos adiantando muito. Ainda no se trata de determinar se o significado de um sonho pode ser sempre interpretado como um desejo realizado, ou 
se acaso no poder, com a mesma freqncia, representar uma expectativa ansiosa, uma inteno, uma reflexo, etc. Ao contrrio, a primeira pergunta que se nos apresenta 
 se realmente possuem os sonhos algum significado, e se devem ser considerados como eventos mentais. A resposta da cincia  negativa: ela explica o sonhar como 
sendo um processo puramente fisiolgico, por trs do qual no h, conseqentemente, necessidade de procurar um sentido, um significado ou um propsito. Os estmulos 
somticos, segundo consta, agem sobre o aparelho mental durante o sono, levando  conscincia ora uma, ora outra idia, desprovidas de qualquer contedo mental: 
os sonhos so comparveis a meras contraes, e no a movimentos expressivos da mente.
         Nessa controvrsia a respeito do carter dos sonhos, os escritores imaginativos parecem tomar o partido dos antigos, da superstio popular e do autor de 
A Interpretao de Sonhos. Pois quando um autor faz sonhar os personagens construdos por sua imaginao, segue a experincia cotidiana de que os pensamentos e os 
sentimentos das pessoas tm prosseguimento no sonho, sendo seu nico objetivo retratar o estado de esprito de seus heris atravs de seus sonhos. E os escritores 
criativos so aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o ce e a terra com 
as quais a nossa filosofia ainda no nos deixou sonhar. Esto bem adiante de ns, gente comum, no conhecimento da mente, j que se nutrem em fontes que ainda no 
tornamos acessveis  cincia. Mas se esse apoio dos escritores a favor de os sonhos possurem um significado fosse menos ambguo! Um crtico mais severo poderia 
objetar que os escritores no se manifestam nem contra nem a favor de os sonhos terem um significado psquico, contentando-se em mostrar como a mente adormecida 
se contrai sob excitaes que nela permaneceram ativas como prolongamentos do estado de viglia.
         Mas esse pensamento sensato no vem arrefecer nosso interesse pela maneira como os escritores fazem uso dos sonhos. Mesmo que essa investigao nada de 
novo nos ensine sobre a natureza dos sonhos, talvez permita-nos obter alguma compreenso interna (insight), ainda que tnue, da natureza da criao literria. Os 
sonhos verdadeiros j eram considerados como estruturas imoderadas e arbitrrias - e agora somos confrontados com livres imitaes desses sonhos! Entretanto, h 
muito menos liberdade e arbitrariedade na vida mental do que tendemos a admitir, e pode ser at que no exista nenhuma. Aquilo que no mundo externo denominamos de 
casualidade pode, como sabemos, ser colocado dentro de leis. Assim tambm o que chamamos de arbitrariedade da mente repousa sobre leis das quais s agora comeamos 
vagamente a suspeitar. Vamos, ento, prosseguir!
         Podemos adotar dois mtodos para essa investigao. Um deles seria examinar um caso particular, penetrando a fundo nas criaes onricas de uma das obras 
de um determinado escritor. O outro consistiria em reunir e cotejar todos os exemplos que pudessem ser encontrados do uso de sonhos nas obras de diversos autores. 
O segundo poderia parecer o mais eficaz, e talvez o nico justificvel, j que nos liberta imediatamente das dificuldades inerentes  adoo do conceito artificial 
de 'escritores' como classe. Ao ser investigada, essa classe desagregar-se-ia em escritores individuais de valor extremamente diverso, entre os quais alguns que 
veneramos como os mais profundos observadores da mente humana. Apesar disso, essas pginas sero dedicadas a uma pesquisa do primeiro tipo. Aconteceu que uma pessoa 
do grupo onde primeiro surgiu essa idia lembrou-se de que a ltima obra de fico que prendera seu interesse continha vrios sonhos cujas fisionomias familiares 
como que o haviam encarado e convidado a tentar aplicar-lhes o mtodo da Interpretao de Sonhos. Ele confessou que o tema da pequena obra e o cenrio em que o mesmo 
se desenvolvia haviam, sem dvida, construdo o principal fator de seu prazer. A histria situava-se em Pompia e tratava de um jovem arquelogo que abdicara do 
seu interesse pela vida para dedicar-se aos remanescentes da Antiguidade clssica, sendo por meios tortuosos e estranhos, embora perfeitamente lgicos, novamente 
atrado  vida real. O tratamento dado a esse material genuinamente potico despertara em seu leitor toda uma srie de pensamentos afins e em harmonia com esse material. 
A obra era o conto Gradiva, de Wilhelm Jensen, descrito por seu prprio autor como sendo uma 'fantasia pompeana'.
         E aqui eu pediria a meus leitores que deixassem de lado este pequeno ensaio e passassem algum tempo familiarizando-se com Gradiva (publicada pela primeira 
vez em 1903), para que aquilo a que eu me referir nas pginas que se seguem possa ser familiar a eles. Para os que j leram Gradiva, farei um breve resumo de sua 
histria, esperando que suas memrias lhe restituam todo o encanto que ela perder com este tratamento.
         Um jovem arquelogo, Norbert Hanold, descobrira num museu de antiguidades em Roma um relevo que o atrara muitssimo, tendo com grande prazer conseguido 
do mesmo uma excelente cpia em gesso, a qual colocou em seu gabinete de trabalho numa cidade universitria da Alemanha para admir-la com vagar. A escultura representava 
uma jovem adulta, cujas vestes esvoaantes revelavam os ps calados com leves sandlias, surpreendida ao caminhar. Um dos ps repousava no solo, enquanto o outro, 
j flexionado para o prximo passo, apoiava-se somente na ponta dos dedos, estando a planta e o calcanhar perpendiculares ao solo. Provavelmente foi esse modo de 
andar incomum e particularmente gracioso que atraiu a ateno do escultor e que, tantos sculos depois, seduziu seu admirador arquelogo.
         O interesse que o relevo desperta no heri da histria  o fato psicolgico bsico da narrativa. No h uma explicao imediata para esse interesse. 'O 
Dr. Norbert Hanold, lente de arqueologia, na verdade nada encontrou no relevo que merecesse uma ateno especial do ponto de vista da sua disciplina cientfica.' 
(3.) 'Ele no pde explicar a si mesmo o que havia nele que atrara sua ateno. S sabia que fora atrado por algo e que desde aquele instante o efeito permanecera 
inalterado.' Sua imaginao no cessava de se ocupar com a escultura. Ele a achava 'viva' e 'atual', como se o artista houvesse reproduzido uma rpida viso colhida 
nas ruas. Chamou a figura do relevo de 'Gradiva' - 'a jovem que avana'. Imaginou que ela era, sem dvida, filha de uma famlia nobre, talvez 'de um edil patrcio 
que exercia seu cargo a servio de Ceres,' e que ela estava a caminho do templo da deusa. Contudo, tinha dificuldade em situar sua natureza serena e tranqila no 
clima agitado de uma capital, convencendo-se ento de que ela deveria ser transportada para Pompia, onde atravessava uma via sobre as curiosas pedras com ressaltos 
descobertas nas escavaes que, dispostas com intervalos para a passagem das rodas do veculo, permitiam aos pedestres conservar os ps secos nos dias chuvosos. 
Percebeu em sua fisionomia traos gregos, e estava convencido de que a jovem tinha origem helnica. Pouco a pouco Norbert Hanold colocou todo o seu acervo de conhecimentos 
arqueolgicos a servio desta e de outras fantasias relativas ao modelo da escultura.
         A essa altura, um problema de carter aparentemente cientfico, que pedia uma soluo, veio atorment-lo. Tratava-se de determinar 'se aquela maneira de 
pisar de Gradiva fora reproduzida pelo escultor como na vida'. Ele mesmo achava que no conseguiria imit-la, e para comprovar a 'realidade' desse modo de andar 
resolveu, 'para aclarar a questo, observar a vida'. (9.) Essa resoluo, entretanto, levou-o a agir de forma pouqussimo condizente com seus hbitos. 'At ento 
o sexo feminino no passara para ele de um conceito expresso em mrmore ou em bronze, e nunca prestara a menor ateno s suas representantes contemporneas'. O 
arquelogo sempre considerara os deveres sociais como um inevitvel aborrecimento. No convvio social prestava to pouca ateno ao aspecto e  conversa das jovens, 
que ao reencontr-las acidentalmente passava sem um cumprimento, o que certamente no causava impresso favorvel. Agora, entretanto, a tarefa cientfica a que se 
propusera impelia-o na rua, especialmente nos dias chuvosos, a observar ansiosamente os ps de todas as mulheres que encontrava, atividade que lhe granjeava olhares 
ora indignados, ora encorajadores dos objetos de sua observao, 'mas ele no percebia nem uns, nem outros'. (10.) Essa pesquisa meticulosa levou-o a concluir que 
o modo de andar de Gradiva no era encontrvel na realidade, o que o encheu de desnimo e consternao.
         Pouco depois ele teve um sonho terrvel, no qual se encontrava na antiga Pompia, testemunhando a destruio da cidade pela erupo do Vesvio. 'Estava 
junto ao foro, ao lado do templo de Jpiter, quando subitamente viu Gradiva a uma pequena distncia. At aquele momento nem sequer lhe ocorrera a possibilidade de 
encontr-la, mas ento isso lhe ocorreu como sendo muito natural, j que era pompeana e residia em sua cidade natal, na mesma poca que ele, sem que disto ele tivesse 
a menor suspeita.(12.) Receoso da sorte que a aguardava, gritou para a prevenir, ao que, sem se deter, a jovem voltou-lhe o rosto sereno, mas continuou seu caminho 
at alcanar o prtico do templo. Ali sentou-se em um dos degraus e curvou-se lentamente at repousar a cabea no piso, enquanto suas faces cada vez mais plidas 
pareciam transformar-se em mrmore. Ele se precipitou em sua direo, mas ao alcan-la encontrou-a deitada no largo degrau com uma expresso tranqila, como se 
estivesse adormecida, at que a chuva de cinzas cobriu sua figura.
         Quando ele acordou, o surdo arrebentar das ondas enraivecidas e os gritos confusos dos habitantes de Pompia, clamando por socorro, ainda pareciam ecoar 
em seus ouvidos. Mas mesmo depois que suas faculdades despertadas reconheceram nesses sons o bulcio matinal da cidade, continuou por muito tempo a acreditar na 
realidade de seu sonho. Quando por fim se libertou da idia de que estivera presente  destruio de Pompia, cerca de dois mil anos antes, ficou-lhe o que parecia 
firme convico de que Gradiva ali vivera e fora soterrada com o resto da populao em 79 D.C. Em conseqncia desse sonho, pela primeira vez em suas fantasias sobre 
Gradiva, lamentou-a como algum que tivesse sido perdido.
         Absorto nesses pensamentos, chegou  janela e os gorjeios de um canrio numa gaiola, na janela da casa em frente, despertaram sua ateno. Subitamente um 
sobressalto sacudiu a mente do jovem, que ainda parecia imerso em seu sonho. Julgou ter visto na rua uma silhueta semelhante a Gradiva e ter inclusive reconhecido 
seu andar caracterstico. Sem refletir, correu  calada para a interceptar, mas as risadas e chacotas dos transeuntes, diante de seus trajes matinais, fizeram-no 
voltar para casa. De novo no quarto, tornou a reparar no canto do canrio, o qual sugeria uma comparao consigo mesmo. Tambm ele estava preso numa gaiola, embora 
lhe fosse mais fcil a fuga. Ainda sob a influncia do sonho, e talvez tambm do suave ar primaveril, formou-se nele a determinao de empreender uma viagem  Itlia. 
Logo encontrou um pretexto cientfico para a excurso, embora 'o impulso para essa viagem tivesse origem num sentimento que ele no podia nomear'.(24.)
         Vamo-nos deter por um momento nessa viagem, programada por motivos to fortuitos, e examinar mais de perto a personalidade e o comportamento de nosso heri, 
que ainda se nos apresenta incompreensvel e insensato, visto ainda ignorarmos como sua singular loucura se ligar a sentimentos humanos e assim despertar nossa 
simpatia. Mas  um dos privilgios do escritor poder deixar-nos na incerteza! O encanto de sua linguagem e a engenhosidade de suas idias recompensam-nos provisoriamente 
pela confiana que depositamos nele e pela simpatia, ainda injustificada, que nos dispomos a conceder a seu heri. Veremos que ele foi predestinado pela tradio 
da famlia a dedicar-se  arqueologia e que, quando se achou s e independente, se absorveu inteiramente nos estudos, afastando-se por completo da vida e seus prazeres. 
S o mrmore e o bronze eram para ele verdadeiramente vivos, s esses materiais exprimiam o propsito e o valor da vida humana. Mas a natureza, talvez com um intuito 
benevolente, instilara em seu sangue um corretivo de carter nada cientfico: uma imaginao vivssima que se mostrava em seus sonhos e tambm no estado de viglia. 
Essa diviso entre imaginao e intelecto o predispunha a tornar-se ou um artista ou um neurtico; ele estava entre aqueles cujo reino no  deste mundo. Da resultou 
interessar-se pelo relevo que representava uma jovem caminhando de forma peculiar e tecer sobre a mesma suas fantasias, imaginando para ela um nome e uma origem, 
e situando-a na cidade de Pompia, soterrada h mais de mil e oitocentos anos, at que por fim, aps um estranho sonho de ansiedade, sua fantasia da existncia e 
da morte de Gradiva ampliou-se, passando a constituir um delrio que influenciava suas aes. Tais produtos da imaginao seriam considerados espantosos e inexplicveis 
numa pessoa da vida real; no entanto, como nosso heri, Norbert Hanold,  uma pessoa fictcia, talvez possamos perguntar timidamente a seu autor se acaso sua imaginao 
no ter sido determinada por foras outras que no as da sua escolha arbitrria.
         Deixamos nosso heri no momento em que, aparentemente influenciado pelos trinados de um canrio, se decide, com um propsito que evidentemente no estava 
claro para ele, a viajar para a Itlia. Descobriremos mais adiante que no tinha nem plano nem roteiro fixos para essa viagem. A intranqilidade e a insatisfao 
internas levaram-no a transferir-se de Roma para Npoles, e da para mais adiante. Viu-se envolvido por uma nuvem de casais em lua-de-mel e forado a observar os 
ternos pares de 'Edwins' e 'Angelinas', em transportes amorosos que lhe pareciam incompreensveis. Chegou  concluso de que, de todas as loucuras da humanidade, 
'o casamento  a maior e a mais incompreensvel, sendo o pice dessa imbecilidade aquelas despropositadas viagens de npcias  Itlia.' (27.) Em Roma seu sono foi 
perturbado pela proximidade de um casal amoroso, e ele fugiu apressadamente para Npoles, ali deparando, entretanto, outra srie de 'Edwins' e 'Angelinas'. Inferindo 
da conversa destes que a maioria no tinha inteno alguma de aninhar-se entre as runas de Pompia, estando a caminho de Capri, resolveu fazer uma opo contrria 
 deles, e poucos dias depois de iniciar a viagem encontrava-se em Pompia, 'contra todas as suas intenes e expectativas'.
         Mas tambm ali no encontrou a tranqilidade procurada. O papel at ento desempenhado pelos casais em lua-de-mel, que haviam irritado e mortificado seu 
esprito, transferiu-se para as moscas, consideradas por Hanold como a encarnao de tudo que  absolutamente nocivo e desnecessrio. As duas espcies de espritos 
atormentadores fundiram-se numa unidade: alguns pares de moscas fizeram-no recordar os recm-casados, e ele imaginou que tambm elas em sua linguagem interpelam-se 
docemente por 'meu querido Edwin' e 'minha adorada Angelina.' Por fim concluiu que 'seu descontentamento no era resultado apenas de circunstncias externas, tendo 
em parte origem interna.' (42.) Sentiu que estava 'insatisfeito porque lhe faltava algo, embora no pudesse precisar o qu.'
         Na manh seguinte atravessou o 'Ingresso' de Pompia e, depois de livrar-se do guia, percorreu a esmo a cidade, sem que - fato estranho - lhe ocorresse 
 lembrana o sonho recente em que estivera presente  sua destruio. Mais tarde,  'clida e sagrada hora do meio-dia, que para os antigos era a hora dos espritos, 
quando os demais visitantes se haviam retirado e as runas jaziam desertas sob a luz do sol ardente, julgou poder transportar-se  vida que havia sido enterrada, 
mas no com o auxlio da cincia. 'Ela ensina uma concepo fria e arqueolgica do mundo e faz uso de uma linguagem filolgica e morta, que em nada contribuem para 
uma compreenso da qual participem o esprito, os sentimentos, o corao. Quem desejar atingi-la deve permanecer aqui, solitrio, nico ser vivente nessa calma abrasadora 
do meio-dia, entre as relquias do passado, e ver, mas no com os olhos do corpo, e ouvir, mas no com os ouvidos fsicos. E ento... os mortos acordaro e Pompia 
tornar mais uma vez  vida.' (55.)
         Enquanto assim ressuscitava o passado com a sua imaginao, viu subitamente a inconfundvel Gradiva do seu relevo sair de uma casa e atravessar a rua com 
passos lpidos sobre as pedras de lava, como no sonho em que ela se deitara nos degraus do templo de Apolo. 'E com essa lembrana, pela primeira vez veio  sua conscincia 
que, embora ignorando o impulso interno que o impelia, se viera  Itlia, dirigindo-se a Pompia sem deter-se em Roma ou em Npoles, fora para procurar as pegadas 
de Gradiva - e "pegadas" no sentido literal, pois com aquele andar peculiar ela deveria ter deixado impresses inconfundveis nas cinzas de Pompia.' (58.)
         Nesse ponto a tenso em que at agora nos mantm o autor transforma-se por um momento numa dolorosa perplexidade. Evidentemente no foi s o nosso heri 
quem perdeu o equilbrio. Tambm ficamos desorientados com o aparecimento de Gradiva, que de uma figura em mrmore j passara a figura imaginria. Acaso seria ela 
uma alucinao do nosso heri, perturbado por seus delrios, ou seria um 'verdadeiro' fantasma, ou ainda uma pessoa viva? No se quer dizer com isso que precisemos 
acreditar em fantasmas. O autor, que rotulou de 'fantasia' sua obra, ainda no nos informou se pretende deixar-nos dentro do nosso mundo, desse prosaico mundo governado 
pelas leis da cincia, ou se pretende transportar-nos a um outro mundo imaginrio, no qual se concede realidade aos espritos e fantasmas. Estamos preparados para 
segui-lo sem hesitaes, como nos exemplos de Hamlet e Macbeth, e nesse caso encararamos por outro prisma o delrio do imaginativo arquelogo. Na verdade, ao considerarmos 
quo improvvel  a existncia de uma pessoa real que seja a imagem viva de uma escultura antiga, as hipteses reduzem-se a duas: uma alucinao ou um fantasma do 
meio-dia. Um pequeno detalhe na narrativa leva-nos a abandonar a primeira possibilidade. Um pequeno lagarto, que sobre uma pedra desfrutava imvel do calor do sol, 
fugiu assustado  aproximao do p de Gradiva. No se tratava, assim, de uma alucinao, mas de alguma coisa externa  mente de nosso sonhador. Contudo, a realidade 
de uma rediviva poderia perturbar um lagarto?
         Gradiva desapareceu em frente  Casa de Meleagro. No nos deve surpreender que o arquelogo tenha prosseguido em seu delrio de que Pompia tornara  vida 
ao meio-dia, hora dos espritos, e que Gradiva tambm tenha tornado  vida e entrado na casa em que vivera antes daquele fatal dia de agosto de 79 D.C. Sua mente 
constri as mais engenhosas especulaes sobre a personalidade do proprietrio (de quem a casa provavelmente tomara o nome) e sobre sua relao com Gradiva, demonstrando 
que sua cincia estava agora inteiramente a servio de sua imaginao. Ele entrou na residncia e defrontou-se subitamente, mais uma vez, com a apario sentada 
em alguns degraus baixos que se estendiam entre duas colunas amarelecidas, 'tendo sobre os joelhos um objeto branco cuja natureza ele no conseguiu precisar, talvez 
uma folha de papiro...' Baseando-se na teoria que formulara sobre a origem da jovem, interpelou-a em grego e esperou, cheio de ansiedade, pela comprovao de que 
a apario possua o dom da palavra. Como no obteve resposta, interrogou-a em latim, ao que ela retrucou com um sorriso nos lbios: 'Se desejas falar-me deves empregar 
o alemo.'
         Que humilhao para ns leitores! Ento o autor estava se divertindo  nossa custa, fazendo-nos participar em pequena escala do delrio do personagem, como 
se sobre ns tambm incidisse o escaldante sol de Pompia, para que julgssemos com maior benevolncia o pobre coitado sobre quem realmente incidia o sol do meio-dia. 
Agora, entretanto, j estamos curados da nossa momentnea confuso, e sabemos que Gradiva  uma jovem alem de carne e osso, soluo que antes estvamos inclinados 
a rejeitar como altamente improvvel. Tranqilos, superiores, vamos pois esperar que o autor nos revele a relao existente entre a jovem e sua imagem em mrmore, 
e como nosso jovem arquelogo chegou s fantasias que conduziram at a personalidade real de Gradiva.
         Mas o delrio de nosso heri no se dissipou com a mesma facilidade que o nosso, pois como nos revela o autor, 'embora feliz em sua crena, era-lhe necessrio 
aceitar muitas circunstncias misteriosas.' (140.). Provavelmente esse delrio tinha em Hanold razes internas, as quais so em ns existentes e das quais nada conhecemos. 
Parece-nos, sem dvida, que em seu caso seria necessrio um tratamento enrgico para que pudesse ser trazido de volta  realidade. No momento tudo que estava ao 
seu alcance era incorporar a seu delrio a maravilhosa experincia por que acabara de passar. Gradiva, que perecera com o resto da populao na destruio de Pompia, 
nada mais podia ser seno um fantasma do meio-dia, o qual voltava  vida naquele breve instante consagrado aos espritos. Mas por que, ento, ele replicou ao ouvir 
a resposta dela em alemo: 'Eu j sabia como soaria a tua voz'? A jovem tambm estranhou a rplica, assim como ns, e Hanold confessou nunca t-la ouvido antes, 
embora esperasse ouvi-la em seu sonho, quando lhe falara ao v-la deitada nos degraus do templo. Implorou-lhe que repetisse a cena, mas a esse pedido ela se levantou, 
olhando-o de forma estranha, e em poucos passos desapareceu entre as colunas do ptio. Pouco antes uma borboleta revoluteara em torno da jovem, e ele a interpretou 
como uma mensageira de Hades, a qual veio lembrar  jovem morta que ela devia retornar, pois a hora concedida aos fantasmas estava para terminar. Hanold ainda teve 
tempo de bradar ao v-la escapar: 'Voltars aqui amanh ao meio-dia?' Entretanto, podemos permitir-nos interpretaes menos fantsticas e ver na fuga da jovem um 
sinal de que a mesma, j que desconhecia o sonho dele, julgara imprpria a observao que lhe fora dirigida por Hanold e se retirara ofendida. No teria a sua sensibilidade 
percebido a natureza ertica da pretenso de Hanold, que este acreditava motivada somente pelo seu sonho?
         Aps o desaparecimento de Gradiva, nosso heri passou cuidadosamente em revista os hspedes reunidos para o almoo no Hotel Diomde e no Hotel Suisse, assegurando-se 
assim que nos dois nicos hotis que conhecia em Pompia no existia ningum que se assemelhasse, ainda que remotamente, com Gradiva. Teria, naturalmente, rejeitado 
como tola a idia de que talvez pudesse realmente encontrar Gradiva ali. Logo o vinho originrio das quentes faldas do Vesvio contribuiu para intensificar o turbilho 
de sentimentos em que ele passou o dia.
         
         No dia seguinte s uma coisa estava fixa: Hanold devia voltar  Casa de Meleagro ao meio-dia; e, na expectativa desse momento, penetrou irregularmente nas 
runas de Pompia, escalando o antigo muro da cidade. Deparou um p de asfdelo em flor, coberto de pequenas campnulas brancas, e colheu para si um ramo ao lembrar-se 
de que se tratava da flor dos infernos. Enquanto esperava, a arqueologia comeou a lhe parecer a cincia mais intil e desinteressante do mundo, pois outro interesse 
concentrava agora suas atenes: o problema do 'que poderia ser a natureza da apario corprea de Gradiva, um ser que estava simultaneamente morto e vivo, embora 
s ao meio-dia'. (80.) Tambm receava no a encontrar naquele dia, pois talvez sua volta s fosse permitida a longos intervalos; ao v-la outra vez entre as colunas, 
julgou que a apario no passava de um truque de sua imaginao e exclamou em sua dor: 'Ah! Se ao menos fosses real e viva!' Mas dessa vez errara em seu julgamento, 
pois a apario dirigiu-se a ele, perguntando-lhe se a flor era para si, e travou com o desconcertado arquelogo um longo colquio.
         O autor passa a explicar a seus leitores, para quem Gradiva j interessava como pessoa viva, que o olhar de desprazer e repulsa que a jovem lhe dirigira 
na vspera dera lugar a uma expresso de curiosidade e profundo interesse. Ela na verdade comeou a interrog-lo, pedindo-lhe uma explicao para sua observao 
do dia anterior e querendo saber em que ocasio ficara ao lado dela enquanto ela se deitava para dormir. Ela assim tomou conhecimento do sonho em que teria perecido 
juntamente com toda a populao de sua cidade natal, assim como tambm do relevo em mrmore e da posio do p que tanto atrara o arquelogo. Ela ento acedeu de 
bom grado a demonstrar seu modo de andar, e isso mostrou que a nica diferena da escultura de Gradiva era que em lugar de sandlias a jovem trazia delicadas botas 
de cor de areia de fino couro - o que ela explicava como uma adaptao ao presente. Evidentemente ela apreendia a essncia do delrio do arquelogo, sem contest-lo 
uma nica vez. S por um instante pareceu que a emoo a fez esquecer seu papel, quando ele, pensando na escultura, declarou t-la reconhecido  primeira vista. 
Como a essa altura do colquio ela ainda no sabia nada do relevo, era natural que se equivocasse quanto s palavras de Hanold; mas ela logo se refez, e somente 
para ns suas rplicas s vezes parecem dotadas de duplo sentido, como se em vez de se cingirem ao delrio, tambm aludissem a fatos reais e presentes - por exemplo, 
quando ela lamentou no ter ele conseguido encontrar nas ruas algum que reproduzisse o modo de andar da Gradiva: 'Que pena! Talvez essa longa viagem a Pompia no 
tivesse sido necessria!' (89.) Ao saber que ele chamara de Gradiva  escultura, ela lhe revelou seu verdadeiro nome: 'Zoe'. 'Esse nome assenta-te maravilhosamente, 
mas soa como uma amarga ironia, j que Zoe significa vida'. 'Temos de nos curvar ao irremedivel', retrucou ela, 'e h muito que me acostumei a estar morta.' Prometendo 
estar de volta ao mesmo local ao meio-dia do dia seguinte, ela se despediu, tendo antes pedido o ramo de asfdelo: 'As mais afortunadas recebem rosas na primavera, 
mas essas flores do esquecimento so mais apropriadas para mim.' (90.) Sem dvida o tom melanclico condiz com algum h muito tempo morto e que volta  vida apenas 
por uns breves momentos.
         Agora comeamos a compreender e a nutrir alguma esperana. Se a jovem, em cuja figura Gradiva tornou  vida, aceitou to plenamente o delrio de Hanold, 
provavelmente fazia isso para libert-lo do mesmo. No existia outro caminho para tal; contradiz-lo acabaria com todas as possibilidades. Mesmo o tratamento srio 
de um caso real de doena desse tipo s poderia ter seqncia situando-se inicialmente no mesmo plano da estrutura delirante e passando-se ento a investig-la o 
mais completamente possvel. Se Zoe for a pessoa indicada para esse trabalho, sem dvida logo aprenderemos como curar um delrio como o do nosso heri, e tambm 
teremos a satisfao de saber como tais delrios tm incio. Seria uma coincidncia estranha - mas ainda assim, nem indita nem isolada - se o tratamento do delrio 
coincidisse com a sua investigao, e se precisamente na dissecao do mesmo viesse  tona a explicao de sua origem. Se assim for, comearemos certamente a suspeitar 
que o nosso caso de doena possa acabar numa 'vulgar' histria de amor. Mas no se pode desprezar o poder curativo do amor contra um delrio - e acaso a paixo do 
nosso heri pela sua escultura da Gradiva no possui todas as caractersticas de uma paixo amorosa, ainda que paixo amorosa por algo passado e sem vida?
         Aps o desaparecimento de Gradiva, ouviu-se  distncia como que o pio sardnico de um pssaro sobrevoando as runas da cidade. Agora s, o jovem descobriu 
no cho o objeto branco que tinha sido deixado por Gradiva; no se tratava de um papiro, mas de um caderno de esboos, com vrios desenhos a lpis de cenas de Pompia. 
Inclinamo-nos a considerar esse esquecimento do caderno como um penhor do retorno da jovem, pois acreditamos que ningum esquece alguma coisa sem uma razo secreta 
ou um motivo oculto.
         
         O resto do dia proporcionou a Hanold uma srie de confirmaes e descobertas estranhas, que ele entretanto no conseguiu sintetizar num todo. Na parede 
do prtico onde Gradiva desaparecera, descobriu uma estreita fenda, suficiente no entanto para dar passagem a uma pessoa muito esbelta. Reconheceu que Zoe-Gradiva 
no teve necessariamente de sumir nas entranhas da terra - idia que agora lhe pareceu to insensata que se envergonhou de ter acreditado nela; a jovem pode ter 
utilizado a fenda para retornar a seu tmulo. Ele julgou perceber uma tnue sombra desaparecer em frente  Casa de Diomedes, no fim da Via dos Sepulcros.
         No mesmo atropelo de sentimentos da vspera, absorto nos mesmos problemas, ele percorreu a esmo os arredores de Pompia. Perguntou-se qual seria a natureza 
corprea de Zoe-Gradiva. Acaso se sentiria alguma coisa se se tocasse sua mo? Um estranho mpeto o induzia  determinao de tentar tal experincia, ao mesmo tempo 
que relutava fortemente a admitir semelhante idia.
         Numa colina ensolarada deparou um cavalheiro idoso que, pelos seus apetrechos, s podia ser um botnico ou um zologo empenhado em alguma busca. O indivduo 
virou-se para ele e disse: 'O senhor tambm est interessado no faraglionensis? Eu no acreditava, mas  provvel que, alm das ilhas Faraglioni perto de Capri, 
tambm ocorram no continente. O mtodo inventado pelo nosso colega Eimer  realmente muito bom. J o utilizei vrias vezes com excelentes resultados. Por favor, 
fique bem quieto...' (96.) Nesse ponto o zologo calou-se e colocou um lao feito de um longo talo de erva em frente a uma fenda nas pedras, por onde espreitava 
a pequena cabea azul iridescente de um lagarto. Hanold deixou o caador de lagartos com um sentimento crtico de que era quase inacreditvel que pessoas empreendessem 
longas viagens para chegar a Pompia impelidas por propsitos to estranhos e tolos.  desnecessrio dizer que nessa crtica ele no se inclua, assim como no inclua 
sua inteno de procurar as pegadas de Gradiva nas cinzas de Pompia. A fisionomia do indivduo idoso que interpelara como a um conhecido era familiar ao arquelogo, 
que talvez j o tivesse visto de relance em um dos dois hotis.
          Continuando seu passeio, chegou por uma estrada lateral a uma casa que ele ainda no tinha descoberto, e que se mostrou como um terceiro hotel, o 'Albergo 
del Sole'. O proprietrio, ocioso no momento, aproveitou a oportunidade para exibir seu estabelecimento e sua coleo de relquias encontradas nas escavaes. Afirmou 
ter estado presente  descoberta junto ao foro de um jovel casal de namorados que, ao compreenderem seu inevitvel destino, aguardaram a morte estreitamente abraados. 
Hanold j ouvira antes essa histria, considerando-a uma inveno fantasiosa de algum narrador imaginativo; naquele momento, porm, as palavras do hoteleiro encontraram 
nele um ouvinte crdulo, cuja receptividade aumentou ao lhe ser mostrado um broche de metal coberto de ptina verde, o qual teria sido encontrado nas cinzas junto 
aos restos da jovem. Sem qualquer dvida crtica, comprou o broche e, ao deixar o albergo, viu numa janela aberta um ramo de asfdelo florido, tendo interpretado 
a viso das flores fnebres como uma confirmao da legitimidade de sua nova aquisio.
         Mas, com o broche, um novo delrio apoderou-se dele, ou melhor, o antigo recebeu um novo acrscimo - o que no parece de bom augrio para o tratamento que 
fora iniciado. O par amoroso abraado fora desenterrado perto do foro, e foi em suas cercanias, no templo de Apolo, que em seu sonho o jovem vira Gradiva deitar-se 
para dormir (ver em [1]). No seria possvel que mais tarde ela se tivesse dirigido para o foro e encontrado algum, tendo os dois ento morrido juntos? Dessa suspeita 
surgiu um sentimento atormentador comparvel ao cime. Refletindo sobre a improbabilidade da hiptese, tranqilizou-se parcialmente e recuperou o equilbrio suficiente 
para cear no Hotal Diomde. Ali sua ateno voltou-se para dois hspedes recm-chegados, um rapaz e uma moa, julgou serem irmos devido a certa semelhana fsica, 
apesar dos cabelos de cores diferentes. Foram essas as primeiras pessoas que encontrou em sua viagem a lhe causarem uma impresso favorvel. A moa trazia uma rosa 
vermelha de Sorrento que lhe despertou uma recordao imprecisa. Afinal ele se recolheu e teve um sonho singularmente absurdo, embora sem dvida provocado pelas 
experincias do dia. 'Sentada em algum lugar no sol, Gradiva confeccionava um lao de um longo talo de erva para capturar um lagarto, e disse: "Por favor, fique 
bem quieto. Nossa colega tem razo, esse mtodo  realmente timo e ela j o utilizou com excelentes resultados."' Ainda adormecido, defendeu-se do sonho com o pensamento 
crtico de que o mesmo era totalmente insensato, conseguindo libertar-se dele com a ajuda de um pssaro invisvel que, emitindo um pio sarcstico, chamou e carregou 
o lagarto em seu bico.
         Apesar desse tumulto, ele acordou num estado de esprito mais lcido e mais equilibrado. Uma roseira com flores semelhantes s que vira na vspera no peito 
da nova hspede o fez lembrar que, durante o sono, ouvira algum dizer que era costume oferecerem-se rosas na primavera. Sem refletir, colheu algumas rosas e o ato 
exerceu um efeito tranqilizante em seu esprito. Sentindo-se liberto de seus sentimentos anti-sociais, dirigiu-se pelo caminho regular para Pompia, com a mente 
entretida em problemas referentes a Gradiva e levando consigo as rosas, o caderno de esboos e o broche de metal. O antigo delrio comeou a apresentar fissuras; 
ele conjeturou se acaso no poderia encontrar Gradiva em Pompia, no somente ao meio-dia, mas em outros momentos tambm. Os ltimos elementos acrescentados ao delrio, 
entretanto, adquiriram maior fora, e os cimes decorrentes dos mesmos atormentavam-no sob vrios disfarces. Ele quase desejaria que a apario permanecesse visvel 
somente a seus olhos, escapando  percepo dos demais; assim, poderia consider-la sua propriedade exclusiva. Enquanto caminhava sem destino, aguardando o meio-dia, 
teve um encontro inesperado. Na Casa del Fauno deparou num canto um casal que, julgando-se ao abrigo de olhares, trocava abraado um demorado beijo. Assombrado, 
reconheceu no par o simptico casal da noite anterior, cujo procedimento, entretanto, no coadunava com o de dois irmos, pois para ele o abrao e o beijo pareceram 
muito prolongados. Tratava-se, afinal, de mais um casal amoroso, provavelmente em lua-de-mel - mais um Edwin e Angelina. Surpreendentemente, dessa vez a viso dos 
mesmos s lhe causou satisfao. Reverentemente, como se houvesse interrompido algum secreto ato de devoo, retirou-se sem ser percebido. Recuperou uma atitude 
de respeito, h muito perdida.
         Ao chegar  Casa de Meleagro, tornou a sentir um medo to violento de encontrar Gradiva em companhia de mais algum, que quando ela apareceu as nicas palavras 
que lhe ocorreram foram as seguintes: 'Ests sozinha?' Foi com dificuldade que a jovem conseguiu faz-lo perceber que ele colhera as rosas para ela. Ele lhe confessou 
seu ltimo delrio: ser ela a dona do broche verde, ser ela a jovem encontrada nos braos do amante no foro. Com um leve toque irnico, ela perguntou se acaso ele 
encontrara o objeto no sol (e ela empregou a palavra [italiana] 'sole'), pois o sol fazia coisas semelhantes. O rapaz confessou estar-se sentindo um pouco tonto, 
e ela sugeriu como cura que ele compartilhasse da merenda dela. Ela lhe ofereceu a metade de um pozinho que trazia embrulhado num papel de seda e comeu a outra 
metade com bvio apetite. Seus lbios entreabertos deixavam entrever dentes perfeitos, que produziam um leve rangido ao penetrar na cdea do po. 'Sinto como se 
j tivssemos compartilhado certa vez de uma refeio semelhante, h dois mil anos atrs', disse ela, 'no te recordas?' (118.) Nenhuma resposta ocorreu a ele, mas 
a melhora de sua cabea, decorrente do alimento, e as muitas indicaes da presena real da jovem comearam a produzir seu efeito. A razo fortalecida o fez duvidar 
do delrio de que Gradiva no passasse de um fantasma do meio-dia, embora ela mesma tivesse acabado de afirmar que tinha compartilhado com ele de uma refeio h 
dois mil anos. Para solucionar tal conflito, ocorreu-lhe uma experincia que imediatamente levou a cabo com habilidade e renovada coragem. A jovem descansava sua 
mo esquerda, de delicados dedos, sobre os joelhos e uma das moscas, cuja inutilidade e impertinncia tanta indignao haviam provocado nele, pousou sobre ela. Num 
movimento sbito, a mo de Hanold elevou-se no ar para se abater com vigor sobre o inseto e sobre a mo de Gradiva.
         Essa experincia atrevida teve dois resultados: primeiro, a eufrica convico de ter, sem dvida alguma, tocado uma mo humana, real, viva e quente, mas 
logo em seguida uma reprimenda que o fez levantar-se num sobressalto da escadaria onde estava sentado, pois, passado seu primeiro espanto, Gradiva exclamou: 'Perdeste 
mesmo o juzo, Norbert Hanold!' Como todos sabem, o melhor mtodo para acordar um sonmbulo, ou um indivduo adormecido,  cham-lo pelo seu prprio nome. Contudo, 
infelizmente, no se ter oportunidade de observar os efeitos produzidos em Norbert Hanold pelo fato de Gradiva ter proferido seu nome (nome que ele no revelara 
a ningum em Pompia), pois nesse momento crtico surgiu em cena o simptico casal amoroso da Casa del Fauno, e a jovem senhora exclamou em tom de grata surpreza: 
'Zoe! Ests aqui tambm? E em lua-de-mel como ns? Nunca me escreveste uma nica palavra a respeito disso!' Diante dessa nova prova de que Gradiva era um ser vivo 
e real, Hanold fugiu.
         Zoe-Gradiva tambm no acolheu com grande prazer essa visita inesperada que a interrompeu numa tarefa aparentemente importante. Todavia, ela logo se recuperou 
e respondeu com naturalidade, explicando a situao  sua amiga - e tambm a ns -, de forma a livrar-se do jovem casal. Congratulou-os, e negou estar em lua-de-mel. 
'O rapaz que acabou de se afastar abriga, como vs, uma notvel aberrao. Parece acreditar que existe uma mosca zunindo em sua cabea. Bem, talvez todos tenhamos 
uma espcie de inseto aqui. Como entendo um pouco de entomologia, posso ser de alguma ajuda nesses casos. Meu pai e eu estamos hospedados no Sole. Alguma coisa tambm 
aconteceu com a cabea dele, pois teve a brilhante idia de me trazer, sob a condio de que me distrasse sozinha em Pompia e nada exigisse dele. Eu disse a mim 
mesma que seria capaz de desencavar algo de interessante aqui, sem a ajuda de ningum. Naturalmente eu no contava com a descoberta que fiz... isto , no contava 
encontrar-te, Gisa.' (124.) E acrescentou que precisava apressar-se, pois o pai a esperava para almoar no 'Sol'. Assim afastou-se, aps haver-se apresentado a ns 
como filha do zologo caador de lagartos e aps ter admitido por toda sorte de aluses ambguas, sua inteno teraputica e tambm outros propsitos secretos.
         Entretanto, no tomou a direo do Hotel do Sol, onde o pai a esperava. Pareceu-lhe tambm ver uma sombra que,  procura de seu tmulo, desapareceu por 
trs de um dos monumentos funerrios perto da Casa de Diomedes. Isto a levou a encaminhar-se para a Via dos Sepulcros, flexionando os ps quase perpendicularmente 
a cada passo. Hanold fugira para o mesmo local, confuso e envergonhado, e ali caminhava sem parar, de um lado para outro, no prtico do jardim, empenhado em solucionar 
a parte ainda obscura do seu problema atravs de um esforo intelectual. Um fato tornara-se inequivocamente claro para ele: fora insensatez ou loucura sua acreditar 
que se estava associando com uma jovem pompeana tornada  vida numa forma mais ou menos fsica. Essa clara compreenso interna (insight) de seu delrio era, sem 
dvida, um passo essencial para a volta  razo. Por outro lado, essa mulher viva, com quem outras pessoas se comunicavam como se fosse fisicamente to real quanto 
elas, era Gradiva, e conhecia o nome dele. Sua razo recm-despertada, porm, no era suficientemente forte para decifrar esse enigma, nem ele possua a tranqilidade 
emocional necessria para enfrentar to rdua tarefa, pois preferia ter sido enterrado h dois mil anos, na Casa de Diomedes, de modo a estar certo de no ter de 
se encontrar com Zoe-Gradiva novamente.
         Todavia, um violento desejo de tornar a v-la lutava contra os ltimos mpetos de fuga.
         Ao dobrar um dos quatro ngulos da colunata, recuou sobressaltado. Num fragmento da alvenaria de pedra estava sentada uma das jovens que morrera ali na 
Casa de Diomedes. Esta, entretanto,  sua ltima tentativa, logo repudiada, de refugiar-se no reino do delrio. No, era Gradiva, que evidentemente viera para lhe 
ministrar a ltima parte do seu tratamento. Ela interpretou corretamente o primeiro movimento instintivo dele como uma tentativa de deixar o prdio, e mostrou-lhe 
que no momento era impossvel retirar-se, pois desabara uma chuva torrencial. Implacvel, ela iniciou o interrogatrio perguntando-lhe o que tentara fazer com a 
mosca pousada em sua mo. Ele no teve mais coragem de usar um pronome particular, mas ousou algo mais importante: fazer-lhe a pergunta decisiva.
         'Como algum j disse, minha cabea estava muito confusa, e devo desculpar-me por ter batido na mo... no entendo como pude agir to desarrazoadamente... 
mas tambm no entendo como a dona da mo, ao repreender-me por minha... insensatez, pde declinar meu nome.' (134.)
         'Vejo que h coisas que teu entendimento ainda no alcanou, Norbert Hanold. No posso dizer, porm, que isto me surpreendeu, pois h muito me acostumaste 
com isto. Eu no precisava ter vindo a Pompia para descobri-lo, e poderia t-lo confirmado bem mais perto, a uns mil quilmetros daqui.
         'Sim, a uns mil quilmetros daqui', ela insistiu ao ver que ele ainda no compreendera, 'do outro lado da tua rua, na casa da esquina. Na minha janela h 
uma gaiola com um canrio.'
         Essas ltimas palavras,  medida que as ouvia, despertaram nele uma longnqua lembrana. Devia tratar-se do mesmo pssaro cujo canto pro- vocara nele a 
idia de viajar para a Itlia.
          'Naquela casa mora meu pai, Richard Bertgang, o catedrtico de zoologia.'
         Assim, como Zoe era sua vizinha, conhecia-o de vista, alm de saber seu nome. Sentimo-nos decepcionados; a soluo  desinteressante e parece no estar 
 altura de nossas expectativas.
         Norbert Hanold mostrou que ainda no reconquistara uma total independncia de pensamento ao replicar: 'Ento vs... vs sois Frulein Zoe Bertgang? Mas 
ela tinha um aspecto to diferente...
         A resposta de Frulein Bertgang revela-nos que entre os dois j houve outra relao que no a de simples vizinhos. Alegando antigos direitos, ela reclamou 
um tratamento mais familiar, aquele 'du' que ele usava to naturalmente ao interpelar o fantasma do meio-dia, mas que repudiara ao dirigir-se a uma jovem de carne 
e osso: 'Se julgais ser esse tratamento cerimonioso mais apropriado, eu tambm o adotarei. Mas o outro sai mais espontaneamente dos meus lbios. No sei se meu aspecto 
era diferente em nossa infncia, quando costumvamos brincar juntos amigavelmente ou nos atracar de quando em quando para variar. Mas se vos tivsseis dignado a 
olhar-me com ateno pelo menos uma vez nos ltimos anos, podereis ter percebido que h muito tempo tenho a aparncia de agora.'
         
         Ento j houve entre os dois uma amizade infantil - talvez mesmo um amor infantil - que justificava o du'. Essa soluo poderia parecer-nos to trivial 
como a que de incio suspeitamos. Verificamos, entretanto, que desce a um nvel muito mais profundo, ao constatarmos que essa relao infantil explica de forma inesperada 
alguns pormenores do seu contato de agora. Considere-se, por exemplo, a pancada na mo de Zoe-Gradiva, explicada de forma muito convincente por Norbert Hanold pela 
necessidade de uma resposta experimental para o problema da realidade fsica da apario. Acaso isso no parece ao mesmo tempo demasiadamente com um renascimento 
do impulso para brincadeiras violentas, constantes na infncia dos dois, segundo as palavras de Zoe? Considere-se tambm quando Gradiva indagou ao arquelogo se 
este no se recordava de h dois mil anos ter compartilhado de sua refeio. Essa pergunta incompreensvel logo parece adquirir sentido, se mais uma vez substituirmos 
o passado histrico por um passado pessoal - a infncia - do qual a jovem retinha lembranas vvidas, mas que parece ter sido esquecido pelo rapaz. De repente, surge-nos 
a descoberta de que as fantasias do jovem arquelogo sobre Gradiva talvez sejam um eco dessas lembranas infantis esquecidas. Assim sendo, no se trata de produtos 
arbitrrios de sua imaginao, tendo sido essas fantasias determinadas, sem que ele soubesse disso, pelo acervo de impresses infantis esquecidas, mas ainda nele 
atuantes. Seria possvel para ns, ainda que s possamos conjeturar sobre elas, mostrar em detalhe a origem dessas fantasias. Ele imaginou, por exemplo, que Gradiva 
devia ser de origem grega, filha de uma alta personagem, talvez de um sacerdote de Ceres. Isso se ajusta com perfeio ao seu conhecimento do nome grego da jovem, 
Zoe, e ao fato de ela pertencer  famlia de um professor de zoologia. Mas se as fantasias de Hanold so lembranas modificadas, podemos esperar encontrar, na informao 
fornecida por Zoe Bertgang, uma indicao da fonte dessas fantasias. Vamos ouvir o que ela tem a dizer. J nos falou sobre a ntima amizade infantil deles, e agora 
ir revelar-nos o subseqente desenvolvimento dessa relao de infncia.
         'Na verdade, naquela poca, at a idade em que comeam, no sei por que, a chamar-nos de "Backfisch", habituei-me a depender muitssimo de vossa companhia 
e acreditava que nunca encontraria no mundo um amigo melhor. Eu no tinha me, nem irm ou irmo, e para meu pai uma cobra-de-vidro conservada em lcool era muito 
mais interessante do que eu. Todos (inclusive as meninas) precisam de algo para ocupar seus pensamentos e o que quer que esteja ligado a eles. E isto  o que fostes 
para mim ento. Mas quando vos voltastes inteiramente para a arqueologia, descobri - deveis perdoar-me, mas na verdade esse tratamento formal parece-me demasiadamente 
ridculo e, alm disso, no se ajusta ao que quero dizer -, como estava dizendo, descobri que te tinhas tornado uma pessoa insuportvel, que, ao menos no que me 
dizia respeito, no possua olhos para ver nem boca para falar, e nem memria para lembrar-se de nossa amizade infantil. Sem dvida foi por isso que me achaste agora 
com aspecto diferente pois, quando s vezes te encontrava em reunies sociais - o que aconteceu ainda uma vez no ltimo inverno -, tu no me vias e muito menos me 
dirigias a palavra. No que houvesse nisso algo de pessoal, j que tratavas a todas igualmente. Para ti, eu era invisvel, e tu, com teu topete de cabelos louros 
que tantas vezes arrepiei em nossas brincadeiras, te mostravas to maante, to seco e mudo como uma cacatua empalhada e ao mesmo tempo to pomposo como um arqueoptrix 
- sim,  esse mesmo o nome daquele monstruoso pssaro antediluviano h pouco descoberto. S de uma coisa nunca suspeitei: que entretinhas uma fantasia igualmente 
afetada, considerando-me tambm aqui, em Pompia, como algo que fora escavado e que retornara  vida. Quando deparei contigo inesperadamente em minha frente, de 
incio foi-me muito difcil compreender a incrvel trama tecida por tua imaginao em teu crebro. Depois ela me divertiu e at me deu prazer, apesar da loucura, 
pois, como j te disse, eu no suspeitava isso de ti.'
         Assim ela nos mostrou claramente o que os anos haviam feito de sua amizade infantil. Nelas cresceu at transformar-se em amor, pois uma jovem precisa de 
um objeto a quem dedicar o seu corao. Frulein Zoe, a corporificao da inteligncia e da clareza, torna sua mente transparente para ns. Se  regra geral que 
toda jovem normalmente constituda dirija primeiramente sua afeio ao pai, Zoe, cuja famlia se resumia neste, estava especialmente destinada a faz-lo. Mas seu 
pai, totalmente absorvido em seus interesses cientficos, no lhe dava a mnima ateno. Assim, ela foi obrigada a se dirigir para outra pessoa, ligando-se particularmente 
ao seu jovem companheiro de brinquedos. Quando ele tambm deixou de fazer caso dela, seu amor no sofreu nenhuma diminuio; ao contrrio, intensificou-se, pois 
ele se tornara semelhante ao pai, absorvendo-se como ele na cincia e afastando-se da vida e de Zoe. Dessa forma foi possvel para ela manter-se fiel mesmo na infidelidade 
- reencontrar o pai no amado, abrangendo os dois na mesma emoo ou, como podemos dizer, identificando-os em seu sentimento. Mas que justificativa temos para essa 
pequena anlise psicolgica que pode parecer arbitrria? O prprio autor a oferece para ns num nico, mas altamente significativo, pormenor. Quando Zoe descreveu 
a transformao, que tanto a perturbou, de seu antigo companheiro de folguedos, injuriou-o comparando-o a um arqueptrix, o monstro alado antediluviano que pertence 
 arqueologia da zoologia. Desse modo ela encontrou uma nica expresso concreta da identidade das duas figuras. Sua queixa aplica-se, com a mesma palavra, tanto 
ao homem que ela amava quanto a seu pai. O arqueoptrix , podemos dizer, uma idia conciliatria ou intermediria, na qual seu pensamento sobre a insensatez do 
homem amado coincidiu com o pensamento anlogo sobre seu pai.
         J com o rapaz, as coisas tomaram um rumo diferente. Absorto na arqueologia, s se interessava por mulheres de bronze e de mrmore. Nele a amizade de infncia, 
em vez de intensificar-se transformando-se em paixo, dissolveu-se, caindo em to profundo esquecimento que, ao encontrar socialmente a antiga companheira de brinquedos, 
no a reconheceu.  verdade que, se examinarmos os fatos com mais cuidado, iremos perguntar-nos se 'esquecimento' ser a descrio psicolgica correta do destino 
dessas lembranas em nosso jovem arquelogo. Existe um gnero de esquecimento que se caracteriza pela dificuldade que a convocao externa mais forte tem em despertar 
a memria, como se alguma resistncia interna lutasse contra seu ressurgimento. Em psicopatologia essa espcie de esquecimento recebeu o nome de 'represso', da 
qual o caso exposto pelo autor parece ser um exemplo. Ora, no sabemos se o esquecimento de uma impresso est sempre vinculado  dissoluo de seu trao de memria 
na mente, mas podemos certamente afirmar que a 'represso' no coincide com a dissoluo ou a extino da memria.  verdade que o reprimido, via de regra, no pode 
emergir da memria sem maiores dificuldades, mas conserva uma capacidade de ao efetiva e, sob a influncia de algum evento externo, pode vir a ter conseqncias 
psquicas que podem ser consideradas como produtos da modificao da lembrana esquecida e como derivados dela, e que, se no forem vistas por esse prisma, permanecero 
incompreensveis. Parece-nos j termos reconhecido nas fantasias de Norbert Hanold sobre Gradiva derivados de lembranas reprimidas de sua amizade infantil com Zoe 
Bertgang. Tal retorno do que foi reprimido deve ser esperado com particular regularidadequando os sentimentos erticos de uma pessoa esto ligados s impresses 
reprimidas - quando sua vida ertica sofreu as investidas da represso. Esses casos comprovam o velho ditado latino: 'Naturam expelles furca, tamem usque recurret,' 
embora este originalmente se referisse somente  expulso por influncias externas, e no por conflitos internos. No entanto, esse provrbio no nos explica tudo; 
s nos informa sobre o fato do retorno da parte da natureza que foi reprimida, mas no descreve a maneira altamente singular desse retorno, que se realiza atravs 
do que classificaramos de malvola traio.  precisamente o que foi escolhido como instrumento da represso - como o 'furca' do provrbio latino - que vai constituir 
o veculo do retorno: oculto na fora repressora, o que  reprimido revelar-se- por fim vencedor. Esse fato, pouco tido em conta e que merece um exame atento,  
ilustrado - de forma mais impressionante do que o seria por muitos outros exemplos - por uma conhecida gua-forte de Flicien Rops; e  ilustrado com o caso tpico 
de represso na vida dos santos e penitentes. Um monge asctico, fugindo certamente das tentaes do mundo, volta-se para a imagem do Salvador na cruz, mas esta 
vai submergindo nas sombras, e em seu lugar ergue-se, radiante, a imagem de uma voluptosa mulher nua, tambm crucificada. Outros artistas, com menor compreenso 
interna (insight) psicolgica, mostram, em alegorias da tentao semelhantes a essa, o Pecado erguendo-se, insolente e triunfante, em diversas atitudes junto  cruz 
do Salvador. S Rops, porm, f-lo ocupar o lugar do Salvador na Cruz. Ele parece ter sabido que, quando o que foi reprimido retorna, emerge da prpria fora repressora.
         Vale a pena fazer uma pausa para observar em casos patolgicos como a mente humana se torna sensvel, em estados de represso, a qualquer aproximao do 
que foi reprimido, e como at mesmo leves semelhanas bastam para que por trs da fora repressora, e por meio da mesma, o reprimido venha a emergir. Tive entre 
meus pacientes um jovem - pouco mais que um menino - que, aps involuntariamente tomar conhecimento dos processos sexuais, passara a fugir de todos os desejos erticos 
que nele surgiam. Para esse propsito utilizava vrios mtodos de represso, intensificando sua dedicao aos estudos, tornando-se exageradamente dependente da me 
e adotando em geral um comportamento infantil. No vou expor aqui a forma como sua sexualidade reprimida voltou  tona, justamente em sua relao com a me, mas 
descreverei a circunstncia invulgar e original como uma de suas protees ruiu numa ocasio que jamais julgaramos suficiente para tal. A matemtica goza da reputao 
de desviar as atenes da sexualidade. Jean-Jacques Rousseau recebeu de uma dama a quem havia desagradado o seguinte conselho: 'Lascia le donne e studia la matematica!' 
Tambm o nosso fugitivo atirou-se com avidez ao estudo da matemtica e da geometria que lhe cabiam no currculo escolar, at que um dia suas faculdades de conhecimento 
paralisaram-se diante de alguns problemas aparentemente inocentes. Foi possvel reconstituir o enunciado de dois desses problemas: 'Dois corpos chocam-se, um com 
a velocidade de...etc.' e 'num cilindro de dimetro m, inscrever um cone...etc.' Outros certamente no teriam visto nesses problemas aluses evidentes a eventos 
sexuais, mas o jovem sentiu que a matemtica tambm o trara, e afastou-se dela tambm.
         Se Norbert Hanold fosse algum na vida real que dessa forma e com o auxlio da arqueologia houvesse fugido do amor e de uma amizade infantil, seria lgico 
e dentro das normas que o que nele revivesse as lembranas esquecidas da menina amada em sua infncia fosse justamente uma escultura antiga. Seria para ele um merecido 
destino apaixonar-se pela imagem em mrmore de Gradiva, por trs da qual, devido a uma semelhana inexplicada, a esquecida Zoe de carne e osso fizesse sua influncia 
notada.
         A prpria Frulein Zoe parece ter compartilhado do nosso enfoque do delrio do jovem arquelogo, pois a satisfao que exprimiu na parte final de sua 'franca, 
detalhada e instrutiva reprimenda' dificilmente poderia ter base em outra coisa que no no conhecimento de que ela prpria, desde o incio, estivera relacionada 
com o interesse dele por Gradiva. Fora precisamente isto que ela no esperara dele, mas que lograra perceber atravs dos disfarces delirantes. O tratamento psquico 
que ela administrara, entretanto, j exercera nele seus efeitos benficos, e Hanold sentia-se libertado, pois seu delrio foi substitudo por aquilo de que no constitura 
seno uma cpia inadequada e distorcida. Tambm no hesitou mais em lembrar-se da jovem e nela reconhecer a alegre, bondosa e inteligente companheira de folguedos, 
que em nada mudara nos pontos essenciais. Mas fez uma descoberta muito estranha...
         'Tu te referes', disse a jovem, 'ao fato de que algum tenha de morrer para chegar a estar vivo; mas sem dvida isso tem de ser assim mesmo para os arquelogos.' 
(141.) Evidentemente ela ainda no o perdoara pelo caminho tortuoso percorrido por ele, atravs da arqueologia, para de sua amizade infantil chegar  relao que 
h pouco haviam iniciado.
         'No, refiro-me ao teu nome... "Bertgang" tem o mesmo significado que "Gradiva", e quer dizer "algum que brilha ao avanar".'
         No estvamos preparados para isso. Nosso heri comeou a despojar-se de sua humildade e a desempenhar um papel ativo.  evidente que estava completamente 
curado de seu delrio e j o superara, tendo provado isso ao romper os ltimos fios da trama do delrio.  tambm exatamente dessa forma que se comportam os pacientes 
quando aliviados da compulso dos seus pensamentos delirantes pela revelao do material reprimido oculto por estes. Ao compreend-los, eles prprios revelam nas 
idias que subitamente lhe ocorrem as solues dos enigmas finais e mais importantes de sua estranha condio. J adivinhramos que a origem grega da imaginria 
Gradiva era um resultado obscuro do nome grego 'Zoe', mas no ousramos examinar o nome 'Gradiva', deixando-o passar como uma criao arbitrria da imaginao de 
Norbert Hanold. Mas eis que esse nome agora se revela como sendo derivado - sendo na verdade uma traduo - do sobrenome reprimido da menina que ele amara na infncia 
e aparentemente esquecera.
         A investigao da origem do delrio e sua soluo esto agora completas. No que em seguida narra, o autor sem dvida tem em mira um final harmonioso para 
sua histria. Tranqilizamo-nos quanto ao futuro ao ler que o rapaz, que at aqui fora obrigado a desempenhar o lamentvel papel de um indivduo necessitado de tratamento 
urgente, deu mais alguns passos no caminho do restabelecimento e conseguiu despertar em Zoe alguns dos sentimentos que anteriormente o fizeram sofrer. Foi assim 
que a fez sentir cimes, mencionando a simptica jovem senhora que h pouco interrompera seu tte--tte na Casa de Meleagro, e confessando que a mesma fora a primeira 
mulher a despertar-lhe sentimentos favorveis. A essas palavras, Zoe mostrou-se disposta a separar-se friamente dele, observando que j havia sido recuperada a razo 
- inclusive por ela prpria; ele poderia procurar Gisa Hartleben (ou como quer que ela agora se chamasse) e oferecer seus prstimos cientficos para a visita dela 
em Pompia; quanto a ela, Zoe, voltaria ao Albergo del Sole, onde seu pai a esperava para almoar; talvez viessem a se encontrar novamente em alguma festa na Alemanha 
ou na lua. Contudo, pretextando mais uma vez afastar uma mosca, o arquelogo beijou-a na face e em seguida nos lbios, passando  agressividade que  o inevitvel 
dever masculino na prtica do amor. Uma nica vez uma nova sombra pareceu ameaar a felicidade do par, quando Zoe declarou precisar ento realmente reunir-se ao 
pai, seno ele morreria de fome no Sole. 'Teu pai?... O que acontecer?...' (147.) Mas a inteligente jovem desfez rapidamente as preocupaes de Hanold. 'Provavelmente 
nada. No sou um exemplar indispensvel de sua coleo zoolgica. Se o fosse, talvez no tivesse to intensamente entregue a ti meu corao.' No entanto, se acaso 
o pai inesperadamente encarasse o assunto de outra forma, haveria um expediente seguro. Hanold s precisaria tomar um barco para Capri, ali capturar um Lacerta faraglionensis 
(ele poderia praticar a tcnica no dedo mindinho dela), soltar o animalzinho em Pompia e tornar a ca-lo sob as vistas do zologo, deixando-o escolher entre um 
faraglionensis do continente e sua filha.  fcil ver que nesse ardil se mesclavam a zombaria com a amargura, e que por meio dele a jovem como que advertia o noivo 
a no imitar muito fielmente o modelo pelo qual ela o escolhera. Nesse ponto Norbert Hanold torna a nos tranqilizar, demonstrando por vrios indcios, aparentemente 
triviais, a grande transformao nele ocorrida. Props  sua Zoe uma lua-de-mel na Itlia, e em Pompia, como se todos aqueles pares de ternos Edwins e Angelinas 
nunca houvessem provocado a sua indignao. Sua memria no guardara quaisquer sentimentos contra aqueles felizes casais que tanto e to desnecessariamente se haviam 
afastado de seus lares alemes. O autor tem razo em apresentar tal perda de memria como o melhor e mais fidedigno sinal de uma mudana de atitude.  sugesto do 
'seu companheiro de infncia, tambm de certa maneira desenterrado das runas' (150), Zoe respondeu que ainda no se sentia suficientemente viva para tomar tal deciso 
geogrfica.
         O delrio foi, portanto, sobrepujado por uma bela realidade, mas, antes que os dois amorosos deixassem Pompia, iriam prestar-lhe uma ltima homenagem. 
Ao alcanarem a Porta de Herculano, onde no comeo da Via Consolare uma fieira de antigas pedras com ressaltos cruza a estrada, Norbert Hanold parou e pediu  jovem 
que caminhasse  sua frente. Percebendo sua inteno, 'Zoe Bertgang, Gradiva rediviva, ergueu um pouco a saia com sua mo esquerda e avanou, enquanto ele a observava 
com um olhar sonhador. Com passos geis e silenciosos ela atravessou a rua sobre as pedras, iluminada pelo sol de Pompia.' Como o triunfo do amor, o que era belo 
e precioso no delrio encontrou reconhecimento como tal.
         
         Em sua ltima metfora - 'o amigo de infncia desenterrado das runas' - o autor nos forneceu a chave do simbolismo utilizado pelo delrio de nosso heri 
para disfarar as lembranas deprimidas. Na verdade no existe melhor analogia para a represso - que preserva e torna algo inacessvel na mente - do que um sepultamento 
como o que vitimou Pompia, e do qual a cidade s pde ressurgir pelo trabalho das ps. Por essa razo o jovem arquelogo, em sua fantasia, foi obrigado a deslocar 
para Pompia o modelo do relevo que lhe recordava o objeto de seu amor ao estender-se sobre essa valiosa similaridade que sua delicada sensibilidade percebera entre 
um determinado processo mental do indivduo e um evento histrico isolado da histria da humanidade.
         
         
         Mas afinal nosso propsito primitivo era somente investigar, com a ajuda de certos mtodos analticos, dois ou trs sonhos que aparecem aqui e ali no texto 
de Gradiva. Como foi, ento, que passamos a dissecar toda a histria e a examinar os processos mentais dos dois personagens principais? Na verdade todo esse trabalho 
no foi intil; tratava-se de trabalho preliminar essencial. Assim tambm, ao tentarmos compreender os sonhos reais de uma pessoa real, temos de examinar atentamente 
seu carter e sua histria, investigando no s as experincias que antecederam de pouco seu sonho, mas tambm as de seu passado remoto. Acredito at que ainda no 
estamos prontos para nos dedicarmos  nossa tarefa original, sendo necessrio que examinemos mais demoradamente a histria a fim de efetuar outros trabalhos preliminares.
         Meus leitores sem dvida tero ficado surpresos ao notar que at aqui tratei todas as atividades e manifestaes mentais de Norbert Hanold e Zoe Bertgang 
como se os dois fossem pessoas reais e no criaes de um autor, e como se a mente do autor no fosse um instrumento capaz de deformar ou obscurecer, mas um instrumento 
totalmente lmpido. Meu procedimento deve parecer-lhes ainda mais incompreensvel se considerarem que o autor classificou sua histria de 'fantasia', negando-lhe 
qualquer semelhana com a realidade. Entretanto, descobrimos que todas as suas descries copiam to fielmente a realidade, que no nos oporamos  apresentao 
de Gradiva como um estudo psiquitrico. S em duas ocasies o autor fez uso do seu indiscutvel direito de formular proposies que no parecem apoiar-se nas leis 
da realidade. A primeira  quando faz o jovem arquelogo deparar um autntico relevo da Antiguidade clssica de tal forma semelhante a uma pessoa viva de poca muito 
posterior, no s numa singular postura do p ao andar, mas tambm em todos os traos fisionmicos e formas corporais, que o jovem  capaz de tomar a aparncia fsica 
dessa pessoa como sendo a prpria escultura tornada  vida. E a segunda ocasio  quando faz com que o rapaz encontre a jovem viva precisamente em Pompia, onde 
sua imaginao colocara a mulher morta, ao passo que sua viagem para a Itlia na verdade o afastara da primeira, a qual ele acabara de ver na rua da cidade onde 
morava. Entretanto, essa segunda disposio do autor no se afasta demasiadamente da possibilidade real, apenas faz intervir o acaso, que inegavelmente desempenha 
seu papel em muitas histrias humanas; alm disso, recorre a ele acertadamente, pois aqui o acaso demonstra a fatdica e comprovada verdade de que a fuga  o instrumento 
mais seguro para se cair prisioneiro daquilo que se deseja evitar. A primeira proposio, o ponto de partida em que se apia toda a histria, ou seja, a grande semelhana 
entre a escultura e a jovem viva ( que uma escolha mais moderada poderia ter limitado  singular flexo do p ao andar), parece-nos mais fantasiosa, sendo uma deciso 
totalmente arbitrria do autor. Aqui sentimo-nos tentados a permitir que nossa prpria fantasia estabelea um elo com a realidade. O nome 'Bertgang' talvez seja 
um indcio de que em tempos idos as mulheres dessa famlia distinguiam-se pelo singular e gracioso andar, e podemos supor que os Bertgangs germnicos descendessem 
de uma famlia romana a que pertencera a mulher que inspirara um escultor a perpetuar na escultura a peculiaridade do caminhar dela. Todavia, j que as variaes 
da forma humana no so independentes umas das outras, e j que mesmo nos tempos modernos reaparecem com freqncia tipos antigos (como podemos comprovar pelo exame 
de obras de arte), no seria totalmente impossvel que uma Betgang da atualidade pudesse reproduzir a forma de uma antiga ascendente em todas as outras caractersticas 
de sua estrutura corprea. Mas em vez de tecer tais conjecturas, seria sem dvida mais sensato perguntar ao prprio autor de que fontes se originou essa parte de 
sua criao; talvez tivssemos ento uma boa oportunidade de mostrar mais uma vez como muitas coisas aparentemente arbitrrias na verdade obedecem a leis. No entanto, 
como no temos acesso a essas fontes ocultas na mente do autor, concedamos-lhe seu irrestrito direito de basear uma narrativa totalmente verossmil numa premissa 
improvvel - um direito de que Shakespeare, por exemplo, tambm fez uso no Rei Lear.
         Com exceo disso, reafirmamos que o autor apresentou-nos um estudo psiquitrico perfeitamente correto, pelo qual podemos medir nossa compreenso dos trabalhos 
da mente - um caso clnico e a histria de uma cura que parecem concebidos para ressaltar determinadas teorias fundamentais da psicologia mdica. J  bastante singular 
que o autor possa ter realizado tal trabalho, mas o que diramos se, ao ser interrogado, ele negasse ter tido tal inteno?  muito fcil estabelecer analogias e 
atribuir sentidos s coisas, mas acaso no teremos emprestado a essa encantadora e potica histria um significado secreto bastante distanciado das intenes do 
autor?  possvel. Voltaremos  questo mais tarde. Por hora, entretanto, limitar-nos-emos a ressalvar que tentamos evitar qualquer interpretao tendenciosa, expondo 
quase toda a histria nas prprias palavras do autor. Quem cotejar nossa sntese com o verdadeiro texto de Gradiva ter de corroborar nossa assero.
         Talvez, na opinio da maioria das pessoas, estejamos prestando um desservio ao autor, ao declarar que sua obra  um estudo psiquitrico. Dizem que um autor 
deveria evitar qualquer contato com a psiquiatria e deixar aos mdicos a descrio de estados mentais patolgicos. A verdade, porm,  que o escritor verdadeiramente 
criativo jamais obedece a essa injuno. A descrio da mente humana , na realidade, seu campo mais legtimo; desde tempos imemoriais ele tem sido um precursor 
da cincia e, portanto, tambm da psicologia cientfica. Mas o limite entre o que se descreve como estado mental normal e como patolgico  to convencional e to 
varivel, que  provvel que cada um de ns o transponha muitas vezes no decurso de um dia. Por outro lado, a psiquiatria estaria cometendo um erro se tentasse restringir-se 
permanentemente ao estudo das graves e sombrias doenas decorrentes de severos danos sofridos pelo delicado aparelho da mente. Desvios da sade mais leves e suscetveis 
de correo, que hoje podemos atribuir apenas a perturbaes na interao das foras mentais, atraem igualmente seu interesse. Na verdade, s atravs deles  que 
pode chegar  compreenso dos estados normais, assim como dos fenmenos das doenas graves. Conseqentemente, o escritor criativo no pode esquivar-se do psiquiatra, 
nem o psiquiatra esquivar-se do escritor criativo, e o tratamento potico de um tema psiquitrico pode revelar-se correto, sem qualquer sacrifcio de sua beleza.
          o que ocorre com essa imaginativa exposio da histria de um caso e do seu tratamento: est realmente isenta de erros. Agora que terminamos de contar 
a histria e satisfizemos nossa curiosidade, podemos examin-la com mais ateno; vamos reproduzi-la fazendo uso da terminologia tcnica da nossa cincia, trabalho 
em que no nos sentiremos desconcertados diante da necessidade de repetir o que foi dito.
         O autor refere-se com freqncia ao estado de Norbert Hanold como 'delrio', e no temos motivos para refutar essa designao. Podemos apontar duas caractersticas 
principais de um 'delrio' que, se no o descrevem de forma exaustiva, o distinguem de outras perturbaes. Em primeiro lugar, o delrio pertence ao grupo de estados 
patolgicos que no produzem efeito direto sobre o corpo, mas que se manifestam apenas por indicaes mentais. Em segundo lugar,  caracterizado pelo fato de que 
nele as 'fantasias' ganharam a primazia, transformando-se em crena e passando a influenciar as aes. Se lembrarmos a viagem de Hanold a Pompia com o fito de procurar 
as pegadas de Gradiva nas cinzas, teremos um timo exemplo de uma ao sob a influncia de um delrio. Um psiquiatra talvez inclusse o delrio de Norbert Hanold 
no vasto grupo da 'parania', classificando-o provavelmente como 'erotomania fetichista', j que seu trao mais saliente era uma paixo por uma escultura, e aos 
olhos desse psiquiatra, que tudo tende a ver pelo prisma mais grosseiro, o interesse do jovem arquelogo por ps e posies de ps inevitavelmente passaria por 'fetichismo'. 
Contudo, todos os sistemas de nomenclatura ou classificao dos diversos tipos de delrio de acordo com seu tema principal so de certa forma precrios e estreis.
         Alm disso, como nosso heri era uma pessoa capaz de desenvolver um delrio baseado em uma preferncia to singular, um psiquiatra rigoroso o qualificaria, 
sem hesitar, de dgnr, e procuraria a hereditariedade que o conduzira inevitavelmente a esse destino. Mas nesse ponto, e com razo, o autor no segue o psiquiatra, 
pois deseja aproximar-nos do seu heri para facilitar a 'empatia'; o diagnstico de dgnr, certo ou errado, colocaria uma barreira entre o arquelogo e ns, leitores, 
que somos pessoas normais, o tipo padro da humanidade. As precondies hereditrias e constitucionais do estado tambm no ocupam muito o autor, que por outro lado 
se aprofunda na composio mental pessoal que foi capaz de dar origem a tal delrio.
         Numa questo muito importante, Norbert Hanold comportava-se de forma bastante diversa de um ser humano comum: no se interessava por mulheres vivas. A cincia 
de que era servidor apoderara-se desse interesse e deslocara-o para as mulheres de mrmore ou de bronze. Esse fato no deve ser encarado como um pormenor trivial; 
ao contrrio, era a precondio bsica dos eventos a serem descritos, pois certo dia uma determinada escultura desse tipo atraiu todo o interesse que normalmente 
s  dedicado a uma mulher viva, estabelecendo-se assim o delrio. A seguir vimos a maneira como esse delrio foi curado atravs de uma feliz cadeia de eventos e 
como o interesse do nosso heri foi deslocado das mulheres de mrmore para uma mulher viva. O autor no nos deixa seguir as influncias que levaram nosso heri a 
afastar-se das mulheres; apenas nos informa que a atitude dele no era explicada por sua disposio inata, a qual, muito ao contrrio, inclua uma boa parcela de 
necessidades imaginativas (e, por que no dizer, erticas). Tambm vimos, mais tarde, que na infncia ele no evitou as outras crianas, mantendo amizade com uma 
menina, sua inseparvel companheira, repartindo com ela suas merendas e deixando-a arrepiar seus cabelos no decurso de brincadeiras violentas.  em ligaes como 
essas, onde o afeto se combina  agressividade, que o erotismo imaturo da infncia se expressa; s mais tarde emergem suas conseqncias, mas ento de forma irresistvel; 
na infncia, geralmente s os mdicos e os escritores criativos o reconhecem como erotismo. Nosso escritor mostra-nos claramente que tambm  da mesma opinio, fazendo 
com que seu heri desenvolva subitamente um vivssimo interesse pelos ps e pelo andar das mulheres. Esse interesse lhe traz forosamente uma m reputao de ser 
um fetichista de ps. Contudo, ns no podemos evitar de ligar esse interesse  lembrana de sua companheira de infncia, pois sem dvida j ento a moa andava 
daquela forma singular e graciosa, apoiando-se nos dedos e flexionando a planta dos ps quase perpendicularmente ao solo. Foi para retratar um andar semelhante que 
a escultura antiga adquiriu uma to grande importncia para Norbert Hanold. Queremos acrescentar, alis, que na derivao desse singular fenmeno de fetichismo o 
autor est em completo acordo com a cincia. Na verdade, desde Binet [1888] temos tentado atribuir o fetichismo s impresses erticas da infncia.
         O estado de se manter permanentemente afastado das mulheres produz uma susceptibilidade pessoal ou, como nos acostumamos a dizer, uma 'disposio'  formao 
de um delrio. Esse distrbio mental comea a se desenvolver no momento em que uma impresso casual desperta experincias infantis esquecidas e que tm, ainda que 
levemente, traos de conotao ertica. Entretanto, 'desperta' no  exatamente a descrio adequada, se levarmos em conta o que se segue. Devemos repetir o acurado 
relato do autor em termos tcnicos psicolgicos. Ao encontrar o relevo, no se recordou Norbert Hanold de j ter visto a amiga de infncia caminhar de forma anloga; 
no teve lembrana alguma do fato, mas todos os efeitos produzidos pela escultura tiveram origem nessa conexo com uma impresso de sua infncia. Ao ser despertada, 
essa impresso infantil tornou-se ativa, comeando a produzir efeitos, mas no chegou  conscincia, isto , permaneceu 'inconsciente', para usar um termo que hoje 
j  imprescindvel na psicopatologia. Desejaramos que esse inconsciente no fosse objeto de nenhuma discusso de filsofos ou naturalistas, que com freqncia 
s possuem importncia etimolgica. Por hora, no dispomos de uma denominao melhor para os processos psquicos que, embora ativos, no atingem a conscincia da 
pessoa, e isso  tudo o que queremos dizer com nossa 'inconscincia'. Quando alguns pensadores tentam refutar a existncia de um inconsciente desse tipo, taxando-o 
de insensatez, s podemos supor que nunca se ocuparam de fenmenos mentais desse gnero; que esto sob a influncia da experincia geral de que tudo o que  mental 
e se torna intenso e ativo, torna-se simultaneamente consciente; que eles ainda tm de aprender (o que nosso autor sabe muito bem) que existem sem dvida processos 
mentais que, apesar de serem intensos e de produzirem efeitos, ainda assim permanecem afastados da conscincia.
         J dissemos h pouco (ver a partir de [1]) que em Norbert Hanold as lembranas de suas relaes infantis com Zoe estavam em estados de 'represso'; e aqui 
as chamamos de lembranas 'inconscientes'. Agora precisamos dar mais ateno  relao entre esses dois termos tcnicos, que parecem coincidir em seu significado. 
Na verdade no  difcil esclarecer a questo. O conceito de 'inconsciente'  o mais amplo, sendo o de 'reprimido' o mais restrito. Tudo que  reprimido  inconsciente, 
mas no podemos afirmar que tudo que  inconsciente  reprimido. Se ao ver o relevo, Hanold se houvesse recordado do modo de andar de Zoe, o que anteriormente fora 
uma lembrana inconsciente se teria tornado simultaneamente ativo e consciente, e isso teria demonstrado que essa lembrana no fora anteriormente reprimida. 'Inconsciente' 
 um termo puramente descritivo, indefinido em alguns aspectos e, poderamos dizer, esttico. 'Reprimido'  uma expresso dinmica, que leva em conta a interao 
de foras mentais; implica a presena de uma fora que procura provocar toda uma srie de efeitos psquicos, inclusive o de tornar-se consciente, e a essa fora 
ope-se uma outra fora contrria, capaz de obstruir alguns desses efeitos psquicos, inclusive tambm aquele de tornar-se consciente. A caracterstica de algo reprimido 
 justamente a de no conseguir chegar  conscincia, apesar de sua intensidade. Portanto, no caso de Hanold, a partir do momento em que surge o relevo, passamos 
a nos ocupar com alguma coisa inconsciente que est reprimida ou, mais simplesmente, com alguma coisa reprimida.
         As lembranas de Norbert Hanold de sua ligao infantil com a menina de andar gracioso estavam reprimidas, mas esta ainda no  a viso correta da situao 
psicolgica. Enquanto lidarmos apenas com lembranas e idias, permaneceremos na superfcie. S os sentimentos tm valor na vida mental. Nenhuma fora mental  significativa 
se no possuir a caracterstica de despertar sentimentos. As idias s so reprimidas porque esto associadas  liberao de sentimentos que devem ser evitados. 
Seria mais correto dizer que a represso age sobre sentimentos, mas s nos apercebemos destes atravs de sua associao com as idias. Assim, os sentimentos erticos 
de Norbert Hanold  que haviam sido reprimidos, e como o seu erotismo no tinha e no tivera na infncia outro objeto a no ser Zoe Bertgang, suas lembranas dela 
foram esquecidas. O relevo antigo despertou seu erotismo adormecido, tornando ativas suas lembranas da infncia. Devido a uma resistncia presente nele contra esse 
erotismo, s enquanto inconscientes essas lembranas podiam tornar-se operativas. O que nele ento se desenvolveu foi uma luta entre o poder do erotismo e o poder 
das foras que o reprimiam, luta esta que se manifestava como delrio.
         Nosso autor omitiu as razes que levaram  represso da vida ertica de seu heri, pois a dedicao de Hanold  cincia no passava certamente de um instrumento 
utilizado pela represso. Nesse ponto um mdico teria de investigar mais profundamente, mas talvez sem nenhuma garantia de sucesso. Contudo, como j assinalamos 
com admirao, com muito acerto o autor mostrou-nos como o erotismo reprimido emerge precisamente do campo dos instrumentos que serviram  sua represso. Apontou-se 
com justia ter sido uma antiguidade, a escultura feminina em mrmore, que arrancou nosso arquelogo do seu afastamento do amor, advertindo-o da necessidade de pagar 
 vida a dvida que desde o nascimento pesa sobre ns.
         As primeiras manifestaes do processo desencadeado em Hanold pelo relevo foram as fantasias que giravam em torno da figura representada nesse relevo. A 
figura parecia-lhe 'atual', no melhor sentido da palavra, e 'viva', como se o artista houvesse perpetuado no mrmore uma viso colhida nas ruas. O arquelogo batizou 
a figura de 'Gradiva', inspirando-se no epteto do deus da guerra dirigindo-se ao combate - 'Mars Gradivus'. Dotou a personalidade dela com um nmero cada vez maior 
de caractersticas. Ela poderia ter sido filha de um alto personagem, talvez de um patrcio ligado ao culto de alguma divindade. Acreditava poder ver nos seus traos 
fisionmicos uma origem grega e, por fim, sentiu-se compelido a remov-la da vida agitada de uma capital para a mais tranqila Pompia, onde a fazia caminhar sobre 
as pedras de lava que facilitavam a travessia das ruas. (ver em [1]) Esses produtos de sua fantasia parecem-nos bastante arbitrrios, mas ao mesmo tempo inocentes 
e inequvocos. E, na verdade, mesmo quando pela primeira vez eles o estimularam  ao - quando, obcecado pelo problema da realidade daquele andar, o arquelogo 
comeou a observar a vida para observar os ps das mulheres e jovens contemporneas -, essa ao era aparentemente justificada por motivos cientficos conscientes, 
como se todo o seu interesse por Gradiva tivesse origem em sua dedicao profissional  arqueologia. (ver em [2]) As jovens e as senhoras por ele escolhidas na rua 
como objeto de tal investigao devem, naturalmente, ter atribudo ao seu comportamento um carter grosseiramente ertico, e s podemos dar-lhes razo, embora no 
tenhamos dvida alguma de que Hanold ignorasse totalmente tanto os motivos de suas pesquisas quanto as origens de suas fantasias sobre Gradiva. Como vimos depois, 
estas eram ecos das lembranas do seu amor infantil, derivados, transformaes e distores dessas lembranas, aps no terem elas conseguido chegar  conscincia 
dele de uma forma inalterada. Seu juzo de natureza aparentemente esttica de que a escultura tinha um aspecto 'atual' substituiu seu conhecimento de que um andar 
desse tipo pertencia a uma jovem que ele conhecia e que andava na rua na poca presente. Por trs da impresso de que a escultura era 'viva' e da fantasia de que 
o modelo era grego, estava sua lembrana do nome Zoe, que significa 'vida' em grego. 'Gradiva', como nos revela o prprio heri no fim da histria, aps ter sido 
curado do seu delrio,  uma traduo do sobrenome 'Bertgang', que quer dizer mais ou menos 'algum que brilha ou esplende ao avanar'. (ver em [1]) Os pormenores 
relativos ao pai de Gradiva procediam do conhecimento de Hanold de que Zoe Bertgang era a filha de um renomado professor da Universidade, o que em termos clssicos 
pode ser traduzido como 'servio do templo'. Por fim, sua fantasia transportou-a para Pompia, no 'porque sua natureza serena e tranqila assim o exigisse', mas 
porque em sua cincia ele no pde encontrar uma analogia mais apropriada para seu singular estado, no qual tomou conhecimento de suas lembranas de uma amizade 
de infncia, embora atravs de obscuros meios de informao. Aps ter feito sua prpria infncia coincidir com o passado clssico (o que era muito fcil para ele), 
houve uma perfeita analogia entre o soterramento de Pompia - que fez desaparecer mas ao mesmo tempo preservou o passado - e a represso, de que ele tinha conhecimento 
atravs do que poderamos chamar de percepo 'endopsquica'. Assim ele utilizava o mesmo simbolismo a que o autor faz a jovem recorrer quase no final da histria: 
'Eu disse a mim mesma que seria capaz de desencavar algo de interessante aqui, sem a ajuda de ningum. Naturalmente eu no contava com a descoberta que fiz...' (124 
(ver em [1]).) E bem no final, quando Hanold sugeriu que passassem ali sua lua-de-mel, ela respondeu com uma referncia a 'seu companheiro de infncia, tambm de 
certa maneira desenterrado das runas'. (150 (ver em [2]).)
         Assim, observamos j nos primeiros produtos das fantasias delirantes e aes de Hanold um duplo grupo de determinantes, derivando-se de duas fontes diferentes. 
Uma delas era manifesta para Hanold, a outra  revelada para ns quando examinamos os processos mentais dele. Uma delas, encarada do ponto de vista de Hanold, era 
consciente para ele; a outra era completamente inconsciente. Uma delas procedia em sua totalidade do crculo de idias da cincia arqueolgica, a outra surgia das 
lembranas infantis reprimidas, que se tinham tornado ativas, e dos instintos emocionais a elas ligados. Pode-se dizer que uma era superficial e se sobrepunha  
outra, a qual como que se ocultava sob a primeira. A motivao cientfica servia de pretexto para a motivao ertica inconsciente, estando a cincia inteiramente 
a servio do delrio. Entretanto, no se deve esquecer que os determinantes inconscientes nada conseguem realizar sem satisfazer simultaneamente os determinantes 
cientficos conscientes. Os sintomas de um delrio - tanto as fantasias como as aes - na verdade so produtos de uma conciliao entre as duas correntes mentais, 
e numa conciliao so levadas em conta as pretenses das duas partes, mas cada parte precisa renunciar a uma parcela do que quer alcanar. S atravs de uma luta 
 que se alcana essa conciliao - no caso presente, atravs do conflito que presumimos entre o erotismo suprimido e as foras que o mantinham em represso. Na 
realidade essa luta  constante na formao do delrio. O ataque e a resistncia so renovados aps a construo de cada conciliao, que nunca , por assim dizer, 
inteiramente satisfatria. Nosso autor tambm em conhecimento desse fato, e  por isso que faz um desassossego peculiar dominar esse estdio do distrbio do seu 
heri, como precursor e garantia de novos desenvolvimentos.
         Essas peculiaridades significativas - a motivao dupla de fantasias e decises, e a construo de pretextos conscientes para aes que so motivadas em 
grande parte pelo reprimido - surgiro freqentemente, e talvez com maior clareza, no curso posterior da histria. E com muito acerto, pois o autor soube compreender 
e expor a caracterstica principal e indispensvel dos processos mentais patolgicos
         O desenvolvimento do delrio de Norbert Hanold prosseguiu com um sonho que, no tendo sido provocado por nenhum novo evento, parece ter-se originado inteiramente 
de sua mente, onde havia um conflito. Mas faamos uma pausa antes de conjeturar se o autor tambm demonstra possuir, como espervamos, uma profunda compreenso da 
construo dos sonhos. Averigemos primeiro o que tem a dizer a cincia psiquitrica sobre as hipteses formuladas pelo autor a respeito da origem de um delrio, 
e qual a sua atitude quanto ao papel desempenhado pela represso e pelo inconsciente, assim como quanto ao conflito e s formaes de conciliaes. Em sntese, vejamos 
se essa imaginosa representao da gnese de um delrio resiste a um exame cientfico.
         E aqui nossa resposta talvez seja uma surpresa. Nada realidade a situao  inversa:  a cincia que no resiste  criao do autor. Entre as precondies 
constitucionais e hereditrias de um delrio, e as criaes deste, que parecem emergir prontas, existe uma lacuna no explicada pela cincia - lacuna esta que achamos 
ter sido preenchida pelo nosso autor. A cincia ainda no suspeita da importncia da represso, no reconhece que para explicar o mundo dos fenmenos psicopatolgicos 
o inconsciente  absolutamente essencial, no procura a base dos delrios num conflito psquico, e nem considera seus sintomas como conciliaes. Acaso nosso autor 
ergue-se sozinho contra toda a cincia? No, no  assim (isto , se eu puder considerar como cientficos os meus prprios trabalhos), pois j h alguns anos - e, 
at bem pouco tempo, mais ou menos sozinho - eu mesmo venho defendendo todos os princpios que aqui extra da Gradiva de Jensen, expondo-os em termos tcnicos. Assinalei, 
particularmente em conexo com os estados mentais conhecidos como histeria e obsesses, que o determinante individual  desses distrbios psquicos  a supresso 
de uma parcela da vida instintual e a represso das idias que representam o instinto suprimido, e pouco depois apliquei esses mesmos princpios a algumas formas 
de delrio. Neste caso particular da anlise de Gradiva, podemos considerar sem importncia o problema de determinar se os instintos envolvidos nessa causao so 
sempre componentes do instinto sexual ou se acaso sero tambm de outro gnero, j que sem dvida no exemplo escolhido por nosso autor o que estava em questo era 
certamente nada mais do que a supresso dos sentimentos erticos. A validade das hipteses de conflito psquico e de formao de sintomas atravs de conciliaes 
entre as duas correntes em luta j foi demonstrada por mim no caso de pacientes observados e tratados medicamente na vida real, assim como pude fazer no caso imaginrio 
de Norbert Hanold. J antes de mim, Pierre Janete, discpulo do grande Charcot, e Josef Breuer, em colaborao comigo, haviam atribudo os produtos das doenas neurticas, 
e especialmente das histricas, ao poder dos pensamentos inconscientes.
         Quando, a partir de 1893, me dediquei a tais investigaes sobre a origem dos distrbios mentais, certamente nunca me teria ocorrido procurar uma comprovao 
de minhas descobertas nas obras de escritores imaginativos. Assim fiquei bastante surpreso ao verificar que o autor de Gradiva, publicada em 1903, baseara sua criao 
justamente naquilo que eu prprio acreditava ter acabado de descobrir a partir das fontes de minha experincia mdica. Como pudera o autor alcanar conhecimentos 
idnticos aos do mdico - ou pelo menos comportar-se como se os possusse?
         Como dizamos, o delrio de Norbert Hanold avanou mais ainda devido a um sonho ocorrido durante seu esforos para descobrir um andar semelhante ao de Gradiva 
nas ruas da cidade em que ela morava. O contedo desse sonho pode ser facilmente resumido. O sonhador descobriu que estava em Pompia no dia da destruio daquela 
infeliz cidade, e experimentou seus horrores sem correr perigo. Subitamente viu Gradiva caminhando pela rua e deu-se conta de que, sendo a jovem pompeana, era natural 
que residisse em sua cidade natal, e 'na mesma poca que ele, sem que disto ele tivesse a menor suspeita' (ver em [1]). Receando por ela, advertiu-a com um grito, 
ao que a jovem lhe voltou por um momento o rosto, mas sem lhe dar ateno prosseguiu seu caminho, deitou-se nos degraus do templo de Apolo e foi soterrada pelas 
cinzas, aps ter empalidecido at adquirir a cor do mrmore, como se estivesse transformando-se numa esttua. Ao despertar, ele interpretou os rudos matutinos da 
cidade que penetravam em seu quarto como gritos de socorro dos desesperados habitantes de Pompia e o rugir do mar enfurecido. Por algum tempo permaneceu com o sentimentos 
de ter realmente vivido os acontecimentos de seu sonhos, tendo este lhe deixado a convico de que Gradiva residira em Pompia e ali perecera no dia fatal, convico 
esta que iria constituir um novo ponto de partida para seu delrio.
         No nos  assim to fcil dizer o que pretendia o autor com esse sonho e porque ligou o desenvolvimento do delrio justamente a um sonho.  verdade que 
investigadores diligentes reuniram muitos exemplos de como distrbios mentais esto ligados a sonhos e de como surgem de sonhos. Relata-se tambm que na vida de 
alguns homens famosos, os sonhos deram origem a impulsos para atos e decises importantes. No entanto, essas analogias no nos ajudam a muito em nossa compreenso; 
portanto, vamo-nos cingir ao caso imaginrio do arquelogo Norbert Hanold. Mas por que aspectos comearemos a examinar esse sonho, de modo a encaix-lo no contexto 
global, para que no permanea como um ornato desnecessrio da histria?
         Nesse ponto posso imaginar a rplica de um leitor: 'Esse sonho pode ser explicado com muita facilidade. Trata-se de um simples sonho de ansiedade provocado 
pelos rudos da cidade, os quais o arquelogo, cuja mente estava voltada para a jovem pompeana, interpretou erroneamente como a destruio de Pompia'. Devido ao 
pouco valor que geralmente se concede ao papel dos sonhos, costuma-se limitar o que se pede da explicao dos mesmos a que um estmulo externo coincida mais ou menos 
com parte do contedo do sonho. Esse estmulo externo para sonhar seria o rudo que acordou o arquelogo; e com isso terminaria nosso interesse pelo sonho. Mas se 
ao menos tivssemos alguma base para supor que naquela manh o rudo da cidade era mais intenso que o normal! Se ao menos, por exemplo, o autor no tivesse deixado 
de nos dizer que, contrariando seus hbitos, Hanold dormira com as janelas abertas! Que pena que ele tenha omitido isso! E se ao menos ainda os sonhos de ansiedade 
fossem assim to simples! Mas no  nada disso, e nosso interesse por esse sonho no poder esgotar-se assim to facilmente.
         
         Para a construo de um sonho no  essencial um vnculo com um estmulo sensorial externo. Aquele que dorme pode ignorar um estmulo desse gnero a partir 
do mundo externo, pode ser despertado pelo mesmo sem construir um sonho, ou, como aconteceu aqui, pode incorpor-lo a seu sonho, se isto lhe convier por alguma razo. 
Alm disso, existem inmeros sonhos cujo contedo de forma alguma pode ser explicado como sendo determinado por um estmulo externo sobre os sentidos do indivduo 
que dorme. Portanto, procuremos outro caminho.
         Talvez os efeitos posteriores do sonho sobre a vida de viglia de Hanold possam fornecer-nos um ponto de partida. At ento, ele tivera a fantasia de que 
Gradiva fora uma pompeana. Essa hiptese ento se transforma para ele numa certeza, a que logo se soma uma outra: ela fora soterrada com o resto da populao no 
ano de 79 D.C. Um sentimento de melancolia acompanhou essa extenso da estrutura delirante, como um eco da ansiedade do sonho. No nos parece muito compreensvel 
essa nova dor em relao a Gradiva; afinal ela devia estar morta h muitos sculos, mesmo se houvesse escapado da destruio de 79 D.C. Mas parece que nada nos adiantar 
continuar argumentando com Norbert Hanold ou com o prprio autor, pois esse caminho no levar a nenhum esclarecimento. Contudo, vale a pena ressaltar que o incremento 
adquirido pelo declnio a partir desse sonho era acompanhado por um sentimento muito doloroso.
         Com exceo disso, entretanto, continuamos to embaraados quanto antes. Esse sonho no se explica por si s, e precisamos recorrer  nossa  Interpretao 
de Sonhos e aplicar ao presente exemplo algumas das regras que ali so encontradas para a soluo dos sonhos.
         Uma dessas regras diz que um sonho invariavelmente se relaciona com os eventos do dia anterior. Nosso autor parece querer mostrar que seguiu essa regra, 
pois imediatamente liga o sonho s 'pesquisas pedestres' de Hanold. Ora, essas pesquisas no significavam seno a procura de Gradiva, cujo andar caracterstico ele 
tentava reconhecer. Assim o sonho deveria conter um incio do paradeiro de Gradiva. E realmente contm, pois mostra-a em Pompia, o que para ns no constitui novidade. 
         
         Outra regra diz que, se uma crena na realidade das imagens onricas persistir por um espao de tempo invulgarmente prolongado, de modo que o indivduo 
no consiga desligar-se do sonho, esse fenmeno no deve ser considerado como um erro de julgamento provocado pela vividez das imagens onricas, mas um ato psquico 
independente: uma garantia, em relao ao contedo do sonho, de que algo nele  realmente tal como foi sonhado; e pode-se confiar nessa garantia. Se observarmos 
essas duas regras, concluiremos que o sonho fornece alguma informao sobre o paradeiro de Gradiva e que essa informao se ajusta  realidade das coisas. J conhecemos 
o sonho de Hanold: ser que, aplicando-lhe essas regras, extrairemos dele algum sentido plausvel?
          Por estranho que parea, sim. O que acontece  que esse sentido est de tal forma disfarado que no o reconhecemos de imediato. O sonho informou a Hanold 
que a jovem que ele procurava morava numa cidade em que ele tambm vivia. Ora, essa informao sobre Zoe Bertgang era verdadeira, s que no sonho essa cidade era 
Pompia e no uma cidade universitria alem, e o tempo no era o presente, mas o ano de 79 D.C. Trata-se de uma distoro por deslocamento: em vez de Gradiva no 
presente, tem-se o sonhador transportado para o passado. Entretanto, mesmo assim, um fato novo e essencial  transmitido: ele est no mesmo local e na mesma poca 
que a jovem que ele procura. Mas ento para que esse deslocamento e esse disfarce que forosamente iludiriam a ns e ao sonhador quanto ao verdadeiro sentido e contedo 
do sonho? Bem, j temos  nossa disposio meios para fornecer uma resposta satisfatria a essa pergunta.
         Vamos relembrar tudo que aqui foi dito sobre a origem e a natureza das fantasias precursoras dos delrios (ver a partir de [1]). Elas so substitutos e 
derivados de lembranas reprimidas que no conseguem atingir a conscincia de forma inalterada devido a uma resistncia, mas que podem alcanar a possibilidade de 
se tornarem conscientes levando em considerao, por meio de mudanas e distores, a censura da resistncia. Uma vez realizada essa conciliao, as lembranas reprimidas 
transformam-se em fantasias que com facilidade podero ser compreendidas erroneamente pela personalidade consciente - isto , compreendidas de modo a se adaptarem 
 corrente psquica dominante. Agora suponhamos que as imagens onricas sejam o que poderia ser descrito como criaes dos delrios fisiolgicos [isto , no-patolgicos] 
das pessoas - produtos de uma conciliao na luta entre o reprimido e o dominante que provavelmente existe em todo ser humano, inclusive naqueles que no estado de 
viglia possuem perfeita sade mental. Compreenderemos ento a necessidade de encarar as imagens onricas como algo distorcido, por trs do qual se pode procurar 
mais alguma coisa, no distorcida, mas de alguma forma censurvel, tal como as lembranas reprimidas de Hanold escondidas por suas fantasias. Podemos dar expresso 
ao contraste acima verificado, distinguindo o contedo manifesto do sonho, isto , o que o sonhador lembra quando acorda, dos pensamentos onricos latentes, isto 
, aquilo que constitua a base do sonho antes da distoro imposta pela censura. Assim, interpretar um sonho consiste em traduzir o contedo manifesto do sonho 
nos pensamentos onricos latentes, desfazendo a distoro que a censura da resistncia imps aos pensamentos onricos. Se aplicarmos essas noes ao sonho que estamos 
examinando, descobriremos que os pensamentos onricos latentes s podem ter sido os que se seguem: 'a jovem de andar gracioso que procuras, na realidade mora aqui 
nesta mesma cidade em que vives.' Mas com essa forma o pensamento no conseguiu tornar-se consciente, sendo obstrudo pelo fato de que uma fantasia afirmara, como 
resultado de uma conciliao anterior, que Gradiva era pompeana; portanto, para expressar o fato real de que ela vivia no mesmo lugar e na mesma poca que ele, s 
houve um caminho, o da seguinte distoro: 'vives em Pompia na poca de Gradiva.' Esta foi a idia transmitida pelo contedo manifesto do sonho, que a mostrou como 
uma realidade vivida no momento.
         S raramente um sonho representa ou, como poderamos dizer, 'encena' um nico pensamento; geralmente trata-se de um conjunto, de uma trama de pensamentos. 
Do sonho de Hanold podemos extrair com facilidade um outro componente de seu contedo, livrando-o facilmente de sua distoro, de modo a expor a idia latente que 
ele representa. A essa parte do sonho tambm se aplica a garantia de realidade com a qual o sonho terminou. Neste houve a transformao de Gradiva numa esttua de 
mrmore, o que no  seno uma representao engenhosa e potica do evento real. Na verdade, Hanold havia transferido seu interesse da jovem viva para a escultura, 
transformando a amada num relevo de mrmore. Os pensamentos onricos latentes, forados a permanecer inconscientes, tentam realizar a transformao inversa da escultura 
na jovem viva; o que queriam dizer a ele era mais ou menos o seguinte: 'afinal s ests interessado na esttua de Gradiva porque ela te recorda Zoe, que vive aqui 
e agora.' Mas se essa descoberta pudesse ter-se tornado consciente, isso teria significado o fim do delrio. 
         
         Acaso seremos obrigados a substituir de forma anloga cada fragmento do contedo manifesto do sonho por pensamentos inconscientes? Se quisssemos ser rigorosos, 
sim; se estivssemos interpretando um sonho que tivesse sido realmente sonhado no poderamos furtar-nos a esse dever. Mas em tal caso, aquele que sonhou teria de 
nos fornecer explicaes muito mais amplas.  claro que tal requisito no pode ser satisfeito no caso da criao do autor; entretanto, no devemos esquecer que o 
contedo central do sonho ainda no foi submetido ao processo de interpretao ou traduo.
         Evidentemente o sonho de Hanold foi um sonho de ansiedade. De contedo apavorante, provocou ansiedade naquele que sonhava e deixou atrs de si sentimentos 
dolorosos. Esse fato em muito dificulta nossa tentativa de explicao, e somos mais uma vez obrigados a recorrer  teoria da interpretao dos sonhos. Esta nos acautela 
contra o erro de atribuir a ansiedade que pode ser sentida em sonhos ao contedo desses sonhos, e de tratar esse contedo como se fosse o de uma idia que ocorre 
no estado de viglia. Alerta-nos tambm sobre a freqncia com que temos sonhos apavorantes sem sentir o mais leve trao de ansiedade. A situao real  bem diversa 
e nada evidente, mas pode ser comprovada de forma irrefutvel. A ansiedade nos sonhos de ansiedade, como toda ansiedade neurtica em geral, corresponde a um afeto 
sexual, a um sentimento libidinal, e surge da libido pelo processo de represso. Portanto, ao interpretarmos um sonho devemos substituir a ansiedade por excitao 
sexual. Nem sempre, mas com freqncia, a ansiedade que assim se origina exerce uma influncia seletiva sobre o contedo do sonho, nele introduzindo elementos ideativos 
que, de um ponto de vista consciente e errneo, parecem adequados para o afeto de ansiedade. Como j disse, isso nem sempre acontece, existindo muitos sonhos de 
ansiedade nos quais o contedo nada tem de apavorante e nos quais  impossvel encontrar uma explicao, em termos conscientes, para a ansiedade que  sentida.
         Sei que essa explicao da ansiedade em sonhos parece muito estranha e de difcil aceitao, mas aqui s posso aconselhar o leitor a dar-lhe crdito. Contudo, 
seria realmente extraordinrio se o sonho de Norbert Hanold se encaixasse nessa concepo da ansiedade e pudesse ser assim explicado. Partindo dessa hiptese, diramos 
que seus desejos erticos vieram  tona durante a noite e fizeram um esforo intenso para tornar conscientes as lembranas da jovem por ele amada e para arranc-lo 
do seu delrio; esses desejos, porm, foram novamente repudiados, transformando-se em ansiedade, a qual, por sua vez, introduziu no contedo do sonho as imagens 
aterradoras das lembranas dos tempos de estudante. Dessa forma o verdadeiro contedo inconsciente do sonho, seu apaixonado desejo pela Zoe que conhecera no passado, 
transformou-se no contedo manifesto da destruio de Pompia e da perda de Gradiva.
         At aqui isso me parece plausvel. Mas poder-se-ia com justia ressaltar que, se o contedo no-distorcido do sonho  constitudo de desejos erticos, deveria 
ser possvel identificar pelo menos algum resduo desses desejos ocultos no sonho transformado. Bem, talvez isso seja possvel, com a ajuda de um indcio contido 
num trecho posterior da histria. Ao encontrar-se pela primeira vez com Gradiva, Hanold recordou-se do sonho e pediu  jovem que se deitasse novamente na escadaria, 
como ento a vira fazer (ver em [1]). A esse pedido, entretanto, a jovem ergueu-se indignada e deixou seu estranho companheiro, pois percebera o inconveniente desejo 
ertico por trs das palavras que ele pronunciara sob a influncia do delrio. Julgo que devemos aceitar a interpretao de Gradiva; nem mesmo num sonho real poderamos 
esperar encontrar uma expresso mais definida de um desejo ertico.
         Aplicando ao primeiro sonho de Hanold algumas regras da interpretao de sonhos, conseguimos tornar inteligveis seus elementos principais e inseri-lo no 
contexto da histria. Poderemos ento ter como certo que o autor observou essas regras ao cri-lo? E uma segunda pergunta tambm nos ocorre: por que o autor introduziu 
esse sonho para realizar o desenvolvimento posterior do delrio? Em minha opinio, o recurso  engenhoso e fiel  realidade. J vimos (ver em [1]) que em doenas 
reais um delrio com muita freqncia surge em conexo com um sonho, e, aps esses ltimos esclarecimentos sobre a natureza dos sonhos, esse fato no deve constituir 
para ns um novo enigma. Os sonhos e os delrios surgem de uma mesma fonte - do que  reprimido. Poderamos dizer que os sonhos so os delrios fisiolgicos das 
pessoas normais. (ver em [2]) Antes de tornar-se suficientemente forte para irromper na vida de viglia como delrio, o que  reprimido pode ter alcanado um primeiro 
sucesso, sob as condies mais favorveis do sono, na forma de sonho de efeitos duradouros. Durante o sono, juntamente com uma diminuio geral da atividade mental, 
d-se um relaxamento da fora da resistncia que as foras psquicas dominantes opem ao que  reprimido.  esse relaxamento que possibilita a formao dos sonhos, 
e  por isso que estes constituem o melhor caminho para o conhecimento da parte inconsciente da mente - s que, via de regra, ao se restabelecerem das catexias psquicas 
da vida de viglia, os sonhos se desvanecem e o inconsciente  obrigado a evacuar mais uma vez o terreno que conquistara.
         
         
         Em trecho posterior da histria encontramos um novo sonho que talvez mais do que o anterior nos desafie a tentar traduzi-lo e inseri-lo na cadeia de eventos 
na mente do heri. Mas pouco nos adiantaria abandonar o relato do autor e lanarmo-nos imediatamente ao segundo sonho, pois quem deseja analisar os sonhos de outra 
pessoa no pode deixar de dar a mxima ateno a todas as experincias, tanto externas como internas, daquele que sonha. Portanto, certamente ser melhor seguir 
o fio da histria, intercalando nossos comentrios  medida que avanarmos.
         A construo do novo delrio acerca da morte de Gradiva durante a destruio de Pompia no ano de 79 no foi o nico resultado do primeiro sonho, j por 
ns analisado. Logo aps o mesmo, Hanold resolveu viajar para a Itlia, viagem esta que terminou por lev-lo a Pompia. Mas, antes dessa deciso, sucedeu-lhe outro 
fato. Ao se debruar na janela julgou ver um vulto com um porte e um andar semelhantes aos de sua Gradiva. Apesar de incompletamente vestido, correu em seu encalo, 
mas perdeu-a de vista, sendo obrigado a voltar para casa devido aos gracejos dos transeuntes. De volta a seu quarto, o canto de um canrio numa gaiola na janela 
da casa fronteira despertou-lhe a sensao de que tambm ele era um prisioneiro desejoso de liberdade, e imediatamente decidiu empreender uma viagem de primavera 
 Itlia, plano que logo colocou em execuo.
         O autor focalizou com bastante clareza essa viagem de Hanold, permitindo que seu personagem tivesse uma compreenso interna (insight) parcial de seus prprios 
processos internos. Naturalmente Hanold descobriu um pretexto cientfico para a viagem, mas isso no durou por muito tempo. Na verdade, tinha cincia de que 'o impulso 
para empreender aquela viagem tivera origem num sentimento que ele no podia nomear'. Um estranho desassossego tornou-o insatisfeito com tudo que o cercava, impelindo-o 
de Roma para Npoles e dali para Pompia, mas nem mesmo nessa ltima cidade encontrou tranqilidade. Irritava-se ante a insensatez dos casais em lua-de-mel, e se 
enfureceu com a impertinncia das moscas que povoavam os hotis de Pompia. Por fim no conseguiu esconder de si mesmo 'que sua insatisfao no podia ser motivada 
apenas pelas circunstncias externas, devendo tambm ter origem em seu ntimo.' Sentiu-se superexcitado, 'descontente pela falta de alguma coisa que no sabia o 
que era. Esse mau humor acompanhava-o por toda a parte.' Nesse estado de esprito sua fria voltou-se at mesmo contra a cincia de que era servo fiel. Quando ao 
calor do sol do meio-dia vagueava sem rumo por Pompia, 'no somente esquecera-se de toda a sua cincia, como tambm no sentia o menor desejo de voltar a se ocupar 
dela. Ela lhe parecia algo muito distante, uma tia velha enfadonha, encarquilhada, ressequida, a criatura mais maante e indesejvel do mundo.' (55.)
         Enquanto se encontrava nesse estado de esprito desagradvel e confuso, deparou com a soluo de um dos problemas referentes  sua viagem - no momento em 
que viu Gradiva andando por uma rua de Pompia. 'Tomou conscincia, pela primeira vez, de que, embora ignorando o motivo interno que o impelira, se viera  Itlia 
dirigindo-se a Pompia sem se deter em Roma ou em Npoles, fora para procurar as pegadas de Gradiva - e "pegadas" no sentido literal, pois com aquele andar peculiar 
ela deveria ter deixado impresses inconfundveis nas cinzas.' (58 (ver em [1]).)
         Se o autor deu-se ao trabalho de escrever a viagem com tantas mincias, deve valer a pena examinar a relao da mesma com o delrio de Hanold e sua posio 
na cadeia dos eventos. O arquelogo empreendeu a viagem por motivos que a princpio desconhecia, mas que veio a admitir mais tarde; motivos esses que o prprio autor 
qualifica de 'inconscientes'. Isso  verossmil. No  preciso que uma pessoa sofra de um delrio para se comportar de forma anloga. Ao contrrio, uma pessoa, mesmo 
saudvel, pode com freqncia enganar-se quanto aos motivos de um ato, tomando conscincia dos mesmos s depois do evento; para tanto s  necessrio que um conflito 
entre as diversas correntes de sentimentos crie as condies para tal confuso. Assim, desde o momento em que foi concebida, a viagem de Hanold estava a servio 
do delrio, sendo seu propsito conduzir o arquelogo a Pompia, onde poderia continuar a procurar Gradiva. Recordemo-nos que, tanto antes como imediatamente aps 
o sonho, sua mente se ocupava com essa procura, e que o sonho nada mais era do que uma resposta ao enigma do paradeiro de Gradiva, ainda que uma resposta sufocada 
pela sua conscincia. Alguma fora inibidora, por ns ainda desconhecida, impedia-o de tomar conscincia de sua inteno delirante, de modo que para justificar conscientemente 
sua viagem s lhe restam dbeis pretextos que necessitam ser renovados a cada etapa. O autor coloca-nos diante de novo enigma ao fazer com que o sonho, a descoberta 
da suposta Gradiva na rua e a viagem inspirada pelos gorjeios de um canrio se sucedessem como uma srie de eventos casuais, sem qualquer tipo de conexo interna 
um com o outro.
         Algumas explicaes que inferimos de frases posteriores de Zoe Bertgang nos elucidam esse trecho obscuro da histria. Na verdade, foi o original de Gradiva, 
a prpria Frulein Zoe, que Hanold viu passar em frente de sua janela (89) e que ele quase alcanou. Se o tivesse feito, a informao transmitida pelo sonho - que 
na realidade ela vivia no mesmo local e na mesma poca que ele - por um feliz acaso teria recebido uma irrefutvel confirmao, a qual provocaria o fim de sua luta 
interna. Tambm o canrio, que o motivou a empreender sua longa viagem, pertencia a Zoe, e sua gaiola na janela da jovem do outro lado da rua ficava bem em frente 
 casa de Hanold. (135 (ver em [1]).) Este, que segundo uma acusao da jovem possua o dom da 'alucinao negativa', isto , a arte de no ver e no reconhecer 
pessoas que estavam  sua frente, deve desde o incio ter tido um conhecimento inconsciente daquilo que s mais tarde descobriramos. Os indcios da proximidade 
de Zoe (seu aparecimento na rua e o canto do seu canrio to prximo  janela dele) intensificaram o efeito do sonho, e nessa situao, to perigosa para a sua resistncia 
aos sentimentos erticos, Hanold decidiu fugir. Sua viagem era o resultado de novo fortalecimento dessa resistncia, em seguida ao avano obtido no sonho por seus 
desejos erticos; era uma tentativa de fugir da presena fsica da jovem amada. Na prtica significava uma vitria para a represso, assim como sua atividade anterior, 
suas 'pesquisas pedestres' em mulheres e jovens, significara uma vitria do erotismo. Mas em todas essas oscilaes verificadas no conflito, o carter de conciliao 
dos resultados  preservado: a viagem para Pompia, que deveria afast-lo da Zoe viva, o conduziu ao menos para a sua substituta, Gradiva. A viagem, empreendida 
num desafio aos pensamentos onricos latentes, seguiu, entretanto, a rota para Pompia indicada pelo contedo manifesto do sonho. Assim, verificamos que, a cada 
novo conflito entre o erotismo e a resistncia, o delrio sempre triunfa.
         Essa interpretao da viagem de Hanold como sendo uma fuga diante do seu desejo ertico despertado pela jovem amada, e que estava to prxima dele,  a 
nica que se ajustar  descrio do seu estado emocional durante a estada na Itlia. O repdio ao erotismo que o dominava expressava-se pelo horror que votava aos 
casais em lua-de-mel. Um curto sonho que tivera em seu albergo em Roma, ocasionado pela proximidade de um casal de alemes cujo colquio noturno ouvia atravs das 
delgadas paredes de seu quarto, elucidou retrospectivamente as tendncias erticas do seu primeiro sonho. Nesse novo sonho, ele estava novamente em Pompia durante 
a erupo do Vesvio, o que estabelecia uma ligao deste sonho com o anterior, cujos efeitos prolongados fizeram-se sentir durante toda a viagem. Entretanto, dessa 
vez as pessoas ameaadas no eram ele prprio e Gradiva, como na ocasio anterior, mas Apolo do Belvedere e Vnus Capitolina, certamente uma irnica exaltao do 
casal do quarto contguo. Apolo ergueu Vnus nos braos e colocou-a sobre um objeto escuro, que parecia ser um coche ou uma carreta, pois 'estalavam'. No mais a 
interpretao desse sonho no requer nenhuma habilidade especial. (31.)
         Nosso autor, que, como descobrimos h muito, nunca introduz em sua histria elementos ociosos ou inteis, forneceu-nos outro indcio da tendncia assexual 
que dominou Hanold em sua viagem. Enquanto perambulava durante horas por Pompia, 'estranhamente nem por um momento se recordou do sonho em que testemunhara o soterramento 
de Pompia na erupo de 79 D.C.' (47.) S quando encontrou Gradiva  que se lembrou do sonho e ao mesmo tempo tomou conscincia do motivo delirante de sua enigmtica 
viagem. Esse esquecimento do sonho, essa barreira de represso entre o sonho e seu estado mental durante a viagem, s pode ser explicado pela suposio de que a 
viagem, no foi empreendida sob a inspirao direta do sonho, mas como uma revolta contra o mesmo, como uma manifestao de uma fora mental que se recusava a conhecer 
qualquer parcela do significado secreto do sonho.
         Entretanto, por outro lado, essa vitria sobre o erotismo no causou prazer a Hanold. O impulso mental suprimido conservava poder suficiente para vingar-se 
do impulso supressor atravs da inibio e do descontentamento. Os desejos do arquelogo transformaram-se em desassossego e insatisfao, que retiravam de sua viagem 
todo sentido. Inibida a compreenso interna (insight) dos motivos da viagem empreendida sob o comando do delrio, seus interesses cientficos, que deveriam ser estimulados 
pelo novo ambiente, tambm ficaram tolhidos. Aps essa fuga do amor, o autor mostra-nos seu heri num estado de completa perturbao e confuso, numa crise semelhante 
ao ponto culminante de uma doena, quando nenhuma das duas foras conflitantes  suficientemente superior  outra para que essa vantagem possibilite o estabelecimento 
de um regime mental vigoroso. Nesse ponto, entretanto, o autor intervm em auxlio de seu personagem e traz Gradiva  cena, encarregando-a de cur-lo. Utilizando 
seu direito de conduzir os destinos de suas criaturas para um desenlace feliz, embora as faa curvar-se s leis da necessidade, o autor desloca para Pompia a mesma 
jovem que Hanold tentava evitar em sua fuga para aquele lugar. Assim corrige a insensatez a que o delrio induzira o jovem - a insensatez de trocar a cidade da jovem 
viva que ele amava pelo sepulcro de sua substituta imaginria.
         Com o aparecimento de Zoe Bertgang como Gradiva, clmax de tenso na histria, nosso interesse logo toma um curso diferente. Assistimos at aqui ao desenvolvimento 
de um delrio; agora, iremos testemunhar sua cura. Poderemos indagar se o autor exps o desenrolar dessa cura de forma totalmente fantasiosa ou se acaso a construiu 
de acordo com as possibilidades presentes. As palavras que Zoe dirigiu  amiga recm-casada nos do o inegvel direito de atribuir-lhe uma inteno de realizar a 
cura. (124 (ver em [1]).) Mas como atingiu seus propsitos? Aps sobrepujar a indagao provocada pelo pedido de Hanold para que se deitasse na escadaria como 'ento' 
o fizera, ela retornou no dia seguinte,  mesma hora, decidida a arrancar de Hanold os segredos cuja ignorncia por parte dela a havia impedido de compreender o 
comportamento dele no dia anterior. Assim veio a saber do sonho, da escultura de Gradiva e do andar que era uma peculiaridade de ambas. Ela aceitou o papel de um 
fantasma redivivo por uma fugaz hora, papel que, como ela percebera, o delrio de Hanold lhe atribura, mas, ao aceitar sua oferta das flores dedicadas aos mortos 
e ao lamentar que ele no tivesse escolhido rosas, insinuou delicadamente com palavras ambguas a possibilidade de ele admitir uma nova situao. (90 (ver em [1]).)
         Essa jovem de inteligncia invulgar estava ento decidida a converter seu amigo de infncia em seu marido, aps descobrir que a fora motivadora do delrio 
deste era o amor que ele lhe devotava. Nosso interesse no comportamento da jovem, entretanto, ceder momentaneamente lugar  surpresa que o prprio delrio nos provoca. 
A ltima forma assumida por ele era que Gradiva, soterrada no ano 79 D.C., era capaz de agora, na qualidade de fantasma do meio-dia, falhar-lhe por uma hora, no 
fim da qual ela teria de sumir nas entranhas da terra ou voltar a seu tmulo. Essa teia mental, que no se desfaz nem pela constatao de que a apario usava sapatos 
modernos e desconhecia as lnguas clssicas, falando o alemo, idioma ainda inexistente na poca da catstrofe de Pompia, parece sem dvida justificar a denominao 
de 'fantasia pompeana' dada pelo autor  sua obra e excluir qualquer possibilidade de julg-la pelos critrios da realidade clnica.
         Entretanto, a um exame mais apurado esse delrio de Hanold me parece perder a maior parte de sua improbabilidade; esta, alis, repousa no fato de o autor 
ter baseado sua histria na premissa de que Zoe era uma rplica da escultura. Devemos, porm, evitar deslocar a improbabilidade dessa premissa para a sua conseqncia: 
o fato de Hanold tomar a jovem pela prpria Gradiva ressuscitada. Essa explicao delirante adquire maior valor pelo fato de que o autor no nos forneceu nenhuma 
explicao racional. Acrescentou, entretanto, circunstncias atenuantes para tal extravagncia do seu heri, na forma do sol ardente da campagna e na magia inebriante 
do vinho originrio das encostas do Vesvio. Contudo, o mais importante dos fatores que podem explicar e justificar isso reside na facilidade com que nosso intelecto 
est pronto a aceitar algo absurdo, desde que este satisfaa impulsos emocionais poderosos.  um fato espantoso, e tambm geralmente ignorado, a presteza e a freqncia 
com que, em tais condies psicolgicas, pessoas de viva inteligncia reagem como dbeis mentais. Todo indivduo no muito preconceituoso pode, amide, observar 
o fato em si mesmo, especialmente se os processos mentais em questo estiverem ligados a motivos inconscientes ou reprimidos. A esse respeito,  com satisfao que 
transcrevo as palavras que me foram enviadas por um filsofo: 'Tenho anotado as circunstncias em que eu prprio cometi erros ou atos irrefletidos para os quais 
mais tarde se descobrem motivos (os mais irracionais).  alarmante, porm caracterstica, a quantidade de tolices que assim vm  tona.' Devemos lembrar, tambm, 
que a crena nos espritos e fantasmas, e no retorno dos mortos, que tanto apoio encontra nas religies a que todos estivemos ligados pelo menos na infncia, est 
longe de ter desaparecido entre a gente culta, e que muitas pessoas, sensatas em todos os outros aspectos, acham possvel conciliar espiritualismo com razo. Mesmo 
o homem que se tornou ctico e racional pode descobrir, envergonhado, que sob o impacto da perplexidade e de emoes fortes facilmente volta por momentos a acreditar 
em espritos. Conheo um mdico que perdera uma paciente portadora da doena de Graves, e que no conseguia afastar de sua mente uma leve suspeita de talvez haver 
contribudo para o funesto desenlace por causa de uma medicao imprudente. Certo dia, anos depois, uma jovem entrou em seu consultrio e, apesar de resistir  idia, 
meu colega no conseguiu impedir-se de a identificar com a morta. No podia deixar de pensar o seguinte: 'Ento afinal  verdade que os mortos podem retornar  vida.' 
No entanto, seu pavor converteu-se em vergonha quando a jovem se apresentou como a irm da falecida paciente e revelou estar sofrendo da mesma enfermidade. Os portadores 
da doena de Graves, como j se observou com freqncia, terminam por apresentar uma grande semelhana fisionmica, intensificada no caso pelos traos de famlia. 
O mdico a quem isso aconteceu era eu prprio. Portanto, tenho um motivo pessoal para no refutar a possibilidade clnica do delrio temporrio de Norbert Hanold 
de que Gradiva retornara  vida. Enfim,  um fato familiar a todo psiquiatra a ocorrncia, em casos graves de delrios crnicos (parania), de exemplos surpreendentes 
de absurdos solidamente construdos com grande engenho.
         Aps seu primeiro encontro com Gradiva, Norbert Hanold dirigiu-se aos dois hotis em Pompia e pediu vinho nas salas de refeies em que estavam reunidos 
para o almoo os demais visitantes da cidade. 'Naturalmente nem uma vez lhe ocorreu o tolo pensamento' de que assim agia para descobrir em qual desses hotis Gradiva 
estava hospedada e fazia suas refeies; contudo,  difcil atribuir outro sentido a seu comportamento. No dia seguinte a seu segundo encontro com a jovem na Casa 
de Meleagro, passou por uma srie de experincias estranhas e aparentemente sem qualquer ligao. Descobriu uma estreita fenda na parede do prtico, no ponto em 
que Gradiva desaparecera; encontrou um excntrico caador de lagartos, que o interpelou como se o conhecesse; descobriu um terceiro hotel, num local afastado, o 
'Albergo del Sole', cujo dono lhe impingiu um broche coberto de ptina verde que teria sido encontrado junto aos restos de uma jovem pompeana. Por fim, em seu prprio 
hotel encontrou um jovem casal que tomou por irmos e que despertou a sua empatia. Mais tarde todas essas impresses interligaram-se em um sonho 'singularmente absurdo':
         'Sentada em algum lugar no sol, Gradiva confeccionava um lao de um longo talo de erva para capturar um lagarto, e disse: "Por favor, fique bem quieto. 
Nossa colega tem razo, esse mtodo  realmente timo e ela j o utilizou com excelentes resultados."' (ver em [1])
         Ainda adormecido, Norbert Hanold defendeu-se do sonho com o pensamento crtico de que o mesmo era totalmente insensato, e procurou de todas as formas libertar-se 
dele. Conseguiu isso com a ajuda de um pssaro invisvel que, emitindo um pio sarcstico, aprisionou em seu bico o lagarto e o carregou consigo.
         Vamos tentar interpretar esse sonho, isto , substitu-lo pelos pensamentos latentes de cuja distoro deve ter-se originado?  to sem sentido quanto pode 
ser um sonho, e  justamente nesse absurdo dos sonhos que se apiam os que, recusando-se a aceit-los como atos psquicos vlidos, afirmam ter os mesmos origem numa 
excitao fortuita dos elementos da mente.
         Podemos aplicar a esse sonho uma tcnica que constitui o procedimento regular para a interpretao dos sonhos. Consiste em no prestar ateno nas conexes 
aparentes do sonho manifesto, mas em concentrara ateno isoladamente em cada um dos elementos do seu contedo, buscando sua origem nas impresses, lembranas e 
associaes livres do sonhador. Entretanto, como no podemos submeter Hanold a um interrogatrio, teremos de nos contentar em consultar suas impresses, e timidamente 
substituir suas associaes pelas nossas.
         'Sentada em algum lugar no sol, Gradiva caava lagartos e falava.' A que impresses da vspera alude essa parte do sonho? Sem dvida ao encontro com o senhor 
idoso que caava lagartos, transformado pelo sonho em Gradiva. Ele estava sentado numa 'encosta ensolarada' e dirigiu-se a Hanold. As palavras pronunciadas por Gradiva 
no sonho foram copiadas da fala desse homem: 'O mtodo inventado pelo nosso colega Eimer  realmente muito bom. J o utilizei vrias vezes com excelentes resultados. 
Por favor, fique bem quieto'. (ver em [1]) No sonho, Gradiva proferiu quase as mesmas palavras. 'Nosso colega Eimer', entretanto, transformou-se numa annima 'colega'; 
alm disso, a expresso 'muitas vezes', na fala do zologo, foi omitida no sonho e a ordem das frases sofreu algumas alteraes. A experincia da vspera, portanto, 
foi utilizada pelo sonho e submetida a mudanas e distores. Mas por que justamente essa experincia? E qual o significado das alteraes - a substituio do senhor 
idoso por Gradiva e a introduo de uma misteriosa 'colega'?
         Uma das regras da interpretao de sonhos  a seguinte: 'Uma fala ouvida no sonho sempre deriva de outra que o prprio sonhador ouviu ou pronunciou na vida 
de viglia. No sonho em questo parece ter sido obedecida essa regra: a fala de Gradiva  uma simples modificao das palavras ditas pelo zologo a Hanold na vspera. 
Outra regra da interpretao de sonhos diz que a substituio de uma pessoa por outra, ou a combinao de duas pessoas (quando, por exemplo, uma ocupa uma posio 
caracterstica da outra), significa uma equiparao dessas pessoas, a existncia de uma semelhana entre elas. Se aplicarmos tambm essa regra a nosso sonho, chegaremos 
 seguinte traduo: 'Gradiva caa lagartos exatamente como aquele velho;  to perita nesse ofcio quanto ele.' Isso ainda no est muito claro, e nos deixa ainda 
um outro enigma: a que impresso da vspera podemos relacionar a 'colega' que substitui o zologo Eimer no sonho? Felizmente no temos muitas opes. Essa 'colega' 
s pode significar outra jovem - isto , a simptica jovem que Hanold julgara ser a irm que viajava com o irmo. 'Ela usava no vestido uma rosa vermelha de Sorrento 
que despertou no arquelogo, sentado a um canto do salo de jantar, uma recordao imprecisa.' (ver em [1]) Essa observao do autor d-nos o direito de supor ser 
essa jovem 'a colega' do sonho. Sem dvida aquilo de que Hanold no podia recordar-se eram as palavras que a suposta Gradiva lhe dirigira ao pedir-lhe as flores 
brancas dos mortos, pois as mais afortunadas recebiam rosas na primavera. (ver em [2]) Por trs dessas palavras, entretanto, havia um apelo amoroso, uma tentativa 
de seduo. Assim, que espcie de caa de lagartos teria a sua 'colega' mais afortunada levado a termo com tanto xito?
         No dia seguinte Hanold encontrou os supostos irmos num terno abrao e pde, assim, retificar seu engano. Na verdade o par estava em lua-de-mel, como descobrimos 
mais tarde, quando interromperam de forma to inesperada o terceiro encontro de Hanold com Zoe. Se agora estivermos dispostos a admitir que Hanold, embora conscientemente 
os julgasse irmos, reconhecera inconscientemente a verdadeira relao deles (revelada de forma inequvoca no dia seguinte), a fala de Gradiva no sonho ir adquirir 
um claro significado. A rosa vermelha tornara-se o smbolo de uma ligao amorosa. Hanold tinha cincia de que aqueles dois j eram um para o outro o que ele e Gradiva 
ainda tinham de se tornar. A caa de lagartos adquiriu o sentido de caa do homem, e  o seguinte o significado da fala de Gradiva: 'Deixa-me agir sozinha, que saberei 
conquistar um marido to bem quanto qualquer outra moa.'
         Mas por que foi necessrio que essa percepo dos propsitos de Zoe aparecesse no sonho sob a forma da fala do velho zologo? Por que a percia de Zoe na 
caa de marido foi representada pela percia do velho senhor na caa de lagartos? Bem, essa pergunta no oferece nenhuma dificuldade. H muito advinhamos que o caador 
de lagartos no  seno Bertgang, o professor de zoologia e pai de Zoe, que certamente tambm conhecia Hanold - o que explica o fato de o ter interpelado como a 
um conhecido. Vamos admitir tambm que, inconscientemente, Hanold houvesse reconhecido o catedrtico. 'Teve a vaga impresso de que j vira rapidamente o caador 
de lagartos, provavelmente num dos dois hotis.' Est assim explicado o estranho disfarce sob o qual surgia a inteno atribuda a Zoe: ela era a filha do caador 
de lagartos e dele herdara a percia.
         A substituio, no contedo do sonho, do caador de lagarto por Gradiva , portanto, uma representao da relao entre essas duas figuras, a qual Hanold 
conhecia em seu inconsciente. A substituio do 'nosso colega Eimer' por 'uma colega' permitiu ao sonho expressar a compreenso de Hanold quanto ao fato de que Gradiva 
empreendia uma conquista amorosa. At aqui o sonho fundiu (condensou, diramos) duas experincias da vspera em uma nica situao, a fim de exprimir (de forma muito 
obscura,  verdade) duas descobertas que no tinham permisso de se tornarem conscientes. Mas podemos prosseguir, tornar o sonho menos estranho e demonstrar a influncia 
das outras experincias da vspera sobre a forma assumida pelo sonho manifesto.
         No estamos satisfeitos com a explicao at agora obtida para a escolha da cena da caa ao lagarto como ncleo do sonho, e suspeitamos que outros elementos 
dos pensamentos onricos pesaram na nfase dada ao 'lagarto' no sonho manifesto. Isso  bem fcil de demonstrar. Deve ser lembrado (ver em [1] e [2]) que Hanold 
descobrira uma fenda na parede, no ponto onde Gradiva aparentemente desaparecera - fenda 'que era suficientemente larga para permitir que uma pessoa muito esbelta' 
passasse. Essa observao levou-o durante o dia a introduzir uma modificao em seu delrio: Gradiva no sumira nas entranhas da terra, mas esgueirara-se pela fenda 
para voltar ao seu tmulo. Em seus pensamentos inconscientes, ele deve ter dito a si mesmo que descobrira a explicao natural para o surpreendente desaparecimento 
da jovem. Mas esse desaparecimento pela penetrao numa fenda estreita no deve ter lembrado o comportamento dos lagartos? No estava assim a prpria Gradiva agindo 
como um gil lagarto? Ao nosso ver, portanto, a descoberta da fenda contribuiu para determinar a escolha do elemento 'lagarto' no contedo manifesto do sonho. A 
cena do lagarto no sonho representava tanto essa impresso da vspera quanto o encontro com o zologo, o pai de Zoe.
         E que tal se agora tentssemos procurar no contedo do sonho a representao da nica experincia da vspera que ainda no foi explorada, ou seja, a descoberta 
do terceiro hotel, o Albergo del Sole? O autor exps esse episdio com tanta mincia, relacionando-lhe tantos elementos, que nos surpreenderia constatar que o mesmo 
em nada tenha contribudo para a construo do sonho. Hanold entrou nesse hotel, que desconhecia devido a sua situao retirada e distante da estao, para comprar 
uma garrafa de gua gasosa que aliviasse seu mal-estar. O proprietrio aproveitou a oportunidade para exibir suas antiguidades, e mostrou-lhe um broche dizendo que 
o mesmo tinha pertencido  jovem pompeana encontrada junto ao foro nos braos do seu amado. Hanold, que conhecia essa histria, mas at ento nunca lhe dera crdito, 
viu-se compelido por uma fora desconhecida a acreditar na tocante lenda e na autenticidade do broche; adquiriu-o e deixou o hotel. Ao sair, viu num copo d'gua, 
no peitoril de uma janela, um galho florido de asfdelo, e tomou essa descoberta como uma confirmao da autenticidade de sua aquisio. Sentiu uma firme convico 
de que o broche pertencera a Gradiva, e que era ela a jovem morta nos braos do amado. Dominou o cime que se apossara dele decidindo-se a, no dia seguinte, mostrar 
o broche  prpria Gradiva e averiguar a validade de suas suspeitas. Sem dvida  muito curioso esse novo elemento do seu delrio, e seria de esperar que aparecessem 
traos do mesmo no sonho de Hanold daquela mesma noite.
         Valer a pena, certamente, elucidar a origem desse novo acrscimo do delrio, procurando a descoberta inconsciente que teria sido substituda por esse novo 
elemento do delrio. O delrio surgiu sob a influncia do proprietrio do 'Hotel do Sol', em relao a quem Hanold se comportava de forma to crdula como se tivesse 
sido vtima de uma sugesto hipntica. O hoteleiro mostrou-lhe um broche que supostamente teria pertencido a uma jovem soterrada nos braos do amado; e Hanold, que 
possua suficiente esprito crtico para questionar tanto a veracidade da histria como a autenticidade do broche, deixou-se convencer com toda a facilidade e adquiriu 
a mais do que duvidosa antiguidade. O motivo que o levou a proceder assim  incompreensvel, e nada nos induz a concluir que a soluo esteja na personalidade do 
hoteleiro. Contudo, h ainda outro aspecto enigmtico, e dois enigmas geralmente elucidam-se reciprocamente. Ao sair do albergo, ele viu um galho de asfdelo numa 
janela, e tomou-o como uma confirmao da autenticidade do broche. Por que motivo? Felizmente esse problema  de fcil soluo. A flor branca era sem dvida a mesma 
que ele dera a Gradiva ao meio-dia, e ao v-la na janela do hotel alguma coisa foi confirmada. No a autenticidade do broche, mas outro fato que j se tornara claro 
para ele ao encontrar aquele albergo cuja existncia ignorara. J na vspera, comportara-se como se estivesse procurando a suposta Gradiva nos outros dois hotis 
de Pompia. Ao deparar inesperadamente com um terceiro, no seu inconsciente ele deve ter exclamado: 'Ento  aqui que ela se hospeda!' E na sada deve ter acrescentado: 
'Sim,  aqui mesmo! L est o ramo de asfdelo que dei a ela! Aquela deve ser a janela do seu quarto!' Era essa, ento, a nova descoberta que foi substituda pelo 
novo delrio, e que no podia tornar-se consciente, pois seu postulado subjacente de que Gradiva era uma pessoa viva que ele conhecera no podia tornar-se consciente.
         Mas como se deu essa substituio da nova descoberta pelo delrio? Julgo que a convico inerente  descoberta pde subsistir, ao passo que a prpria descoberta, 
inadmissvel  conscincia, foi substituda por outro contedo ideativo ligado a ela por associaes de pensamento. Assim, aquela convico ligou-se a um contedo 
que na realidade lhe era estranho, contedo este que, sob a forma de um delrio, logrou uma imerecida aceitao. Hanoldtransferiu sua convico de que Gradiva era 
hspede daquele hotel para outras impresses ali recebidas; isso conduziu  credulidade diante do hoteleiro,  aceitao da autenticidade do broche e da lenda dos 
dois amantes mortos abraados - mas somente atravs da ligao entre o que ouviu no hotel e Gradiva. O cime nele latente alimentou-se desse material, resultando 
no delrio (o qual, entretanto, contradizia seu primeiro sonho) de que a jovem morta nos braos do amado era Gradiva e que o broche por ele adquirido pertencera 
a ela.
         Deve-se observar que a conversa com Gradiva e a aluso desta (atravs da referncia s flores)  inteno da conquista amorosa j haviam provocado importantes 
modificaes em Hanold. Comearam a despertar nele traos de desejo masculino - componentes da libido -, ainda que ocultos sob pretextos conscientes. Contudo, o 
problema da 'natureza corprea' de Gradiva, que o atormentava o dia inteiro (ver em [1] e [2]), originou-se de uma curiosidade ertica de jovem a respeito do corpo 
da mulher, ainda que essa curiosidade estivesse envolvida em uma questo cientfica pela insistncia consciente sobre a estranha oscilao de Gradiva entre a vida 
e a morte. O cime era mais um sinal do aspecto cada vez mais ativo do amor de Hanold; este expressou esse cime no incio da conversa que tiveram no dia seguinte, 
e recorrendo a um novo pretexto tocou no corpo da jovem - batendo, como era seu hbito no passado.
         Chegou, porm, a hora de indagarmos se o mtodo de construir um delrio, extrado por ns da narrativa, encontra comprovao em outras fontes, ou se de 
alguma forma ele  possvel. Nosso conhecimento mdico leva-nos a afirmar que esse mtodo  certamente o mtodo correto, e talvez o nico pelo qual o delrio adquire 
a convico inabalvel que  uma de suas caractersticas clnicas. Essa crena profunda que o paciente tem em seu delrio no provm de seus elementos falsos, nem 
 motivada por uma incapacidade da faculdade de julgamento. Acontece que existe uma parcela de verdade oculta em todo delrio, um elemento digno de f, que  a origem 
da convico do paciente, a qual, portanto, at certo ponto  justificada. Esse elemento verdadeiro, porm, h muito foi reprimido. Se, de forma distorcida consegue 
chegar  conscincia, d-se uma intensificao da convico que lhe est ligada, como uma espcie de compensao, e que se liga ao substituto distorcido da verdade 
reprimida, protegendo-o de quaisquer ataques crticos.  como se a convico se deslocasse da verdade consciente para o erro consciente que est ligado a ela, ali 
fixando-se justamente em conseqncia desse deslocamento. No delrio que se forma a partir do primeiro sonho de Hanold encontramos um exemplo de deslocamento semelhante, 
embora no idntico, ao que descrevemos. Na verdade, esse mtodo atravs do qual a convico surge no caso de um delrio basicamente em nada difere do mtodo atravs 
do qual a convico se forma em casos normais, onde a represso no faz parte do quadro. Todos ns emprestamos nossa convico a contedos de pensamento em que se 
combinam a verdade e o erro, deixando-a estender-se da primeira ao ltimo.  como se a convico se propagasse da verdade ao erro a ela ligado, protegendo-o das 
merecidas crticas, embora no to vigorosamente como no caso de um delrio. Assim, tambm na psicologia normal, ser bem relacionado - 'ter influncia', por assim 
dizer - pode substituir um valor real.
         Voltarei agora ao sonho para examinar um interessante pormenor que estabelece uma conexo entre duas causas que o provocaram. Gradiva salientara uma espcie 
de contraste entre os botes brancos de asfdelo e as rosas vermelhas. O reencontro do ramo de asfdelo na janela do Albergo del Sole constituiu para Hanold um importante 
indcio que corroborava sua descoberta inconsciente, que encontrou expresso no novo delrio. A isso acrescentou-se o fato de que a rosa vermelha presa ao vestido 
da simptica recm-casada auxiliou Hanold a ver inconscientemente a natureza da relao que a unia a seu companheiro, tornando possvel o aparecimento da jovem no 
sonho como a 'colega'.
         Mas certamente iro indagar onde, no contedo manifesto do sonho, encontramos algo que indique e substitua a descoberta para a qual, como vimos, o novo 
delrio de Hanold era um substituto - a descoberta de que Gradiva e seu pai estavam hospedados naquele hotel menos conhecido de Pompia, o Albergo del Sole? Est 
tudo no sonho, e no muito distorcido; hesito, entretanto, em apont-lo por saber que mesmo os leitores que at aqui me seguiram com pacincia iro rebelar-se vigorosamente 
contra minhas tentativas de interpretao. A descoberta de Hanold  anunciada completamente no sonho, mas sob um disfarce to engenhoso que forosamente passa desapercebida. 
Encontra-se oculta sob um jogo de palavras, uma ambigidade. 'Sentada em algum lugar no sol, Gradiva...' Acertadamente relacionamos essas palavras ao local onde 
Hanold encontrou o zologo, o pai da jovem. Mas esse 'no sol' no poderia significar 'no Sol', isto , que Gradiva estava no Albergo del Sole, o Hotel do Sol? Esse 
'em algum lugar', que no descreve a situao do encontro com o pai dela, no teria esse carter to falsamente vago justamente por esconder uma indicao precisa 
do paradeiro de Gradiva? Minha longa experincia na interpretao de sonhos reais me garante ser este o sentido dessa ambigidade. Contudo, eu no teria ousado apresentar 
a meus leitores essa interpretao, se o autor no viesse aqui em meu auxlio. Ele coloca na boca da jovem o mesmo jogo de palavras quando, no dia seguinte, ela 
viu o broche: 'Acaso o encontraste no sol? pois o sol faz coisas semelhantes.' (ver em [1]) Ao perceber que o rapaz no entendera o significado de suas palavras, 
ela explicou que se referia ao Hotel do Sol, que chamavam de 'Sole', e onde j vira a suposta antiguidade.
         Vamos agora tentar substituir o 'singularmente insensato' sonho de Hanold pelos pensamentos inconscientes que esto por trs do mesmo e que so to diversos 
dele. Talvez esses pensamentos possam ser expressos da seguinte forma: 'Ela est hospedada no "Sol" com o pai. Por que ela se diverte comigo dessa maneira? Estar 
apenas brincando, ou ser que me ama e me quer como esposo?' Certamente ainda durante o sono veio uma resposta que punha de lado essa ltima possibilidade como 'completa 
insensatez,' juzo que na aparncia se estendia a todo o sonho manifesto.
         Alguns leitores mais crticos iro, muito justamente, conjeturar sobre a origem da interpolao (at aqui no justificada) da referncia a estar sendo ridicularizado 
por Gradiva. A resposta a essa pergunta  dada em A Interpretao de Sonhos, que explica que, se nos pensamentos onricos h zombaria, menosprezo ou escrnio, isso 
 expresso pela forma insensata do sonho manifesto, pelo absurdo do sonho. Esse absurdo no significa uma paralisao da atividade psquica, constituindo apenas 
um mtodo de representao utilizado pela elaborao onrica. Como vem acontecendo nos pontos particularmente difceis, tambm aqui o autor acorre em nosso auxlio. 
Esse sonho sem sentido teve um curto eplogo, no qual surgiu um pssaro que, emitindo um pio sarcstico, se apoderou do lagarto. Hanold, porm, j ouvira um som 
semelhante, logo aps o desaparecimento de Gradiva (ver em [1]). Na verdade esse som sarcstico era o riso de Zoe ao se ver livre do seu lgubre papel de fantasma. 
Portanto, Gradiva realmente rira dele. Contudo, a imagem onrica do pssaro arrebatando em seu bico o lagarto era provavelmente uma recordao de um sonho anterior, 
no qual Apolo do Belvedere afastava-se carregando a Vnus Capitolina (ver em [1]).
         Talvez para alguns leitores a traduo da cena da caa ao lagarto como um convite amoroso no seja de todo convincente. Um novo argumento favorvel  sua 
validade pode ser fornecido pela considerao do dilogo com a amiga recm-casada, no qual Zoe confirmou as suspeitas de Hanold - ao mencionar sua anterior convico 
de poder 'desencavar' algo de interessante em Pompia. Ela como que invadia o campo da arqueologia, da mesma forma que, utilizando o smile da caa ao lagarto, ele 
invadia o campo da zoologia; assim, os dois como que se lanavam um para o outro, cada qual tentando assumir o carter do outro.
         Nesse ponto parece que terminamos a interpretao do segundo sonho. Fomos capazes de compreender tanto esse como o anterior apoiando-nos na pressuposio 
de que o sonhador sabe, em seus pensamentos inconscientes, de tudo aquilo que esqueceu em seus pensamentos conscientes, e de que nos primeiros avalia corretamente 
o que nos ltimos transforma em delrio. No curso de nossa argumentao fomos, sem dvida, obrigados a fazer afirmaes que, por serem novas, devem ter parecido 
muito estranhas ao leitor; e talvez amide este tenha suspeitado que atribumos ao autor intenes que eram s nossas. Estou ansioso por fazer o possvel para afastar 
essa suspeita, revendo com prazer e maior mincia um dos pontos mais delicados: o uso de palavras e frases ambguas, tais como 'Sentada em algum lugar no sol, Gradiva...'
         Quem quer que leia Gradiva certamente notar a freqncia com que o autor coloca frases ambguas na boca de seus dois personagens principais. Ao pronunci-las 
Hanold no tinha conscincia dessa ambigidade, e somente a herona lhes percebia o segundo sentido. Quando, por exemplo, ao ouvir as primeiras palavras da jovem, 
ele retrucou: 'J sabia como soaria a tua voz' (ver em [1]), ignorando-lhe o sonho, Zoe perguntou como isso era possvel, j que ele nunca a ouvira falar. Em sua 
segunda conversa, por um momento ela pe em dvida o delrio dele, diante da afirmao de a ter reconhecido  primeira vista (ver em [2]). Zoe no pde evitar de 
ver nessas palavras um reconhecimento da amizade infantil de ambos (deduo correta no que diz respeito ao inconsciente dele), ao passo que ele naturalmente no 
percebeu esse sentido da prpria exclamao, julgando que a mesma se relacionava somente ao delrio que o dominava. Por outro lado, as palavras da jovem, cuja personalidade, 
numa total oposio ao delrio de Hanold, demonstrava uma extrema lucidez e clareza de esprito, assumem muitas vezes uma ambigidade intencional. Um dos sentidos 
dessas palavras ajusta-se ao delrio de Hanold, dirigindo-se  sua compreenso consciente, mas o outro sentido ultrapassa o delrio e em geral fornece-nos sua traduo 
para a verdade inconsciente que ele representa. Essa capacidade de dar expresso ao delrio e  verdade numa mesma frase  um triunfo do engenho e do esprito.
         A fala em que Zoe explica a situao  amiga e, ao mesmo tempo, livra-se da importuna (ver a partir de [1]), est cheia de ambigidades desse tipo. Na realidade, 
trata-se de uma fala feita pelo autor e dirigida mais ao leitor do que  'colega' recm-casada de Zoe. Nos dilogos de Zoe com Hanold a ambigidade  atingida por 
Zoe atravs do mesmo simbolismo encontrado no primeiro sonho de Hanold - em que o soterramento equivale  represso e a infncia a Pompia. Assim, em suas palavras 
a jovem, por um lado, mantm-se fiel ao papel que lhe foi dado pelo delrio de Hanold e, por outro lado, alude s circunstncias reais a fim de despertar no inconsciente 
de Hanold a compreenso das mesmas.
         'H muito que me acostumei a estar morta.' (90 (ver em [1]).) 'Essas flores do esquecimento so mais apropriadas para mim.' [Ibid.] Nessas frases h um 
leve prenncio das censuras a que mais tarde a jovem deu vazo na reprimenda em que o comparou a um arqueoptrix. (ver a partir de [2]) 'Tu te referes ao fato de 
que algum tenha de morrer para chegar a estar vivo; mas sem dvida isso tem de ser assim mesmo para os arquelogos.' (ver em [3]) Essas ltimas palavras pronunciadas 
por ela, aps o desvanecimento do delrio, so uma chave para suas falas ambguas. Mas foi ao perguntar: 'No te recordas que j compartilhamos uma vez de uma refeio 
semelhante h dois mil anos atrs?' (118 (ver em [4]).) que ela utilizou o simbolismo com maior felicidade. Aqui so evidentes a substituio da infncia pelo passado 
histrico e o esforo para despertar as lembranas daquela.
         Mas qual  a origem dessa singular preferncia em Gradiva por falas ambguas? Parece-nos no ser uma casualidade, mas uma conseqncia necessria das premissas 
da histria. Trata-se da contraparte da dupla determinao dos sintomas, j que as falas em si constituem sintomas e, como eles, surgem de conciliaes entre o consciente 
e o inconsciente. Simplesmente acontece que essa dupla origem  mais evidente em falas do que em atos. E quando acontece de, devido  natureza malevel do material 
verbal, essa dupla inteno que est por trs da fala poder ser expressa com xito pelas mesmas palavras, temos o que denominamos de 'ambigidade.'
         
         No decorrer do tratamento psicoteraputico de um delrio ou de uma perturbao anloga, o paciente com freqncia produz ambigidades desse tipo, como novos 
sintomas passageiros, e s vezes o prprio mdico pode servir-se delas. Pode tambm dessa forma, atravs do sentido pretendido para o consciente do paciente, despertar 
o conhecimento do sentido que se aplica ao inconsciente. Sei por experincia prpria que o papel desempenhado pela ambigidade pode provocar violenta objeo entre 
os que desconhecem o assunto, sendo capaz tambm de provocar srios mal-entendidos. Mas mesmo assim o autor agiu certamente ao reservar em sua criao um lugar para 
esse aspecto caracterstico do que ocorre na formao de sonhos e delrios.
         
         
         A emergncia de Zoe enquanto mdica, como j assinalei, despertou em ns um novo interesse. Ansiamos por saber se uma cura semelhante  por ela realizada 
em Hanold  possvel ou mesmo plausvel, e se o autor exps as condies do desaparecimento do delrio to corretamente como mostrou as de sua gnese.
         Nesse ponto certamente surgir uma opinio que ir negar qualquer interesse geral ao caso apresentado pelo autor, assim como contestar a existncia de qualquer 
problema que necessite de soluo. Hanold, diro, no teve outra alternativa seno a de abandonar seu delrio quando a suposta 'Gradiva', que constitua objeto do 
mesmo, mostrou-lhe a incorreo de todas as hipteses, fornecendo-lhe a explicao natural dos enigmas - por exemplo, o fato de ela saber o nome dele. Esse deveria 
ser o trmino lgico da questo, mas como a jovem revelara a ele seu amor, o autor, sem dvida para agradar s suas leitoras, arranjou os fatos para que sua histria, 
sob outros aspectos bastante interessante, tivesse o usual final feliz do casamento. Argumentaro tambm que seria mais lgico e igualmente possvel se o jovem cientista, 
ao reconhecer os seus enganos, se despedisse da dama com corteses agradecimentos e justificasse sua recusa do amor dela pelo fato de que, enquanto era capaz de se 
interessar vivamente por antigas esculturas femininas de mrmore e bronze ou pelas mulheres que lhe haviam servido de modelo, nenhuma serventia possuam para ele 
suas contemporneas de carne e osso. Em resumo, o autor, de forma totalmente arbitrria, acrescentou uma histria de amor  sua fantasia arqueolgica.
         Ao rejeitarmos como inaceitveis essas concepes, observaremos em primeiro lugar que os primrdios da transformao de Hanold no foram caracterizados 
apenas pelo abandono do delrio. Simultaneamente, ou mesmo antes do desaparecimento do delrio, ressurgiu no heri uma inconfundvel nsia de amar, que o levou, 
como seria de esperar, a cortejar a jovem que o libertara de seu delrio. J ressaltamos os pretextos e os disfarces sob os quais sua curiosidade sobre a 'natureza 
corprea' dela, seu cime e seu brutal instinto masculino de domnio foram expressos em seu delrio, depois que seu desejo ertico reprimido deu origem ao primeiro 
sonho. Como nova confirmao disso podemos lembrar que, na noite depois do seu segundo encontro com Gradiva, ele sentiu pela primeira vez simpatia por uma mulher 
viva, embora, como concesso ao seu antigo horror pelos casais em lua-de-mel, no a reconhecesse como sendo recm-casada. Na manh seguinte, entretanto, ao surpreender 
casualmente a atitude amorosa entre a jovem e seu suposto irmo, retirou-se reverentemente, como se houvesse interrompido algum ato sagrado (ver em [1]). Esquecera 
o quando menosprezara todos aqueles 'Edwins e Angelinas' e recuperara o respeito pelo lado ertico da vida.
         O autor estabelece assim uma ntima ligao entre o desvanecimento do delrio e o ressurgimento da nsia de amar, preparando o caminho para o inevitvel 
desenlace amoroso. Ele conhece a natureza bsica do delrio melhor do que seus crticos: sabe que o delrio resultou da combinao de um componente do desejo amoroso 
com a resistncia a esse desejo, e deixa que a jovem encarregada da cura se aperceba do elemento que lhe  agradvel. Foi somente esse conhecimento que fez com que 
ela se decidisse a dedicar-se ao tratamento; foi somente a certeza de ser amada pelo jovem que a induziu a confessar-lhe seu amor. O tratamento consistiu em dar-lhe 
acesso, pelo exterior, s lembranas reprimidas que ele no conseguia atingir no seu interior; contudo, o tratamento frustar-se-ia se durante o mesmo a terapeuta 
no houvesse levado em conta os sentimentos dele, e se sua traduo final do delrio no houvesse sido a seguinte: 'Olha, tudo isso significa apenas que tu me amas.'
         O processo que o autor faz Zoe adotar na cura do delrio do seu companheiro de infncia mostra, mais do que uma grande semelhana, uma total conformidade 
em sua essncia com o mtodo teraputico que o Dr. Josef Breuer e eu introduzimos na medicina em 1895, e a cujo aperfeioamento desde ento me tenho dedicado. Esse 
mtodo de tratamento, a que inicialmente Breuer chamou de 'catrtico', mas que prefiro denominar de 'psicanaltico', consiste, aplicado a pacientes que sofrem de 
perturbaes semelhantes ao delrio de Hanold, em lhes fazer chegar  conscincia, at certo ponto foradamente, o inconsciente cuja represso provocou a enfermidade 
- exatamente como Gradiva fez com as lembranas reprimidas da amizade de infncia que a unira a Hanold.  verdade que para ela essa tarefa era mais fcil do que 
para um mdico: por muitas razes a sua posio podia ser considerada ideal para isso. O mdico, que no tem conhecimento anterior do paciente e que no possui lembrana 
consciente do que atua inconscientemente nesse paciente, precisa utilizar uma tcnica complexa para compensar essa desvantagem. Deve aprender a deduzir com segurana, 
das comunicaes e associaes conscientes do paciente, o que neste est reprimido, e a descobrir o inconsciente dele atravs de suas palavras e seus atos conscientes. 
Ele ento obtm algo semelhante ao que Norbert Hanold percebeu no fim da histria, quando traduziu o nome 'Gradiva' a partir de 'Bertgang'. (ver em [1]) Ao serem 
identificadas as suas origens, a perturbao desaparece; da mesma forma, a anlise produz simultaneamente a cura.
         
         Mas a semelhana entre o processo empregado por Gradiva e o mtodo analtico de psicoterapia no se limita a esses dois aspectos - tornar consciente o que 
foi reprimido e fazer coincidir o esclarecimento e a cura. Estende-se tambm ao que consideramos o ponto fundamental de toda a modificao: o despertar dos sentimentos. 
Toda perturbao semelhante ao delrio de Hanold, o que em termos cientficos chamamos habitualmente de 'psiconeurose', tem como precondio a represso de uma parcela 
da vida instintual ou, j podemos afirmar, do instinto sexual. A cada tentativa de fazer chegar  conscincia as causas reprimidas e inconscientes da doena, o componente 
instintual em questo  necessariamente despertado para uma nova luta com as foras repressoras, com as quais s entra em acordo no resultado final, geralmente acompanhado 
de violentas manifestaes de reao. O processo de cura  realizado numa reincidncia no amor, se no termo 'amor' combinamos todos os diversos componentes do instinto 
sexual; tal reincidncia  indispensvel, pois os sintomas que provocaram a procura de um tratamento nada mais so do que precipitados de conflitos anteriores relacionados 
com a represso ou com o retorno do reprimido, e s podem ser eliminados por uma nova ascenso das mesmas paixes. Todo tratamento psicanaltico  uma tentativa 
de libertar amor reprimido que na conciliao de um sintoma encontrara escoamento insuficiente. Na verdade, o ponto culminante da semelhana entre Gradiva est no 
fato de que tambm na psicoterapia analtica a paixo que ressurge, seja dio ou amor, invariavelmente escolhe como objeto a figura do mdico.
          nesse ponto que comeam as diferenas, as quais fazem do caso de Gradiva um caso ideal que no pode ser igualado pela tcnica mdica. Gradiva podia corresponder 
ao amor que passou do inconsciente  conscincia, mas o mdico no pode fazer isso. Gradiva fora objeto do antigo amor reprimido; sua figura constitua uma meta 
desejvel para a corrente amorosa liberada. O mdico era um estranho e deve esforar-se para voltar a s-lo depois da cura; geralmente fica embaraado quanto a indicar 
aos pacientes curados como empregar na vida real a capacidade de amar que recuperaram. Para descrever os meios e os substitutos utilizados pelo mdico para aproximar-se 
com maior ou menor xito do modelo de cura pelo amor que nos foi mostrado pelo autor, iramos afastar-nos demasiado da tarefa que nos propusemos.
         E passemos agora  pergunta final, da qual mais de uma vez fugimos. (ver em [1] e [2]) Nossas concepes sobre a represso, a gnese de delrios e perturbaes 
correlatas, a formao e soluo de sonhos, o papel da vida ertica, o mtodo atravs do qual tais perturbaes so curadas est longe de ser endossado por todos 
os cientistas, e muito menos aceito pela maioria dos homens cultos. Se a compreenso interna (insight) que possibilitou ao autor a criao de sua 'fantasia' de tal 
modo que pudesse ser analisada por ns como se fosse um caso clnico verdadeiro foi da natureza de um conhecimento, gostaramos de conhecer as fontes desse conhecimento. 
Um membro do nosso grupo - o mesmo que, como eu disse no incio, estava interessado nos sonhos de Gradiva e em sua possvel interpretao (ver em [1]) dirigiu-se 
ao autor para lhe perguntar se conhecia alguma coisa de tais teorias cientficas. Como era de esperar, o autor respondeu negativamente, e de maneira um tanto brusca. 
A inspirao para a Gradiva, disse ele, fora sua prpria imaginao, e ela lhe dera grande prazer. Aqueles que no gostassem da obra, acrescentou, deveriam deix-la 
de lado. Na verdade, o autor nem de longe suspeitava o quanto havia agradado a seus leitores.
          bem possvel que a desaprovao do autor no pare a. Talvez ele tambm negue ter qualquer conhecimento das regras a que obedeceu, segundo nossa exposio, 
e repudie os propsitos que reconhecemos em sua obra. Se for este o caso, que no julgo improvvel, s existem duas explicaes possveis. Talvez tenhamos produzido 
apenas uma caricatura de uma interpretao, atribuindo a uma inocente obra de arte propsitos desconhecidos pelo autor, e demonstrando assim, mais uma vez, como 
 fcil vermos em toda a parte aquilo que se procura e que est ocupando nossa mente - possibilidade da qual a histria da literatura nos fornece os exemplos mais 
estranhos. Que o leitor decida agora se essa explicao o satisfaz. Naturalmente preferimos optar pela outra alternativa. Acreditamos que o autor no necessitava 
conhecer essas regras e propsitos, podendo ento t-las refutado de boa f, mas acreditamos tambm que nada descobrimos em sua obra que ali no exista. Provavelmente 
bebemos na mesma fonte e trabalhamos com o mesmo objeto, embora cada um com seu prprio mtodo. A concordncia entre nossos resultados parece garantir que ambos 
trabalhamos corretamente. Nosso processo consiste na observao consciente de processos mentais anormais em outras pessoas, com o objetivo de poder deduzir e mostrar 
suas leis. Sem dvida o autor procede de forma diversa. Dirige sua ateno para o inconsciente de sua prpria mente, auscultando suas possveis manifestaes, e 
expressando-as atravs da arte, em vez de suprimi-las por uma crtica consciente. Desse modo, experimenta a partir de si mesmo o que aprendemos de outros: as leis 
a que as atividades do inconsciente devem obedecer. Mas ele no precisa expor essas leis, nem dar-se claramente conta delas; como resultado da tolerncia de sua 
inteligncia, elas se incorporam  sua criao. Descobrirmos essas leis pela anlise de sua obra, da mesma forma que as encontramos em casos de doenas reais. A 
concluso evidente  que ambos, tanto o escritor como o mdico, ou compreendemos com o mesmo erro o inconsciente, ou o compreendemos com igual acerto. Essa concluso 
 muito valiosa para ns, e para chegar a ela valeu a pena investigar pelos mtodos da psicanlise mdica o modo como so representados a formao e a cura dos delrios, 
assim como os sonhos, na Gradiva de Jensen.
         Parece que chegamos ao fim. Mas um leitor atento poderia advertir-nos que no incio (ver em [1]) afirmamos serem os sonhos a representao da realizao 
de um desejo, e no oferecemos prova alguma dessa assero. Responderemos que essas pginas devem mostrar quo pouco justificvel  tentar abranger as nossas explicaes 
a respeito dos sonhos com a simples frmula de que so a realizao de um desejo. Mantemos, entretanto, nossa afirmao, e podemos prov-la com facilidade nos sonhos 
de Gradiva. Os pensamentos onricos latentes - sabemos agora o que so - podem ser dos mais diversos tipos; em Gradiva so resduos diurnos, pensamentos que passaram 
desapercebidos e no foram trabalhados pelas atividades mentais da vida de viglia. Mas para que deles resulte um sonho  necessria a cooperao de um desejo (geralmente 
inconsciente); isso fornece a fora motivadora para a construo do sonho, enquanto o material  fornecido pelos resduos diurnos. Na formao do primeiro sonho 
de Norbert Hanold, dois desejos competiam entre si; um deles era consciente, enquanto o outro era inconsciente e atuava sob a represso. O primeiro, muito compreensvel 
num arquelogo, era o desejo de ter testemunhado a catstrofe do ano 79 D.C. Que sacrifcios no faria um arquelogo para que esse desejo fosse realizado sem ser 
em sonhos! O outro desejo, o outro construtor do sonho, era de natureza ertica: de forma grosseira e incompleta podemos dizer que era um desejo de estar presente 
quando a jovem que ele amava se deitou para dormir. Foi a rejeio desse desejo que transformou o sonho em sonho de ansiedade. Os desejos que constituam as foras 
motivadoras do segundo sonho talvez sejam menos evidentes, mas se nos recordarmos de sua traduo no hesitaremos em classific-los como erticos. O desejo de ser 
aprisionado pela jovem que amava, de obedecer seus desejos e submeter-se a ela - pois assim podemos explicar o desejo oculto pela caa ao lagarto - era na verdade 
de carter passivo e masoquista. No dia seguinte Hanold agrediu a jovem, como se ento o dominasse uma tendncia ertica inversa... Mas paremos por aqui, ou poderemos 
esquecer que Hanold e Gradiva so apenas criaes da mente de seu autor.
         
         PS-ESCRITO  SEGUNDA EDIO (1912)
         
         Nos cinco anos que decorreram desde o trmino deste estudo, a investigao psicanaltica encorajou-se a examinar as criaes dos escritos imaginativos tendo 
em vista outro propsito. No mais procura nelas somente uma confirmao das descobertas feitas em seres humanos neurticos e banais; tambm quer conhecer o material 
de lembranas e impresses no qual o autor baseou a obra, e os mtodos e processos pelos quais converteu esse material em obra de arte. Essas perguntas podem ser 
respondidas com maior facilidade no caso de escritores que (como Wilhelm Jensen, falecido em 1911) costumavam entregar-se inteiramente  sua imaginao pela simples 
alegria de criar. Pouco depois da publicao do meu exame analtico de Gradiva, tentei interessar seu idoso autor por essas novas tarefas da pesquisa psicanaltica. 
Ele, porm, recusou sua cooperao.
         Mais tarde um amigo chamou minha ateno para dois outros contos do autor, com os quais Gradiva pode ter tido uma relao gentica e que constituem estudos 
preliminares ou tentativas anteriores de uma soluo potica satisfatria do mesmo problema da psicologia do amor. A primeira dessas histrias, 'Der rote Schirm', 
lembra Gradiva, no s pela recorrncia de pequenos motivos, como as flores brancas dos mortos, um objeto esquecido (o caderno de esboos de Gradiva) e a importncia 
de pequenos animais (a borboleta e o lagarto em Gradiva), mas tambm principalmente pela repetio da situao principal: a apario ao sol ardente do meio-dia de 
uma jovem falecida (ou supostamente falecida). Em 'Der rote Schirm' a cena da apario  um castelo em runas, tal como as runas das escavaes de Pompia em Gradiva. 
O outro conto, 'Im gotischen Hause', no se assemelha a Gradiva ou a 'Der rote Schirm' no contedo manifesto, mas o fato de lhe ter sido atribuda uma unidade externa 
com essa ltima, tendo as duas histrias sido publicadas num nico volume sob um mesmo ttulo, indica inegavelmente a existncia de um sentido latente comum.  fcil 
perceber que essas trs histrias tratam do mesmo tema: o desenvolvimento do amor (em 'Der rote Schirm', a inibio do amor) como conseqncia posterior de uma ntima 
ligao infantil de natureza fraternal. Atravs de uma resenha da condessa Eva Baudissin (no dirio vienense Die Zeit, de 11 de fevereiro de 1912) soube que o ltimo 
romance de Jensen, Fremdlinge unter den Menschen, que contm muito material da prpria infncia do autor,  a histria de um homem que 'v uma irm na mulher que 
ele ama.' Em nenhuma dessas duas histrias anteriores existem vestgios do motivo principal de Gradiva: o singular e gracioso andar da jovem com a postura quase 
perpendicular do p.
         O relevo da jovem que caminha desse modo, a qual Jensen diz ser romana e  qual d o nome de 'Gradiva', na verdade pertence ao perodo ureo da arte grega. 
Est no Museo Chiaramonti do Vaticano (n 644) e foi restaurado e interpretado por Hauser [1903]. Da unio de 'Gradiva' com outros fragmentos, existentes em Florena 
e Munique, foram obtidos dois relevos, cada qual representando trs figuras, identificadas como as Horas, as deusas da vegetao, e as divindades do orvalho fertilizador 
que so aliadas a elas.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
       
       
       
       
A PSICANLISE E A DETERMINAO DOS FATOS 
NOS PROCESSOS JURDICOS (1906)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         TATBESTANDSDIAGNOSTIK UND PSYCHOANALYSE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1906 Arch. Krim. Anthrop., 26 (1), 1-10.
         1909 S.K.S.N., 2, 111-21. (1912, 2 ed.; 1921, 3 ed.)
         1924 G.S. 10, 197-209.
         1941 G.W. 7, 3-15.
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
         'The Testimony of Witnesses and Psychoanalysis'
         1920 S.P.H., 216-25. (Somente na 3 ed.) (Trad. de A.A. Brill.)
         'Psycho-Analysis and the Ascertaining of Truth in Courts of Law'
         1924 C.P., 2, 13-24. (Trad. de E.B.M. Herford.)
         
         A presente traduo, com ttulo alterado, baseia-se na que foi publicada em 1924.
         
         A pedido do professor Lffler (catedrtico de jurisprudncia em Viena), esta conferncia foi pronunciada antes do seminrio desse professor na Universidade, 
em junho de 1906. Existe uma certa confuso a respeito da data de publicao. O nmero do peridico em que esta conferncia apareceu traz na primeira pgina a data 
de 21 de dezembro de 1907. H a, certamente, um erro de impresso para '1906', pois os nmeros seguintes trazem as datas de 6 de maro de 1907 e 29 de abril 1907.
         Esta conferncia possui algum interesse histrico, pois  a primeira vez que num trabalho publicado de Freud se menciona o nome de Jung (ver em [1]). Freud 
comeara a corresponder-se com Jung h apenas dois meses quando pronunciou esta conferncia, vindo a conhec-lo pessoalmente somente em fevereiro do ano seguinte.
         Neste trabalho evidencia-se o impacto imediato de Jung. O propsito desta conferncia foi apresentar aos estudantes vienenses as experincias de associao 
e a teoria dos complexos de Zurique. Os estudos de Zurique haviam comeado a aparecer em peridicos dois anos antes (Jung e Riklin, 1904), e o prprio Jung publicara 
dois ou trs estudos sobre a aplicao de seu processo  prova legal apenas alguns meses antes de Freud pronunciar esta conferncia (e. g. Jung, 1906, referido em 
[1]).
         Mais tarde, aps o afastamento de Jung, Freud, em suas notas sobre 'A Histria do Movimento Psicanaltico' (1914), reduziu a importncia tanto das experincias 
de associao como da teoria dos complexos (ver em [1], 1974.) Mesmo neste trabalho, h uma certa crtica oculta sob a aprovao. Freud faz questo de mostrar que 
as descobertas de Zurique no passam, na verdade, de aplicaes particulares de princpios bsicos da psicanlise, indicando no penltimo pargrafo o perigo de tirar 
concluses apressadas dos resultados dos testes de associao.
         Como esta  a primeira vez que nos trabalhos publicados de Freud aparece o termo de Zurique 'complexo', cabem aqui alguns comentrios sobre o assunto. As 
primeiras experincias sistemticas de associao foram realizadas por Wundt, e mais tarde foram introduzidas na psiquiatria por Krpelin e particularmente por Aschaffenburg. 
Sob a direo de Bleuler, ento diretor do hospcio pblico Burghlzli de Zurique, e de Jung, seu primeiro assistente, foi levada a cabo uma srie de experincias 
anlogas, cujas concluses foram publicadas a partir de 1904. Mais tarde foram reunidas em dois volumes (1906-1909) por Jung. Com exceo de uma nova classificao 
das formas assumidas pelas reaes verbais s palavras-estmulo, o principal interesse das descobertas de Zurique residia na nfase dada  influncia de um determinado 
fator sobre as reaes. Esse fator era descrito na primeira dessas publicaes (Jung e Riklin, 1904) como um 'complexo ideativo com colorido emocional'. Numa nota 
de rodap (ibid., 57) os autores o explicam como 'a totalidade das idias relativas a um evento de especial colorido emocional', acrescentando que nesse sentido 
passaro a usar o termo 'complexo'.
         Note-se que no h qualquer referncia direta a se essas idias so ou inconscientes ou reprimidas, e fica claro no que se segue (e. g. ibid., 74) que um 
'complexo' pode ou no constituir-se de material reprimido. Salvo sua convenincia como abreviatura, no parece haver mrito particular na palavra 'complexo' assim 
definida, sendo pouco provvel que tenha sido esta, na verdade, a primeira vez em que foi utilizada em tal sentido. Ernest Jones revela-nos (1955, 34 e 127) que 
Ziehen, o conhecido psiquiatra berlinense, afirmou ter dado origem a seu uso. Mas na verdade a palavra ocorre trs vezes, com o que parece ser exatamente o mesmo 
sentido, numa obra anterior de Freud - o caso de Frau Emmy von N. nos Estudos sobre a Histeria (1895d), ver em [1], 1974; enquanto Breuer, na mesma obra (ver em 
[2]), parece dar mais nfase ao fator inconsciente do que essas primeiras definies de Zurique, ao escrever que 'as idias que so despertadas, mas no entram na 
conscincia... s vezes... acumulam e formam complexos - camadas mentais extradas da conscincia.' Quando mais tarde o termo se popularizou, e no somente dentro 
da psicologia, j englobava como elemento essencial de sua conotao o fato de as idias em questo serem 'extradas da conscincia', ou seja, 'reprimidas'.
         Os contatos posteriores de Freud com a jurisprudncia foram poucos e espaados. O terceiro de seus estudos sobre tipos de carter (1916d) relaciona-se diretamente 
com a psicologia do crime. Em duas outras ocasies ele escreveu relatrios acerca de casos criminais. Em uma delas (1931d) pediram-lhe que examinasse o parecer de 
um especialista num caso de assassinato, e na outra fez um memorando para a defesa num caso de estupro (Jones, 1957, 93). Esse memorando (escrito em 1922) se perdeu. 
Nos dois casos exps sua reprovao a uma aplicao inepta das teorias psicanalticas nos processos legais.
         
         A PSICANLISE E A DETERMINAO DOS FATOS NOS PROCESSOS JURDICOS
         
         SENHORES:
         Estamos cada vez mais convictos da falta de fidedignidade das declaraes feitas por testemunhas, sobre as quais, entretanto, se apiam tantas condenaes 
nos tribunais. Esse fato levou-os, futuros juzes e defensores, a se interessar por um novo mtodo de investigao, que se prope a induzir o prprio ru a estabelecer 
sua culpa ou inocncia por meio de sinais objetivos. Esse mtodo consiste numa experincia psicolgica e se baseia em pesquisas da mesma ordem. Est estreitamente 
ligado a certas concepes que s muito recentemente chegaram ao conhecimento da psicologia mdica. Sei que os senhores, por meio do que poderamos chamar de 'exerccios 
simulados', j se ocupam em testar as possibilidades e a utilizao desse novo mtodo, e aceitei com prazer o convite do professor Lffler, que preside este seminrio, 
para explicar-lhes de forma completa a relao entre esse mtodo e a psicologia.
         Todos conhecem aquele jogo de salo, tambm apreciado pelas crianas, em que algum deve acrescentar a uma palavra escolhida ao acaso uma outra, sendo o 
resultado uma palavra composta; por exemplo 'steam' (vapor) e 'ship' (navio), dando 'steam-ship' (navio a vapor). A 'experincia de associao' introduzida na psicologia 
pela escola de Wundt nada mais  do que uma modificao desse jogo infantil, do qual se suprime uma regra.
         A experincia  a seguinte: apresenta-se uma palavra (denominada 'palavra-estmulo') ao indivduo que se est submetendo  experincia e ele dever responder 
com uma outra palavra (denominada 'reao') o mais depressa possvel, no havendo nenhuma restrio em sua escolha dessa reao. Devem ser observados os seguintes 
detalhes: o tempo exigido para a 'reao' e a relao - que pode ser de diversos tipos - entre a palavra-estmulo e a palavra-reao. Como era de esperar, essas 
experincias no produziram inicialmente muitos frutos, tendo sido realizadas sem uma finalidade definida e sem uma diretriz pela qual se pudessem avaliar os resultados. 
Essas 'experincias de associao' s se tornaram significativas e proveitosas quando, em Zurique, Bleuler e seus discpulos, especialmente Jung, comearam a lhes 
dedicar ateno. O valor das experincias realizadas pelo grupo deriva-se de terem partido da hiptese de que a reao  palavra-estmulo no podia ser fruto do 
acaso, mas devia ser determinada pelo contedo ideativo presente na mente do sujeito que reagia.
         Habituamo-nos a denominar de 'complexo' todo contedo ideativo que  capaz de influenciar a reao  palavra-estmulo. Essa influncia ocorre quando a palavra-estmulo 
toca diretamente o complexo, ou quando o complexo estabelece contato com a palavra atravs de elos intermedirios. A determinao da reao  realmente um fato muito 
singular, e a literatura do assunto reflete o indisfarvel assombro que a mesma tem provocado. Mas no h como duvidar de sua veracidade, pois, via de regra, perguntando 
ao prprio sujeito as razes de sua reao,  possvel expor o complexo atuante e esclarecer relaes que de outro modo no seriam inteligveis. Exemplos como os 
que Jung nos apresenta (1906, 6 e 8-9) fazem-nos duvidar da incidncia da casualidade nos eventos mentais ou de sua pretensa arbitrariedade.
         Faamos agora um breve exame dos antecedentes dessa concepo de Bleuler e Jung de que a reao do sujeito submetido a exame  determinada pelo seu complexo. 
Publiquei em 1901 uma obra na qual demonstrei serem de determinao rgida toda uma srie de atos que se acreditava imotivados, contribuindo assim, em certo grau, 
para limitar o fator arbitrrio em psicologia. Usei como exemplos as pequenas falhas de memria, os lapsos de lngua e de escrita, e o extrativo de objetos. Mostrei 
que o responsvel por um lapso de lngua no  o acaso, nem a semelhana no som, nem uma simples dificuldade de articulao, mas que em todos os casos podemos descobrir 
um contedo ideativo perturbador, isto , um complexo, que alterou o sentido da fala intencionada sob a forma aparente de um lapso de lngua. Alm disso, examinei 
pequenos atos aparentemente casuais e gratuitos - por exemplo, o hbito de brincar ou de manusear um objeto, e outros semelhantes - e demonstrei que so 'atos sintomticos', 
ligados a um sentido oculto e cuja finalidade  expressar discretamente esse sentido. Descobri que nem mesmo um prenome nos vem  mente de forma arbitrria, tendo 
sido sua escolha determinada por algum poderoso complexo ideativo. At mesmo nmeros que acreditvamos ter escolhido ao acaso podem ser relacionados com a influncia 
de um complexo oculto dessa espcie. Poucos anos depois disso, um colega, o Dr. Alfred Adler, pde corroborar essa minha singularssima afirmao com alguns exemplos 
notveis (Adler, 1905). Depois que nos habituamos a essa concepo do determinismo na vida psquica, sentimo-nos justificados em inferir das descobertas da psicopatologia 
da vida cotidiana que as idias que ocorrem ao sujeito numa experincia de associao podem tambm no ser arbitrrias, mas determinadas por um contedo ideativo 
nele atuante.
         Senhores, voltemos a examinar a experincia de associao. No tipo de experincia a que at agora nos referimos, era a prpria pessoa submetida a exame 
que nos explicava a origem de suas reaes, circunstncia que subtrai dessas experincias qualquer interesse judicial. Mas o que sucederia se alterssemos a planificao 
da experincia? No se poderia adotar processo semelhante ao da resoluo de uma equao com vrias grandezas, em que se pode optar por qualquer uma como ponto de 
partida, considerando-se ou o a ou o b como o x procurado? At agora em nossas experincias a incgnita tem sido o complexo. Escolhemos a esmo as palavras-estmulo, 
e o sujeito submetido a exame revelou-nos o complexo, que veio a ser expresso atravs dessas palavras-estmulo. Mas agora vamos abordar a questo de forma diversa. 
Vamos tomar um complexo conhecido e reagir, ns mesmos, a esse complexo com palavras-estmulo deliberadamente escolhidas, transferindo ento o x para a pessoa que 
est reagindo. Ser acaso possvel deduzir da maneira pela qual a mesma reage se o complexo escolhido tambm existe nela? Podem ver os senhores que essa forma de 
planificao da experincia corresponde exatamente ao mtodo adotado pelo juiz de instruo ao tentar descobrir se o acusado tambm conhece, em sua qualidade de 
agente, alguma coisa de que ele, juiz, tem conhecimento. Wertheimer e Klein, dois discpulos de Hans Gross, professor de direito penal em Praga, parecem ter sido 
os primeiros a introduzir essa modificao, to importante para os propsitos dos senhores, na planificao das experincias.
         As suas prprias experincias j os levaram a concluir da necessidade de considerar vrios pontos nas reaes do sujeito para determinar se o mesmo possui 
o complexo ao qual os senhores esto reagindo com suas palavras-estmulo. Esses pontos so os seguintes: (1) O contedo da reao pode ser incomum, o que requer 
explicao. (2) O tempo de reao pode ser prolongado, pois parece que as palavras-estmulo que tocaram o complexo produzem uma reao apenas aps considervel intervalo 
(intervalo que pode ser muito maior que o tempo de reao comum). (3) Pode haver um engano na reproduo da reao. Os senhores j conhecem o significado desse fato 
singular. Se o sujeito submeteu-se a uma experincia de associao com uma lista bastante longa de palavras-estmulo, e se depois de um curto espao de tempo essa 
lista for-lhe novamente apresentada, ele reproduzir as mesmas reaes anteriores, salvo nos casos em que a palavra-estmulo atingiu um complexo; nesse caso  muito 
provvel que o sujeito substitua a sua primeira reao por outra. (4) O fenmeno da perseverao (ou talvez seja melhor empregar o termo 'efeito secundrio') pode 
ocorrer. Quando um complexo  despertado, ao ser atingido por uma palavra-estmulo - palavra-estmulo 'crtica' -, com freqncia os efeitos disso (por exemplo, 
o prolongamento do tempo de reao) persistem e modificam as reaes do sujeito ante as prximas palavras-estmulo no-crticas. A presena de vrias dessas circunstncias, 
ou de todas elas, comprova que o complexo conhecido est presente como fator perturbador na pessoa que est sendo interrogada. Tal perturbao significa que na mente 
do sujeito o complexo est catexizado com afeto, sendo capaz de desviar sua ateno da tarefa de reagir; assim, v-se nessa perturbao uma 'autotraio psquica.'
         Sei que no momento os senhores se ocupam das potencialidades e das dificuldades desse processo, cuja finalidade  levar o acusado a uma autotraio objetiva. 
Portanto, gostaria de chamar-lhes a ateno para o fato de que um mtodo semelhante para trazer  tona material psquico encoberto ou secreto vem sendo utilizado, 
h mais de uma dcada, em um outro campo. Pretendo expor-lhes as semelhanas e as diferenas entre as condies desses dois campos.
         O campo que tenho em mente , na verdade, muito diverso deste dos senhores. Refiro-me  terapia empregada em certas 'doenas nervosas' - conhecidas como 
psiconeuroses - das quais so exemplo a histeria e as idias obsessivas. O mtodo denomina-se 'psicanlise'; foi por mim desenvolvido a partir do mtodo 'catrtico' 
de terapia, empregado pela primeira vez por Josef Breuer em Viena. Diante do espanto dos senhores, devo estabelecer primeiramente uma analogia entre o criminoso 
e o histrico. Em ambos defrontamos com um segredo, alguma coisa oculta. Para no incorrer num paradoxo, devo em seguida apontar a diferena. O criminoso conhece 
e oculta esse segredo, enquanto o histrico no conhece esse segredo, que est oculto para ele mesmo. Como  possvel tal coisa? Ora, atravs de laboriosas pesquisas, 
sabemos que todas essas enfermidades resultam do xito obtido pelo paciente na represso de certas idias e lembranas fortemente catexizadas com afeto, assim como 
dos desejos que delas se originam, de tal modo que no representam qualquer papel em seu pensamento, isto , no penetram em sua conscincia, permanecendo assim 
desconhecidos para ele.  desse material psquico reprimido (desses 'complexos') que derivam os sintomas somticos e psquicos que atormentam o paciente, da mesma 
forma que uma conscincia culpada. Nesse aspecto, portanto,  fundamental a diferena entre o criminoso e o histrico.
         A tarefa do terapeuta, entretanto,  a mesma do juiz de instruo. Temos de descobrir o material psquico oculto, e para isso inventamos vrios estratagemas 
detetivescos, alguns dos quais parece que os senhores, homens da lei, esto prestes a copiar de ns.
         Ser-lhes- profissionalmente interessante saber como ns, os mdicos, procedemos na psicanlise. Depois que o paciente nos fez um primeiro relato de sua 
histria, pedimos-lhes que se abandone aos pensamentos que lhe ocorrerem espontaneamente e que diga, sem qualquer reserva crtica, tudo o que lhe vier  cabea. 
Como vem, partimos da hiptese, no compartilhada pelo paciente, de que esses pensamentos espontneos no sero escolhidos de forma arbitrria, mas determinados 
pela relao com seu segredo - isto , com seu 'complexo' -, podendo ser encarados como derivados desse complexo. Os senhores observaro que essa hiptese  semelhante 
 que os auxiliou a interpretar as experincias de associao. Embora tenhamos instrudo o paciente a obedecer  regra de comunicar todos os pensamentos que lhe 
ocorrerem, ele no parece capaz de o fazer. Logo comea a reter pensamentos, dando vrias razes para isso: ou o pensamento no era importante, ou no era pertinente, 
ou era totalmente sem sentido. A essa altura, insistimos que o revele e o acompanhe, a despeito dessas objees, pois a presena dessa crtica demonstra que o pensamento 
pertence ao 'complexo' que procuramos descobrir. Vemos nesse comportamento do paciente uma manifestao da 'resistncia' nele presente, que se faz notar durante 
todo o curso do tratamento. Limitar-me-ei a indicar que o conceito de resistncia  da maior importncia na compreenso da origem de uma enfermidade assim como do 
mecanismo de sua cura.
         Em suas experincias, os senhores no observam diretamente crticas como essas das idias espontneas do sujeito, ao passo que em nossas psicanlises podemos 
observar todas as indicaes de um complexo que se do a conhecer. Mesmo quando o paciente no mais se atreve a infringir a regra que lhe foi imposta, notamos que 
de vez em quando hesita ou se cala, ou faz pausas ao reproduzir suas idias. Cada hesitao dessa espcie , a nosso ver, uma expresso de sua resistncia, e indica 
uma conexo com o 'complexo'. Na verdade, ns a encaramos como o sinal mais importante dessa conexo, exatamente como nos casos dos senhores a prolongao anloga 
do tempo de reao. Habituamo-nos a interpretar desse modo qualquer hesitao, mesmo quando aparentemente o contedo da idia retida nada tem de censurvel e quando 
o paciente afirma reconhecer o motivo de sua hesitao. Via de regra, as pausas que ocorrem na psicanlise so muito mais prolongadas do que as observadas em experincias 
de reao.
         Outro de seus indcios de um complexo - a alterao no contedo da reao - tambm desempenha seu papel na tcnica da psicanlise. Em geral tambm encaramos 
os menores afastamentos das formas comuns de expresso, em nossos pacientes, como sinal de algum sentido oculto, e nos dispomos a ser ridicularizados por eles ao 
fazermos interpretaes nesse sentido. Na verdade, ficamos  espreita de observaes portadoras de qualquer ambigidade, nas quais transparece, sob uma expresso 
inocente, um sentido oculto. No s os pacientes, mas tambm colegas mdicos, que desconhecem a tcnica da psicanlise e seus aspectos especiais, no acreditam nesses 
fatos e nos acusam de exagero e de fazer jogo de palavras; quase sempre, porm, temos razo. Afinal, no  difcil compreender que a nica maneira pela qual um segredo 
cuidadosamente guardado se trai  atravs de aluses muito sutis ou, quando muito, ambguas. Por fim, o paciente acostuma-se a nos revelar, por meio do que chamamos 
de 'representao indireta', tudo aquilo de que necessitamos para descobrir o complexo.
         O terceiro dos seus indcios de um complexo (enganos - isto , alteraes - na reproduo [da reao]) tambm  utilizado, embora num setor mais restrito, 
na tcnica da psicanlise. Uma tarefa que freqentemente se nos apresenta  a interpretao de sonhos - isto , a traduo do contedo lembrado de um sonho para 
o seu sentido oculto. Algumas vezes no temos certeza por onde devemos comear essa tarefa, e nesses casos empregamos uma regra, descoberta empiricamente, que consiste 
em fazer com que o sonhador torne a nos contar seu sonho. Nesse mister, em geral ele modifica em alguns pontos sua maneira de expressar-se, embora repetindo com 
fidelidade todo o resto.  justamente a esses pontos reproduzidos erroneamente, ou ento omitidos, que nos prendemos, pois essa impreciso indica uma conexo com 
o complexo e promete o melhor acesso ao sentido secreto do sonho.
         Se eu agora admitir para os senhores que em psicanlise no se manifesta fenmeno semelhante  perseverao, no devem os senhores concluir que se esgotaram 
os pontos de concordncia que estivemos examinando. Essa aparente divergncia deriva-se apenas das condies especiais das suas experincias, pois nelas no se d 
tempo para que se desenvolva o efeito do complexo. Sua ao apenas comeou, quando os senhores distraem a ateno do sujeito com uma nova palavra-estmulo, provavelmente 
inocente; podem ento observar que algumas vezes, apesar de sua interferncia, ele continua ocupado com o complexo. Em psicanlise, por outro lado, evitamos tais 
interferncias e mantemos o paciente ocupado com o complexo. Como em nosso trabalho, tudo, por assim dizer,  perseverao, no poderemos observar esse fenmeno 
como uma ocorrncia isolada.
         Podemos com justia afirmar que, em princpio, tcnicas como as que descrevi permitem-nos tornar o paciente consciente do que nele est reprimido, isto 
, do seu segredo, assim removendo a causao psicolgica dos sintomas de que ele sofre. Mas antes que os senhores retirem desses resultados positivos concluses 
referentes s possibilidades de seu prprio trabalho, examinaremos alguns pontos de divergncia entre as situaes psicolgicas dos dois casos.
         J apontamos a diferena principal: no neurtico o segredo est oculto de sua prpria conscincia; no criminoso, o segredo est oculto apenas dos senhores. 
No primeiro existe uma autntica ignorncia, embora no em todos os sentidos, enquanto no ltimo s existe uma simulao de ignorncia. Com essa diferena est em 
conexo uma outra que tem grande importncia prtica. Na psicanlise o paciente ajuda a combater sua resistncia atravs de esforos conscientes, porque espera lucrar 
com essa investigao, isto , curar-se. O criminoso, ao contrrio, no cooperar com o trabalho dos senhores; se o fizesse, estaria trabalhando contra todo o seu 
prprio ego. Entretanto, em compensao, em suas investigaes apenas os senhores necessitam obter uma convico objetiva, ao passo que nossa terapia exige que o 
paciente tambm adquira essa mesma convico. Contudo, resta ver at que ponto essa falta de cooperao do sujeito de seu exame ir dificultar ou alterar o desenrolar 
do mesmo. Tal situao no pode ser reconstituda em suas experincias num seminrio, pois o colega que desempenha o papel de acusado continua, no fim das contas, 
a ser um companheiro, e os auxiliar, apesar da determinao consciente dele de no se denunciar.
         Se examinarem atentamente a comparao das duas situaes, vero com clareza que a psicanlise se ocupa com uma forma mais simples e especial de descobrir 
o que est oculto na mente, ao passo que no trabalho dos senhores a tarefa  mais ampla. Embora no necessitem levar em considerao a diferena de que no caso do 
psiconeurtico sempre se trata de complexo sexual reprimido (no sentido mais amplo), existe um outro fato que no podem ignorar. O propsito da psicanlise  absolutamente 
uniforme em todos os casos:  preciso trazer  tona os complexos reprimidos por causa de sentimentos de desprazer e que produzem sinais de resistncia ante as tentativas 
de lev-los  conscincia.  como se essa resistncia estivesse localizada; surge na fronteira entre o consciente e o inconsciente. J no caso dos senhores, a resistncia 
origina-se totalmente da conscincia, no sendo possvel deixar de lado essa diferena. Os senhores, em primeiro lugar, tero de determinar experimentalmente se 
a resistncia consciente denuncia-se exatamente pelos mesmos indcios que a resistncia inconsciente. Alm disso, em minha opinio os senhores ainda no podem estar 
seguros de poder interpretar seus indcios objetivos de um complexo como sendo uma 'resistncia', tal como ns psicoterapeutas fazemos. No caso dos sujeitos de suas 
experincias, pode acontecer que o complexo atingido seja de acento agradvel - embora isso no seja muito freqente em criminosos -, o que levar a indagar se tal 
complexo ir produzir a mesma reao que um complexo de acento desagradvel.
         Gostaria tambm de assinalar que o teste dos senhores pode estar sujeito a uma complicao que, em virtude de sua prpria natureza, no ocorre na psicanlise. 
Os senhores, em sua investigao, podem ser induzidos a erro por um neurtico que, embora inocente, reage como culpado, devido a um oculto sentimento de culpa j 
existente nele e que se apodera da acusao. No julguem essa possibilidade como uma inveno ociosa; lembrem-se que isso pode ser observado com freqncia na infncia. 
Muitas vezes uma criana acusada de uma transgresso nega veementemente sua culpa, embora chore como um criminoso desmascarado. Talvez pensem que a criana mentiu 
ao afirmar sua inocncia, mas isto nem sempre  verdade. Pode ser que, embora no tenha cometido uma falta de que a acusam, tenha cometido uma outra que permanece 
ignorada e que no lhe foi imputada. Assim, fala a verdade ao negar ser culpada da primeira transgresso, ao mesmo tempo que revela seu sentimento de culpa proveniente 
da outra falta. Nesse particular, como em muitos outros pontos, o adulto neurtico comporta-se exatamente como uma criana. Muitas pessoas so assim, e ainda  muito 
discutvel se a sua tcnica lograr distinguir tais indivduos auto-acusadores daqueles que so realmente culpados. Finalmente, mais uma questo. Os senhores sabem 
que, pelas normas do direito penal,  vedado sujeitar o acusado a qualquer medida que o tome de surpresa; portanto, ele dever ter sido advertido de que poder denunciar-se 
nessa experincia. Isso leva a perguntar se podem ser esperadas as mesmas reaes tanto quando a ateno do sujeito est dirigida para o complexo como quando est 
afastada desse mesmo complexo, e a que ponto a inteno de ocultar alguma coisa pode afetar os modos de reao em pessoas diferentes.
          justamente devido  diversidade de situaes que subjazem ao trabalho de investigao dos senhores, que a psicologia se interessa to vivamente por seus 
resultados. Gostaria de pedir-lhes que no se desiludissem prematuramente de sua utilidade prtica. Embora meu campo esteja muito afastado da prtica judicial, talvez 
me permitam mais uma sugesto. Por mais indispensveis que sejam essas experincias realizadas em seminrios, tanto como uma preparao quanto como formulao de 
problemas, os senhores no podero jamais reproduzir a mesma situao psicolgica existente no interrogatrio do acusado numa investigao criminal. Essas experincias 
sero simples exerccios simulados, e nunca podero fundamentar uma aplicao prtica em casos criminais. Se insistirmos em tentar essa aplicao, um outro caminho 
se nos apresenta: consigam que lhes seja permitido - ou mesmo imposto como um dever - realizar tais investigaes, durante um certo nmero de anos, em cada processo 
criminal real, impedindo que os seus resultados venham a influenciar o veredicto do tribunal. Na verdade, seria prefervel que o tribunal no fosse informado da 
concluso inferida pelos senhores a partir da investigao relativa  questo da culpa do acusado. Aps alguns anos de compilao e comparao dos resultados assim 
obtidos, quaisquer dvidas sobre a utilidade desse mtodo psicolgico de investigao sero esclarecidas. Sei, naturalmente, que a concretizao de semelhante proposta 
no depende somente dos senhores, nem de seus ilustres professores.
         
         
         
         


























ATOS OBSESSIVOS E PRTICAS RELIGIOSAS (1907)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         ZWANGSHANDLUNGEN UND RELIGIONSBUNGEN
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1907 Z. Religionspsychol., 1 (1) [Abril], 4-12.
         1909 S.K.S.N., 2, 122-31. (1912, 2 ed.; 1921, 3 ed.)
         1924 G.S., 10, 210-20.
         1941 G.W., 7, 129-39.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Obsessive Acts and Religious Practices'
         1924 C.P., 2, 25-35. (Trad. de R. C. McWatters.)
         
         A presente traduo, com ttulo ligeiramente alterado,  uma verso modificada da que foi publicada em 1924.
         
         Este artigo foi escrito em fevereiro de 1907 para o primeiro nmero de um peridico dirigido por Bresler e Vordrobt. Na reunio de 27 de fevereiro da Sociedade 
Psicanaltica de Viena, Freud informou que enviara uma contribuio para o nmero de estria desse novo peridico e tambm que Bresler o convidara para co-editor, 
convite por ele aceito. Na verdade seu nome aparece na (longa) lista de consultores editoriais. A informao incorreta de que esse artigo foi lido por Freud para 
a Sociedade, a 2 de maro,  proveniente da biografia de Jones (2, 380). De qualquer forma, 2 de maro foi um sbado e no uma quarta-feira. Jung esteve presente 
 reunio de 6 de maro, quando Adler leu um caso clnico. (Ver Minutes, 1.) Essa foi a incurso inicial de Freud na psicologia da religio e, como assinala na Seo 
V da sua 'Uma Breve Descrio da Psicanlise' (1924f), constituiu um passo decisivo em direo a um tratamento mais extenso do assunto, cinco anos depois, em Totem 
e Tabu. Alm disso, o interesse deste artigo reside no fato de ser esta a primeira vez que Freud examina a neurose obsessiva desde o perodo de Breuer, cerca de 
dez anos antes. Aqui ele fornece um esboo do mecanismo dos sintomas obsessivos que iria elaborar no caso clnico do 'Rat Man' (1909d), cujo tratamento, entretanto, 
ainda no iniciara quando escreveu o presente trabalho.
         
         
         
         
         ATOS OBSESSIVOS E PRTICAS RELIGIOSAS
         
         No sou certamente o primeiro a notar a semelhana existente entre os chamados atos obsessivos dos que sofrem de afeces venosas e as prticas pelas quais 
o crente expressa sua devoo. O termo 'cerimonial', que tem sido aplicado a alguns desses atos obsessivos, constitui uma evidncia disso. Em minha opinio, entretanto, 
essa semelhana no  apenas superficial, de modo que a compreenso interna (insight) da origem do cerimonial neurtico pode, por analogia, estimular-nos a estabelecer 
inferncias sobre os processos psicolgicos da vida religiosa.
         As pessoas que praticam atos obsessivos ou cerimoniais pertencem  mesma classe das que sofrem de pensamento obsessivo, idias obsessivas, impulsos obsessivos 
e afins. Isso, em conjunto, constitui uma entidade clnica especial, que comumente se denomina de 'neurose obsessiva' [Zwangsneurose]. Mas no devemos tentar inferir 
de tal denominao a natureza da enfermidade, pois, a rigor, tambm outras espcies de fenmenos mentais mrbidos podem possuir caractersticas 'obsessivas'. Em 
lugar de uma definio, contentemo-nos no momento em obter um conhecimento minucioso desses estados, pois ainda no chegamos ao critrio distintivo da neurose obsessiva, 
que provavelmente se encontra oculto em camadas muito profundas, embora parea revelar sua presena em todas as manifestaes da doena.
         Os cerimoniais neurticos consistem em pequenas alteraes em certos atos cotidianos, em pequenos acrscimos, restries ou arranjos que devem ser sempre 
realizados numa mesma ordem, ou com variaes regulares. Essas atividades, meras formalidades na aparncia, afiguram-se destitudas de qualquer sentido. O prprio 
paciente no as julga diversamente, mas  incapaz de renunciar a elas, pois a qualquer afastamento do cerimonial manifesta-se uma intolervel ansiedade, que o obriga 
a retificar sua omisso. To triviais quanto os prprios atos cerimoniais so as ocasies e as atividades ornamentadas, complicadas e sempre prolongadas pelo cerimonial 
- por exemplo, vestir e despir-se, o ato de deitar-se ou de satisfazer as necessidades fisiolgicas. O cerimonial  sempre executado como se tivesse de obedecer 
a certas leis tcitas. Tomemos, por exemplo, um cerimonial relativo ao ato de deitar-se: a cadeira deve ficar numa determinada posio ao lado da cama, as roupas 
colocadas sobre a mesma numa determinada ordem, o cobertor preso embaixo do colcho e o lenol bem esticado, os travesseiros arrumados de maneira especial, e o corpo 
da pessoa deve adotar uma posio bem determinada. S depois disso tudo ela poder dormir. Em casos leves, o cerimonial parece ser nada mais do que a intensificao 
de hbitos ordeiros muito justificveis;  a especial conscincia que cerca sua execuo e a ansiedade que surge com qualquer falha que lhe do o carter do 'ato 
sagrado'. Em geral se suporta mal qualquer interrupo no cerimonial, sendo quase sempre excluda a presena de outras pessoas durante sua realizao.
         Toda atividade pode converter-se em um ato obsessivo, no sentido mais amplo do termo, se for complicada por pequenos acrscimos ou se adquirir um carter 
rtmico atravs de pausas e repeties. No esperemos encontrar uma distino ntida entre 'cerimoniais' e 'atos obsessivos'. Em geral os atos obsessivos derivam-se 
de cerimoniais. Alm desses, o contedo do distrbio abrange proibies e impedimentos (abulias), que na realidade apenas levam adiante o trabalho dos atos obsessivos, 
portanto algumas coisas so completamente vedadas ao paciente e outras s permitidas aps a realizao de um determinado cerimonial.
          singular que tanto as compulses como as proibies (ter de fazer isso e no ter de fazer aquilo) aplicam-se inicialmente s s atividades solitrias 
do sujeito, e por muito tempo no afetam seu comportamento social. Conseqentemente, os que sofrem dessa enfermidade so capazes de manter o seu mal como um assunto 
particular, ocultando-o por muitos anos. Na verdade, o nmero de pessoas que sofrem dessas formas de neurose obsessiva  muito maior do que o que chega ao conhecimento 
dos mdicos. Alm disso, para muitas vtimas a ocultao se torna fcil tendo em vista que so capazes de desempenhar seus deveres sociais durante parte do dia, 
desde que devotem certo nmero de horas a suas atividades secretas, longe de olhares, como Mlusine.
          fcil perceber onde se encontram as semelhanas entre cerimoniais neurticos e atos sagrados do ritual religioso: nos escrpulos de conscincia que a 
negligncia dos mesmos acarreta, na completa excluso de todos os outros atos (revelada na proibio de interrupes) e na extrema conscincia com que so executados 
em todas as mincias. Mas as diferenas so igualmente bvias, e algumas to gritantes que tornam qualquer comparao um sacrilgio: a grande diversidade individual 
dos atos cerimoniais [neurticos] em oposio ao carter estereotipado dos rituais (as oraes, o curvar-se para o leste, etc.), o carter privado dos primeiros 
em oposio ao carter pblico e comunitrio das prticas religiosas, e acima de tudo o fato de que, enquanto todas as mincias do cerimonial religioso so significativas 
e possuem um sentido simblico, as dos neurticos parecem tolas e absurdas. Sob esse aspecto a neurose obsessiva parece uma caricatura, ao mesmo tempo cmica e triste, 
de uma religio particular, mas  justamente essa diferena decisiva entre o cerimonial neurtico e o religioso que desaparece quando penetramos, com o auxlio da 
tcnica psicanaltica de investigao, no verdadeiro significado dos atos obsessivos. No decurso dessa investigao, dilui-se completamente o aspecto tolo e absurdo 
de que se revestem os atos obsessivos, sendo explicada a razo de tal aspecto. Descobre-se que todos os detalhes dos atos decisivos possuem um sentido, que servem 
a importantes interesses da personalidade, e que expressam experincias ainda atuantes e pensamentos catexizados com afeto. Fazem isso de duas formas: por representao 
direta ou simblica, podendo, conseqentemente, ser interpretados histrica ou simbolicamente.
         Devo ilustrar com alguns exemplos essa minha assero. Os que esto familiarizados com os achados da investigao psicanaltica das psiconeuroses no se 
surpreendero ao saber que o que est sendo representado em atos obsessivos e em cerimoniais deriva das experincias mais ntimas do paciente, principalmente das 
sexuais.
         (a) Uma jovem que esteve sob minha observao sofria da compulso de fazer a gua revolutear na bacia vrias vezes aps se lavar. O significado desse ato 
cerimonial prendia-se ao seguinte ditado: 'No jogue fora a gua suja at obter uma limpa'. Com esse ato pretendia advertir a irm, a quem era muito afeioada, e 
impedi-la de se divorciar de um marido pouco satisfatrio at que firmasse uma relao com um homem melhor.
         (b) Uma mulher que estava vivendo separada do marido via-se sob a compulso de deixar intacta a melhor poro de tudo aquilo que comia: por exemplo, s 
aproveitava as beiradas de uma fatia de carne assada. A explicao dessa renncia foi encontrada por meio da data de sua origem. Ela surgiu no dia seguinte quele 
em que se recusara a ter relaes maritais com seu marido - isto , aps ter renunciado ao melhor.
         (c) A mesma paciente s podia sentar-se em uma determinada cadeira, da qual se levantava com dificuldade. Devido a certos aspectos de sua vida de casada, 
a cadeira simbolizava o marido, a quem ela permanecia fiel. Essa mulher encontrou a explicao para sua compulso na seguinte frase: ' to difcil nos separarmos 
de alguma coisa (um marido, uma cadeira) a que j nos fixamos.'
         (d) Durante algum tempo ela repetiu um ato obsessivo especialmente singular e absurdo: saa correndo do seu quarto para outro onde havia uma mesa de centro; 
arrumava a toalha dessa mesa duma determinada forma e, tocando a sineta, chamava a criada; fazia com que esta se aproximasse da mesa e a despedia aps incumbi-la 
de alguma tarefa sem importncia. Tentando encontrar uma explicao para tal compulso, lembrou-se de que a toalha da mesa estava manchada e de que sempre a arrumava 
de maneira a que a mancha fosse forosamente vista pela criada. Essa cena era a reproduo de uma experincia de sua vida conjugal que muito ocupara sua mente, constituindo-lhe 
um problema. Na noite de npcias o marido sofrera um percalo bastante comum: vira-se impotente. Durante a noite ele correra vrias vezes de seu quarto para o dela, 
em renovadas tentativas de obter sucesso; pela manh, com vergonha da arrumadeira do hotel que faria as camas, derramou o contedo de um vidro de tinta vermelha 
no lenol, mas de forma to canhestra que o manchou num local pouco adequado a seus propsitos. Portanto, com seu ato obsessivo ela representava a noite de npcias. 
'Cama e mesa' entre eles compem o casamento.
         (e) Outra compulso que adquiriu - a de anotar o nmero de todas as dcadas de papel-moeda antes de se desfazer das mesmas - teve de ser interpretada historicamente. 
Numa poca em que ainda tencionava separar-se do marido, se encontrasse outro homem mais digno de confiana, permitiu-se receber as atenes de um cavalheiro que 
conhecera numa estao de guas, mas de cuja seriedade duvidava. Certo dia, com falta de dinheiro mido, pedira-lhe para trocar uma moeda de cinco coroas. Ele a 
satisfez, e guardando a moeda declarou galantemente que jamais se separaria da mesma, pois estivera nas mos dela. Em encontros posteriores, ela com freqncia sentiu 
a tentao de desafi-lo a mostrar a moeda de cinco coroas, como se quisesse convencer-se de que podia acreditar em suas intenes, mas conteve-se tendo em vista 
que  impossvel distinguir uma determinada moeda entre outras do mesmo valor. Assim, sua dvida no foi resolvida, deixando-lhe a compulso de anotar os nmeros 
das notas, de modo a poder distinguir umas das outras.
         Com esses poucos exemplos, escolhidos entre os muitos que reuni, tenciono simplesmente ilustrar minha afirmativa de que nos atos obsessivos tudo tem sentido 
e pode ser interpretado. O mesmo se pode dizer dos cerimoniais propriamente ditos, s que para corroborar tal assero seriam necessrias maiores provas. Estou cnscio 
de que nossas explicaes acerca dos atos obsessivos aparentemente nos esto afastando da esfera do pensamento religioso.
         Uma das condies da doena  o fato de que a pessoa que obedece a uma compulso, o faz sem compreender-lhe o sentido - ou, pelo menos, o sentido principal. 
 somente atravs dos esforos do tratamento psicanaltico que ela se torna consciente do sentido do seu ato obsessivo e, simultaneamente, dos motivos que a compelem 
ao mesmo. Esse fato importante pode ser expresso da seguinte forma: o ato obsessivo serve para expressar motivos e idias inconscientes. Com essa afirmao, parece 
que nos afastamos ainda mais das prticas religiosas, mas devemos recordar que em geral tambm o indivduo normalmente piedoso executa o cerimonial sem ocupar-se 
de seu significado, embora os sacerdotes e os investigadores cientficos estejam familiarizados com o significado, em grande parte simblico, do ritual. Para os 
crentes, entretanto, os motivos que os impelem s prticas religiosas so desconhecidos ou esto representados na conscincia por outros que so desenvolvidos em 
seu lugar.
         A anlise de atos obsessivos j nos possibilitou alguma compreenso interna (insight) de suas causas e da seqncia de motivos que os tornam ativos. Podemos 
dizer que aquele que sofre de compulses e proibies comporta-se como se estivesse dominado por um sentimento de culpa, do qual, entretanto, nada sabe, de modo 
que podemos denomin-lo de sentimento inconsciente de culpa, apesar da aparente contradio dos termos. Esse sentimento de culpa origina-se de certos eventos mentais 
primitivos, mas  constantemente revivido pelas repetidas tentaes que resultavam de cada nova provocao. Alm disso, acarreta um furtivo sentimento de ansiedade 
expectante, uma expectativa de infortnio ligada, atravs da idia de punio,  percepo interna da tentao. Quando o cerimonial  formado, o paciente ainda tem 
conscincia de que deve fazer isso ou aquilo para evitar algum mal, e em geral a natureza desse mal que  esperado ainda  conhecida de sua conscincia. Contudo, 
o que j est oculto dele  a conexo - sempre demonstrvel - entre a ocasio em que essa ansiedade expectante surge e o perigo que ela provoca. Assim o cerimonial 
surge com um ato de defesa ou de segurana, uma medida protetora.
         O sentimento de culpa dos neurticos obsessivos corresponde  convico dos indivduos piedosos de serem, no ntimo, apenas miserveis pecadores; e as prticas 
devotas (tais como oraes, invocaes, etc.) com que tais indivduos precedem cada ato cotidiano, especialmente os empreendimentos no habituais, parecem ter o 
valor de medidas protetoras ou de defesa.
         Obteremos uma compreenso interna (insight) mais profunda do mecanismo da neurose obsessiva se considerarmos o fato fundamental que a mesma oculta. H sempre 
a represso de um impulso instintual (um componente do instinto sexual) presente na constituio do sujeito e que pde expressar-se durante algum tempo em sua infncia, 
sucumbindo posteriormente  presso. No decurso da represso do instinto cria-se uma conscincia especial, dirigida contra os objetivos do instinto; essa formao 
reativa psquica, porm, sente-se insegura e constantemente ameaada pelo instinto emboscado no inconsciente. A influncia do instinto reprimido  sentida como uma 
tentao, e durante o prprio processo de represso gera-se a ansiedade que adquire controle sobre o futuro, sob a forma de ansiedade expectante. O processo de represso 
que acarreta a neurose obsessiva deve ser considerado como um processo que s obtm xito parcial, estando constantemente sob a ameaa de um fracasso. Podemos, pois, 
compar-lo a um conflito interminvel; reiterados esforos psquicos so necessrios para contrabalanar a presso constante do instinto. Assim, os atos cerimoniais 
e obsessivos surgem, em parte, como uma proteo contra a tentao e, em parte, como proteo contra o mal esperado. Essas medidas de proteo logo parecem tornar-se 
insuficientes contra a tentao, surgindo ento as proibies, cuja finalidade  manter  distncia as situaes que podem originar tentaes. Veremos que as proibies 
substituem os atos obsessivos assim como uma fobia evita um ataque histrico. Assim, um cerimonial  um conjunto de condies que devem ser preenchidas, da mesma 
forma que uma cerimnia matrimonial da Igreja significa para o crente uma permisso para desfrutar os prazeres sexuais, que de outra maneira seriam pecaminosos. 
Uma outra caracterstica da neurose obsessiva, e de todas as enfermidades semelhantes,  que suas manifestaes (seus sintomas, inclusive os atos obsessivos) preenchem 
a condio de ser uma conciliao entre as foras antagnicas da mente. Essas manifestaes reproduzem, assim, uma parcela daquele mesmo prazer que pretendiam evitar, 
e servem ao instinto reprimido tanto quanto s instncias que o esto reprimindo. Na verdade, ao passo que a enfermidade progride, os atos que de incio se destinavam 
principalmente a manter a defesa aproximam-se progressivamente dos atos proibidos pelos quais o instinto pde expressar-se na infncia.
         Tambm na esfera da vida religiosa encontraremos alguns aspectos desse estado de coisas. A formao de uma religio parece basear-se igualmente na supresso, 
na renncia, de certos impulsos instintuais. Entretanto, esses impulsos no so componentes exclusivamente do instinto sexual, como no caso das neuroses; so instintos 
egostas, socialmente perigosos, embora geralmente abriguem um componente sexual. Afinal, o sentimento de culpa resultante de uma tentao contnua e a ansiedade 
expectante sob a forma de temor da punio divina nos so familiares h mais tempo no campo da religio do que no da neurose. Talvez devido  intromisso de componentes 
sexuais, talvez pelas caractersticas gerais dos instintos, tambm na vida religiosa a supresso do instinto revela-se um processo inadequado e interminvel. Na 
realidade, as recadas totais no pecado so mais comuns entre os indivduos piedosos do que entre os neurticos, dando origem a uma nova forma de atividade religiosa: 
os atos de penitncia, que tm seu correlato na neurose obsessiva.
         J assinalamos, como caracterstica curiosa e menosprezvel da neurose obsessiva, que seus cerimoniais se prendem aos atos menores da vida cotidiana e se 
expressam atravs de restries e regulamentaes tolas em conexo com eles. S compreendemos esse singular aspecto do quadro clnico quando percebemos que os mecanismo 
do deslocamento psquico, por mim descoberto inicialmente na construo de sonhos, domina os processos mentais da neurose obsessiva. Os poucos exemplos de atos obsessivos 
j citados tornam claro que o simbolismo e os pormenores desses mesmos atos resultam de um deslocamento, da substituio do elemento real e importante por um trivial 
- por exemplo, do marido pela cadeira.  essa tendncia para o deslocamento que modifica progressivamente o quadro clnico, terminando por transformar um fato extremamente 
banal em algo da maior urgncia e importncia.  inegvel que tambm no campo religioso existe uma tendncia para o deslocamento de valores psquicos, e em sentido 
anlogo, de forma que os cerimoniais triviais da prtica religiosa gradualmente adquirem um carter essencial, tomando o lugar dos pensamentos fundamentais. Por 
isso  que as religies sofrem reformas de carter retroativo, que visam restabelecer o equilbrio original dos valores.
         O carter de conciliao que os atos obsessivos possuem em sua qualidade de sintomas neurticos no  to evidente nas prticas religiosas correspondentes. 
Mas tambm nestas descobrimos esse aspecto das neuroses quando lembramos a freqncia com que so cometidos, justamente em nome da religio e aparentemente por sua 
causa, todos os atos proibidos pela mesma - ou seja, as expresses dos instintos por ela reprimidos.
         Diante desses paralelos e analogias podemos atrever-nos a considerar a neurose obsessiva com o correlato patolgico da formao de uma religio, descrevendo 
a neurose como uma religiosidade individual e a religio como uma neurose obsessiva universal. A semelhana fundamental residiria na renncia implcita  ativao 
dos instintos constitucionalmente presentes; e a principal diferena residiria na natureza desses instintos, que na neurose so exclusivamente sexuais em sua origem, 
enquanto na religio procedem de fontes egostas. 
         
         A renncia progressiva aos instintos constitucionais, cuja ativao proporcionaria o prazer primrio do ego, parece ser uma das bases do desenvolvimento 
da civilizao humana. Uma parcela dessa represso instintual  efetuada por suas religies, ao exigirem do indivduo que sacrifique  divindade seu prazer instintual: 
'A vingana  minha, diz o Senhor'. No desenvolvimento das religies antigas, pode-se ver que muitas coisas a que a humanidade renunciou como sendo 'iniqidades' 
haviam sido abandonadas  divindade e ainda eram permitidas em seu nome, de modo que a atribuio a ela dos instintos maus e socialmente nocivos era o meio como 
o homem se libertava da dominao deles. Por isso, e no por casualidade, todos os atributos humanos, inclusive os crimes que deles derivam, foram imputados, num 
grau ilimitado, aos deuses antigos. Nem tampouco  uma contradio que, apesar disso, no fosse permitido ao homem justificar suas prprias iniqidades com o exemplo 
divino.
         Viena, fevereiro de 1907.
         
         
         
















O ESCLARECIMENTO SEXUAL DAS CRIANAS
 (CARTA ABERTA AO DR. M. FRST) (1907)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         ZUR SEXUELLEN AUFKLRUNG DER KINDER
         (OFFENER BRIEF AN DR. M. FRST)
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1907 Soz. Med. Hyg., 2 (6) [junho], 360-7.
         1909 S.K.S.N., 2, 151-8. (1912, 2 ed.; 1921, 3 ed.)
         1924 G.S., 5, 134-42.
         1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 7-16.
         1941 G.W., 7, 19-27.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'The Sexual Enlightenment of Children.An Open Letter to Dr. M. Frst'
         1924 C.P., 2, 36-44. (Trad. de E. B. M. Herford.)
         
         A presente traduo baseia-se na que foi publicada em 1924.
         
         Esta carta foi escrita a pedido de um mdico de Hamburgo, o Dr. M. Frst, para ser publicada num peridico dedicado  higiene e  medicina social, de que 
o mesmo era editor. Ernest Jones (1955, 327-8) conta-nos que Freud exps o assunto de forma mais detalhada num debate realizado na Sociedade Psicanaltica de Viena 
a 12 de maio de 1909, j tendo discutido o assunto na reunio de 18 de dezembro de 1907. (Ver Minutes, 1.) Trinta anos mais tarde, ele volta ao tpico da instruo 
sexual das crianas no ltimo pargrafo da Seo IV do seu artigo 'Anlise Terminvel e Interminvel' (1937c), mostrando que a questo  consideravelmente menos 
simples do que como aparece na presente abordagem.
         
         O ESCLARECIMENTO SEXUAL DAS CRIANAS (CARTA ABERTA AO DR. M. FRST)
         
         Caro Dr. Frst,
         Ao solicitar minha opinio sobre 'o esclarecimento sexual das crianas', presumo que no deseja um tratado formal e completo do assunto que leve em conta 
a extensa literatura existente sobre a questo, mas o juzo independente de um mdico a quem a atividade profissional concedeu oportunidades especiais para ocupar-se 
dos problemas sexuais. Sei que tem acompanhado meus esforos cientficos com interesse, no refutando minhas idias sem examin-las, como fizeram muitos de nossos 
colegas, por eu considerar a constituio psicossexual e certos males da vida sexual como as causas primordiais das perturbaes neurticas, que so to comuns. 
H pouco seu peridico tambm acolheu amavelmente os meus Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade [1905d], nos quais descrevi como o instinto sexual se compe 
e os distrbios que podem ocorrer, em seu desenvolvimento, na funo da sexualidade.
         Todavia, o senhor espera que eu responda aos seguintes quesitos: devem as crianas ser esclarecidas sobre os fatos da vida sexual, em que idade isso deve 
ocorrer e de que modo isso deve ser realizado. Permita-me dizer, inicialmente, que acho perfeitamente razovel o exame dos dois ltimos pontos, mas que me  de todo 
incompreensvel que existam divergncias sobre o primeiro. Que propsito se visa atingir negando s crianas, ou aos jovens, esclarecimento desse tipo sobre a vida 
sexual dos seres humanos? Ser por medo de despertar prematuramente seu interesse por tais assuntos, antes que o mesmo irrompa de forma espontnea? Ser na esperana 
de que o ocultamento possa retardar o aparecimento do instinto sexual por completo, at que este possa encontrar seu caminho pelos nicos canais que lhe so abertos 
em nossa sociedade de classe mdia? Ser que acreditamos que as crianas no se interessaro pelos fatos e mistrios da vida sexual, e no os compreendero, se no 
forem impelidos a tal por influncias externas? Ser possvel que o conhecimento que lhes  negado no as alcanar por outros meios? Ou ser que se pretende genuna 
e seriamente que mais tarde elas venham a considerar degradante e desprezvel tudo que se relacione com o sexo, j que seus pais e professores quiseram mant-las 
afastadas dessas questes o maior tempo possvel?
         
         Na verdade ignoro em qual dessas proposies se deve procurar o motivo de se ocultar das crianas aquilo que  sexual, ocultao que de fato  levada a 
cabo. Sei apenas que so todas igualmente absurdas e indignas de uma contestao judiciosa. Lembro-me, porm, de que encontrei na correspondncia familiar do grande 
pensador e filantropo Multatuli, algumas linhas que constituem uma resposta mais do que adequada:
         'A meu ver, certas coisas so, em geral, exageradamente encobertas.  justo conservar pura a imaginao de uma criana, mas no  a ignorncia que ir preservar 
essa pureza. Ao contrrio, acho que a ocultao conduz o menino ou menina a suspeitar mais do que nunca da verdade. A curiosidade nos leva a esmiuar coisas que 
teriam pouco ou nenhum interesse para ns, se tivssemos sido informados com simplicidade. Se fosse possvel manter essa ignorncia inalterada, eu poderia aceit-la, 
mas isso  impossvel. O convvio com outras crianas, as leituras que induzem  reflexo e o mistrio com que os pais cercam fatos que terminam por vir  tona, 
tudo isso na verdade intensifica o desejo de conhecimento. Esse desejo, satisfeito apenas parcialmente e em segredo, excita seu sentimento e corrompe sua imaginao, 
de forma que a criana j peca enquanto os pais ainda acreditam que ela desconhece o pecado.'
         Eu no sei como a questo poderia ser mais bem expressa, mas talvez possa acrescentar algumas observaes. Certamente so apenas a pudiccia usual dos adultos 
e sua m conscincia em relao a assuntos sexuais que os induzem a criar todo esse mistrio diante das crianas, mas  possvel que tambm uma certa ignorncia 
terica desempenhe seu papel nessa atitude, ignorncia que pode ser remediada dando aos adultos algum esclarecimento.  crena geral que o instinto sexual inexiste 
nas crianas, s comeando a irromper na puberdade, com a maturao dos rgos sexuais. Esse erro grosseiro que acarreta srias conseqncias, tanto no conhecimento 
quanto na prtica,  to facilmente corrigido pela observao que  de admirar que algum possa incorrer no mesmo. Na realidade o recm-nascido j vem ao mundo com 
sua sexualidade, sendo seu desenvolvimento na lactncia e na primeira infncia acompanhado de sensaes sexuais; s muito poucas crianas alcanam a puberdade sem 
ter tido sensaes e atividades sexuais. Quem se interessar por um exame detalhado dessas asseres, poder encontr-lo em meus Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, 
a que me referi acima. Ali ver que os rgos de reproduo propriamente ditos no so as nicas partes do corpo que geram sensaes de prazer sexual, e que a natureza 
disps as coisas de tal forma que as estimulaes reais dos genitais so inevitveis na primeira infncia. Esse perodo de vida, durante o qual uma certa cota do 
que  sem dvida prazer sexual  produzida pela excitao de vrias partes da pele (zonas ergenas), pela atividade de certos instintos biolgicos e pela excitao 
concomitante de muitos estados afetivos,  conhecido como o perodo de auto-erotismo, para usar um termo introduzido por Havelock Ellis [1898]. A puberdade apenas 
concede aos genitais a primazia entre todas as outras zonas e fontes produtoras de prazer, assim forando o erotismo a colocar-se a servio da funo reprodutora. 
Naturalmente esse processo pode sofrer certas inibies, e em muitas pessoas (que tendem a se tornar mais tarde pervertidas ou neurticas) no se completa seno 
imperfeitamente. Por outro lado, muito antes da puberdade a criana j  capaz da maior parte das manifestaes psquicas do amor - por exemplo, a ternura, a dedicao 
e o cime. Com freqncia, uma irrupo desses estados mentais associa-se s sensaes fsicas de excitao sexual, de modo que a criana no pode ficar em dvida 
quanto  conexo entre ambos. Em resumo, com exceo do seu poder de reproduo, muito antes da puberdade j est completamente desenvolvida na criana a capacidade 
de amar; e pode-se afirmar que o clima de mistrio apenas a impede de apreender intelectualmente as atividades para as quais j est psiquicamente preparada e fisicamente 
apta.
         O interesse intelectual da criana pelos enigmas do sexo, o seu desejo de conhecimento sexual, revela-se numa idade surpreendentemente tenra. Se observaes 
como as que exporei a seguir no so feitas com maior freqncia,  apenas por estarem os pais cegos a esse interesse de seus filhos ou porque, se no o conseguem 
ignorar, tentam imediatamente abaf-lo. Conheo um encantador menino de quatro anos, filho de pais compreensivos que se abstiveram de reprimir uma parte de seu desenvolvimento. 
O pequeno Hans certamente no foi exposto a nada da natureza de uma seduo pela bab, mas, apesar disso, j h algum tempo demonstrava um vivo interesse por aquela 
parte do seu corpo que ele chama de 'pipi'. Aos trs anos, perguntou  me: 'Mame, voc tambm tem um pipi?' Ela respondeu: 'Naturalmente. O que  que voc acha?' 
Tambm ao pai ele perguntou vrias vezes a mesma coisa. Nessa poca, ao entrar pela primeira vez num estbulo, viu uma vaca ser ordenhada. 'Olhe s!' exclamou surpreso, 
'sai leite do pipi dela'. Aos trs anos e nove meses parecia a caminho de por si mesmo fazer a descoberta de categorias corretas, atravs de suas observaes. Ao 
ver sair gua de uma locomotiva, exclamou: 'Veja, a mquina est fazendo pipi. Onde est o pipi dela?' E acrescentou, depois de refletir: 'O cachorro e o cavalo 
tm pipis; a mesa e a cadeira no tm.' Recentemente, olhava a irmzinha de sete dias tomar banho, quando comentou: 'O pipi dela  muito pequeno, mas vai ficar grande 
quando ela crescer.' (Sei da mesma atitude em relao ao problema da diferena dos sexos em outros meninos da mesma idade.) Gostaria de deixar claro que o pequeno 
Hans no  uma criana sensual, nem com disposio patolgica. A meu ver, o que acontece  que, no tendo sofrido intimidaes e no tendo sido oprimido por nenhum 
sentimento de culpa, ele expressa candidamente aquilo que pensa.
         O segundo grande problema a ocupar a mente de uma criana - um pouco mais tarde, sem dvida -  o da origem dos bebs. Isso geralmente  despertado pelo 
indesejado nascimento de um irmo ou de uma irm. Trata-se da questo mais remota e premente a atormentar a humanidade imatura. Os que sabem interpretar os mitos 
e as lendas podem identific-lo no enigma que a Esfinge de Tebas apresenta a dipo. As respostas usualmente concedidas  criana danificam seu genuno instinto de 
investigao e, via de regra, tambm desferem o primeiro golpe na confiana que ela deposita em seus pais. Dessa data em diante, geralmente comea a desconfiar dos 
adultos e a esconder deles seus interesses mais ntimos. O pequeno documento que se segue mostra como essa curiosidade pode ser aflitiva em crianas mais velhas. 
Trata-se de uma carta escrita por uma menina de onze anos, rf de me, que havia debatido o problema com sua irm mais nova.
         'Cara tia Mali,
         'Ser que a senhora poderia fazer o favor de me dizer como teve Christel e Paul? A senhora deve saber, pois  casada. Ns estvamos discutindo sobre isso 
ontem e queramos saber a verdade. No sabemos a quem mais perguntar. Quando a senhora vir a Salzburg? Sabe, tia Mali, no conseguimos compreender como as cegonhas 
trazem os bebs. Trudel achava que ela os trazia numa camisa. Tambm queremos saber se as cegonhas apanham os bebs no lago, e por que nunca vimos nenhum beb no 
lago. E, por favor, diga-me como  que a gente sabe de antemo quando vai ter um beb. Escreva-me contando tudo sobre isso.
         'Com mil beijos e abraos de todos,
         'Sua sobrinha curiosa,
         Lili.'
         No acredito que essa enternecedora carta tenha trazido s duas irms o esclarecimento desejado. Posteriormente a autora da mesma adoeceu, vtima da neurose 
que surge de perguntas inconscientes no respondidas - da meditao obsessiva.
         No me parece haver uma nica razo de peso para negar s crianas o esclarecimento que sua sede de saber exige. Certamente se a inteno dos educadores 
 sufocar a capacidade da criana de pensamento independente, em favor de uma pretensa 'bondade' que tanto valorizam, no poderiam escolher melhor caminho do que 
ludibri-la em questes sexuais e intimid-la pela religio. As naturezas mais fortes,  verdade, resistiro a tais influncias e se tornaro rebeldes contra a autoridade 
dos pais e, mais tarde, contra qualquer outra autoridade. Se as dvidas que as crianas levam aos mais velhos no so satisfeitas, elas continuam a atorment-las 
em segredo, levando-as a procurar solues nas quais a verdade advinhada mescla-se da forma mais extravagante a grotescas falsidades, e a trocar entre si informaes 
furtivas em que o sexo  apresentado como uma coisa horrvel e nauseante, em conseqncia do sentimento de culpa dos jovens curiosos. Valeria a pena coletar e examinar 
essas teorias sexuais infantis. Da em diante as crianas, em geral, deixam de ter diante do sexo a nica atitude adequada, e muitas nunca iro recuper-la.
         Parece que a grande maioria dos autores, homens e mulheres, que escrevem sobre o esclarecimento sexual da juventude, conclui em seu favor. Contudo, a inpcia 
da maior parte de suas propostas quanto ao momento e ao modo de realizar esse esclarecimento leva-nos a pensar que tiveram dificuldade de chegar a uma concluso. 
Entre as obras que conheo sobre o assunto, distingue-se, com brilhante exceo, a encantadora carta de explicao que uma certa Frau Emma Eckstein cita como tendo 
sido escrita por ela ao filho de dez anos. O mtodo habitualmente utilizado no , obviamente, o correto: oculta-se das crianas todo conhecimento sexual pelo maior 
tempo possvel, e ento, em termos pomposos e solenes, a verdade, ou melhor, uma meia verdade, lhes  revelada de uma s vez, em geral demasiado tarde. A maior parte 
das respostas  pergunta 'Como contar a meus filhos?' d, pelo menos a mim, uma impresso to lamentvel que eu preferiria que os pais no se ocupassem desse esclarecimento. 
O que realmente importa  que as crianas nunca sejam levadas a pensar que desejamos fazer mais mistrio dos fatos da vida sexual do que de qualquer outro assunto 
ainda no acessvel  sua compreenso; para nos assegurarmos disso,  necessrio que, de incio, tudo que se referir  sexualidade seja tratado como os demais fatos 
dignos de conhecimento. Acima de tudo,  dever das escolas no evitar a meno dos assuntos sexuais. Os fatos bsicos da reproduo e sua significao deviam ser 
includos nas lies sobre o reino animal, e ao mesmo tempo deveria ser enfatizado que o homem compartilha o essencial de sua organizao com os animais superiores. 
Ento, desde que o ambiente familiar da criana no tenda a refrear diretamente o pensamento infantil atravs da intimidao,  provvel que ocorra com maior freqncia 
o que certa vez ouvi por acaso entre crianas. Um menino disse  irmzinha: 'Como  que voc pode acreditar que as cegonhas trazem os bebs? No sabe que o homem 
 mamfero? Ser que voc tambm acredita que a cegonha traga os filhotes de todos os mamferos?'
         A curiosidade da criana nunca atingir uma intensidade exagerada se for adequadamente satisfeita a cada etapa de sua aprendizagem. Assim, no final do curso 
elementar [Volksschule], antes que inicie o curso intermedirio [Mittelschule], isto , em torno dos dez anos de idade, a criana deveria ser esclarecida sobre os 
fatos especficos da sexualidade humana e sobre a significao social desta. A poca da confirmao seria a mais adequada para instruir a criana, que a essa altura 
dever ter um completo conhecimento de todos os fatos fsicos, sobre as obrigaes morais que esto associadas  satisfao real do instinto. Um esclarecimento sobre 
a vida sexual que se desenvolva de forma gradual, nos moldes que acima descrevemos, sem interrupes e por iniciativa da prpria escola, parece-nos ser o nico que 
leva em conta o desenvolvimento da criana e que consegue evitar os perigos que esto envolvidos.
         Considero um avano muito significativo na educao infantil que na Frana o Estado tenha introduzido, em lugar do catecismo, um manual que d  criana 
as primeiras noes de sua situao como cidado e dos deveres ticos que dever assumir mais tarde. No entanto, essa educao elementar continuar com srias deficincias 
enquanto no abranger o campo da sexualidade. Esta  uma lacuna que deveria merecer a ateno dos educadores e reformadores. Nos pases onde colocaram a educao 
das crianas total ou parcialmente nas mos do clero ser, naturalmente, impossvel levantar o problema. Um sacerdote nunca admitir que os homens e os animais tenham 
a mesma natureza, pois no pode abdicar da imortalidade da alma, que lhe  necessria como base de seus preceitos morais. Mais uma vez vemos aqui a insensatez de 
colocar um nico remendo de seda num casaco esfarrapado, isto , a impossibilidade de efetuar uma reforma isolada sem alterar as bases de todo o sistema.
         
         
         
         
       ESCRITORES CRIATIVOS E DEVANEIO (1908 [1907])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DER DICHTER UND DAS PHANTASIEREN
         
         (a) EDIES ALEMS:
         (1907 6 de dezembro. Pronunciado como conferncia)
         1908 Neue Revue, 1 (10) [maro], 716-2.
         1909 S.K.S.N., 2,197-206 (1912, 2 ed.; 1921, 3 ed.)
         1924 G.S. 10, 229-239.
         1924 Dichtung und Kunst, 3-14.
         1941 G.W., 7, 213-223.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'The Relation of the Poet to Day-Dreaming'
         1925 C.P., 4, 172-183. (Trad. de I. F. Frant Duff.)
         
         A presente traduo, com um ttulo alterado,  uma verso modificada da publicada em 1925.
         
         Este trabalho foi originalmente pronunciado como conferncia a 6 de dezembro de 1907, diante de uma platia de noventa pessoas, nos sales do editor e livreiro 
vienense Hugo Heller, que tambm era membro da Sociedade Psicanaltica de Viena. Um minucioso resumo da conferncia apareceu, no dia seguinte, no dirio vienense 
Die Zeit, mas a verso completa de Freud foi publicada pela primeira vez no incio de 1908, num novo peridico literrio de Berlim.
         Alguns problemas da literatura criativa haviam sido mencionados pouco antes no estudo de Freud sobre Gradiva (por exemplo, em [1]), e cerca de um ou dois 
anos antes ele examinara a questo em um ensaio no publicado sobre 'Tipos Psicopticos no Palco' (1924a [1905]). O interesse principal deste artigo, como do que 
se segue, escrito na mesma poca, reside no exame das fantasias.
         
         
         
         
         
         ESCRITORES CRIATIVOS E DEVANEIOS
         
         Ns, leigos, sempre sentimos uma intensa curiosidade - como o Cardeal que fez uma idntica indagao a Ariosto - em saber de que fontes esse estranho ser, 
o escritor criativo, retira seu material, e como consegue impressionar-nos com o mesmo e despertar-nos emoes das quais talvez nem nos julgssemos capazes. Nosso 
interesse intensifica-se ainda mais pelo fato de que, ao ser interrogado, o escritor no nos oferece uma explicao, ou pelo menos nenhuma satisfatria; e de forma 
alguma ele  enfraquecido por sabermos que nem a mais clara compreenso interna (insight) dos determinantes de sua escolha de material e da natureza da arte de criao 
imaginativa em nada ir contribuir para nos tornar escritores criativos.
         Se ao menos pudssemos descobrir em ns mesmos ou em nossos semelhantes uma atividade afim  criao literria! Uma investigao dessa atividade nos daria 
a esperana de obter as primeiras explicaes do trabalho criador do escritor. E, na verdade, essa perspectiva  possvel. Afinal, os prprios escritores criativos 
gostam de diminuir a distncia entre a sua classe e o homem comum, assegurando-nos com muita freqncia de que todos, no ntimo, somos poetas, e de que s com o 
ltimo homem morrer o ltimo poeta.
         Ser que deveramos procurar j na infncia os primeiros traos de atividade imaginativa? A ocupao favorita e mais intensa da criana  o brinquedo ou 
os jogos. Acaso no poderamos dizer que ao brincar toda criana se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo prprio, ou melhor, reajusta os elementos 
de seu mundo de uma nova forma que lhe agrade? Seria errado supor que a criana no leva esse mundo a srio; ao contrrio, leva muito a srio a sua brincadeira e 
dispende na mesma muita emoo. A anttese de brincar no  o que  srio, mas o que  real. Apesar de toda a emoo com que a criana catexiza seu mundo de brinquedo, 
ela o distingue perfeitamente da realidade, e gosta de ligar seus objetos e situaes imaginados s coisas visveis e tangveis do mundo real. Essa conexo  tudo 
o que diferencia o 'brincar' infantil do 'fantasiar'.
         O escritor criativo faz o mesmo que a criana que brinca. Cria um mundo de fantasia que ele leva muito a srio, isto , no qual investe uma grande quantidade 
de emoo, enquanto mantm uma separao ntida entre o mesmo e a realidade. A linguagem preservou essa relao entre o brincar infantil e a criao potica. D 
[em alemo] o nome de 'Spiel' ['pea'] s formas literrias que so necessariamente ligadas a objetos tangveis e que podem ser representadas. Fala em 'Lustspiel' 
ou 'Trauerspiel' ['comdia' e 'tragdia': literalmente, 'brincadeira prazerosa' e 'brincadeira lutuosa'], chamando os que realizam a representao de 'Schauspieler' 
['atores': literalmente, 'jogadores de espetculo']. A irrealidade do mundo imaginativo do escritor tem, porm, conseqncias importantes para a tcnica de sua arte, 
pois muita coisa que, se fosse real, no causaria prazer, pode proporcion-lo como jogo de fantasia, e muitos excitamentos que em si so realmente penosos, podem 
tornar-se uma fonte de prazer para os ouvintes e espectadores na representao da obra de um escritor.
         Existe uma outra circunstncia que nos leva a examinar por mais alguns instantes essa oposio entre a realidade e o brincar. Quando a criana cresce e 
pra de brincar, aps esforar-se por algumas dcadas para encarar as realidades da vida com a devida seriedade, pode colocar-se certo dia numa situao mental em 
que mais uma vez desaparece essa oposio entre o brincar e a realidade. Como adulto, pode refletir sobre a intensa seriedade com que realizava seus jogos na infncia, 
equiparando suas ocupaes do presente, aparentemente to srias, aos seus jogos de criana, pode livrar-se da pesada carga imposta pela vida e conquistar o intenso 
prazer proporcionado pelo humor.
         Ao crescer, as pessoas param de brincar e parecem renunciar ao prazer que obtinham do brincar. Contudo, quem compreende a mente humana sabe que nada  to 
difcil para o homem quanto abdicar de um prazer que j experimentou. Na realidade, nunca renunciamos a nada; apenas trocamos uma coisa por outra. O que parece ser 
uma renncia , na verdade, a formao de um substituto ou sub-rogado. Da mesma forma, a criana em crescimento, quando pra de brincar, s abdica do elo com os 
objetos reais; em vez de brincar, ela agora fantasia. Constri castelos no ar e cria o que chamamos de devaneios. Acredito que a maioria das pessoas construa fantasias 
em algum perodo de suas vidas. Este  um fato a que, por muito tempo, no se deu ateno, e cuja importncia no foi, assim, suficientemente considerada.
         As fantasias das pessoas so menos fceis de observar do que o brincar das crianas. A criana,  verdade, brinca sozinha ou estabelece um sistema psquico 
fechado com outras crianas, com vistas a um jogo, mas mesmo que no brinque em frente dos adultos, no lhes oculta seu brinquedo. O adulto, ao contrrio, envergonha-se 
de suas fantasias, escondendo-as das outras pessoas. Acalenta suas fantasias como seu bem mais ntimo, e em geral preferiria confessar suas faltas do que confiar 
a outro suas fantasias. Pode acontecer, conseqentemente, que acredite ser a nica pessoa a inventar tais fantasias, ignorando que criaes desse tipo so bem comuns 
nas outras pessoas. A diferena entre o comportamento da pessoa que brinca e da fantasia  explicada pelos motivos dessas duas atividades, que, entretanto, so subordinadas 
uma  outra.
         O brincar da criana  determinado por desejos: de fato, por um nico desejo - que auxilia o seu desenvolvimento -, o desejo de ser grande e adulto. A criana 
est sempre brincando 'de adulto', imitando em seus jogos aquilo que conhece da vida dos mais velhos. Ela no tem motivos para ocultar esse desejo. J com o adulto 
o caso  diferente. Por um lado, sabe que dele se espera que no continue a brincar ou a fantasiar, mas que atue no mundo real; por outro lado, alguns dos desejos 
que provocaram suas fantasias so de tal gnero que  essencial ocult-las. Assim, o adulto envergonha-se de suas fantasias por serem infantis e proibidas.
         Mas, indagaro os senhores, se as pessoas fazem tanto mistrio a respeito do seu fantasiar, como os conhecemos to bem?  que existe uma classe de seres 
humanos a quem, no um deus, mas uma deusa severa - a Necessidade - delegou a tarefa de revelar aquilo de que sofrem e aquilo que lhes d felicidade. So as vtimas 
de doenas nervosas, obrigadas a revelar suas fantasias, entre outras coisas, ao mdico por quem esperam ser curadas atravs de tratamento mental.  esta a nossa 
melhor fonte de conhecimento, e desde ento sentimo-nos justificados em supor que os nossos pacientes nada nos revelam que no possamos tambm ouvir de pessoas saudveis.
         Vamos agora examinar algumas caractersticas do fantasiar. Podemos partir da tese de que a pessoa feliz nunca fantasia, somente a insatisfeita. As foras 
motivadoras das fantasias so os desejos insatisfeitos, e toda fantasia  a realizao de um desejo, uma correo da realidade insatisfatria. Os desejos motivadores 
variam de acordo com o sexo, o carter e as circunstncias da pessoa que fantasia, dividindo-se naturalmente em dois grupos principais: ou so desejos ambiciosos, 
que se destinam a elevar a personalidade do sujeito, ou so desejos erticos. Nas mulheres jovens predominam, quase com exclusividade, os desejos erticos, sendo 
em geral sua ambio absorvida pelas tendncias erticas. Nos homens jovens os desejos egostas e ambiciosos ocupam o primeiro plano, de forma bem clara, ao lado 
dos desejos erticos. Mas no acentuaremos a oposio entre essas duas tendncias, preferindo salientar o fato de que esto freqentemente unidas. Assim como em 
muitos retbulos em que  visvel num canto qualquer o retrato do doador, na maioria das fantasias de ambio podemos descobrir em algum canto a dama a que seu criador 
dedicou todos aqueles feitos hericos e a cujos ps deposita seus triunfos. Veremos que aqui existem motivos bem fortes para ocultamento;  jovem bem educada s 
 permitido um mnimo de desejos erticos, e o rapaz tem de aprender a suprimir o excesso de auto-estima remanescente de sua infncia mimada, para que possa encontrar 
seu lugar numa sociedade repleta de outros indivduos com idnticas reivindicaes.
         No devemos supor que os produtos dessa atividade imaginativa - as diversas fantasias, castelos no ar e devaneios - sejam estereotipados ou inalterveis. 
Ao contrrio, adaptam-se s impresses mutveis que o sujeito tem da vida, alterando-se a cada mudana de sua situao e recebendo de cada nova impresso ativa uma 
espcie de 'carimbo de data de fabricao.' A relao entre a fantasia e o tempo , em geral, muito importante.  como se ela flutuasse entre trs tempos - os trs 
momentos abrangidos pela nossa ideao. O trabalho mental vincula-se a uma impresso atual, a alguma ocasio motivadora no presente que foi capaz de despertar um 
dos desejos principais do sujeito. Dali, retrocede  lembrana de uma experincia anterior (geralmente da infncia) na qual esse desejo foi realizado, criando uma 
situao referente ao futuro que representa a realizao do desejo. O que se cria ento  um devaneio ou fantasia, que encerra traos de sua origem a partir da ocasio 
que o provocou e a partir da lembrana. Dessa forma o passado, o presente e o futuro so entrelaados pelo fio do desejo que os une.
         Um exemplo bastante comum pode servir para tornar claro o que eu disse. Tomemos o caso de um pobre rfo que se dirige a uma firma onde talvez encontre 
trabalho. A caminho, permite-se um devaneio adequado  situao da qual este surge. O contedo de sua fantasia talvez seja, mais ou menos, o que se segue. Ele consegue 
o emprego, conquista as boas graas do novo patro, torna-se indispensvel,  recebido pela famlia do patro, casa-se com sua encantadora filha,  promovido a diretor 
da firma, primeiro na posio de scio do seu chefe, e depois como seu sucessor. Nessa fantasia, o sonhador reconquista o que possui em sua feliz infncia: o lar 
protetor, os pais amantssimos e os primeiros objetos do seu afeto. Esse exemplo mostra como o desejo utiliza uma ocasio do presente para construir, segundo moldes 
do passado, um quadro do futuro.
         H muito mais a dizer sobre as fantasias, mas limitar-me-ei a salientar aqui, de forma sucinta, mais alguns aspectos. Quando as fantasias se tornam exageradamente 
profusas e poderosas, esto assentes as condies para o desencadeamento da neurose ou da psicose. As fantasias tambm so precursoras mentais imediatas dos penosos 
sintomas que afligem nossos pacientes, abrindo-se aqui um amplo desvio que conduz  patologia.
         No posso ignorar a relao entre as fantasias e o sonhos. Nossos sonhos noturnos nada mais so do que fantasias dessa espcie, como podemos demonstrar 
pela interpretao de sonhos. A linguagem, com sua inigualvel sabedoria, h muito lanou luz sobre a natureza bsica dos sonhos, denominando de 'devaneios' as etreas 
criaes da fantasia. Se, apesar desse indcio, geralmente permanece obscuro o significado de nossos sonhos, isto  por causa da circunstncia de que  noite tambm 
surgem em ns desejos de que nos envergonhamos; tm de ser ocultos de ns mesmos, e foram conseqentemente reprimidos, empurrados para o inconsciente. Tais desejos 
reprimidos e seus derivados s podem ser expressos de forma muito distorcida. Depois que trabalhos cientficos conseguiram elucidar o fator de distoro onrica, 
foi fcil constatar que os sonhos noturnos so realizao de desejos, da mesma forma que os devaneios - as fantasias que todos conhecemos to bem.
         Deixemos agora as fantasias e passemos ao escritor criativo. Acaso  realmente vlido comparar o escritor imaginativo ao 'sonhador em plena luz do dia', 
e suas criaes com os devaneios? Inicialmente devemos estabelecer uma distino, separando os escritores que, como os antigos poetas egpcios e trgicos, utilizam 
temas preexistentes, daqueles que parecem criar o prprio material. Vamos examinar esses ltimos, e, para os nossos fins, no escolheremos os mais aplaudidos pelos 
crticos, mas os menos pretensiosos autores de novelas, romances e contos, que gozam, entretanto, da estima de um amplo crculo de leitores entusiastas de ambos 
os sexos. Nas criaes desses escritores um aspecto salienta-se de forma irrefutvel: todas possuem um heri, centro do interesse, para quem o autor procura de todas 
as maneiras possveis dirigir a nossa simpatia, e que parece estar sob a proteo de uma Providncia especial. Se ao fim de um captulo deixamos o heri ferido, 
inconsciente e esvaindo-se em sangue, com certeza o encontraremos no prximo cuidadosamente assistido e prximo da recuperao. Se o primeiro volume termina com 
o naufrgio do heri, no segundo logo o veremos milagrosamente salvo, sem o que a histria no poderia prosseguir. O sentimento de segurana com que acompanhamos 
o heri atravs de suas perigosas aventuras  o mesmo com que o heri da vida real atira-se  gua para salvar um homem que se afoga, ou se expe  artilharia inimiga 
para investir contra uma bateria. Este  o genuno sentimento herico, expresso por um dos nossos melhores escritores numa frase inimitvel. 'Nada me pode acontecer'! 
Parece-me que atravs desse sinal revelador de invulnerabilidade, podemos reconhecer de imediato Sua Majestade o Ego, o heri de todo devaneio e de todas as histrias.
         Outros traos tpicos dessas histrias egocntricas revelam idntica afinidade. O fato de que todas as personagens femininas se apaixonam invariavelmente 
pelo heri no pode ser encarado como um retrato da realidade, mas ser de fcil compreenso se o encararmos como um componente necessrio do devaneio. O mesmo aplica-se 
ao fato de todos os demais personagens da histria dividirem-se rigidamente em bons e maus, em flagrante oposio  verdade de caracteres humanos observveis na 
vida real. Os 'bons' so aliados do ego que se tornou o heri da histria, e os 'maus' so seus inimigos e rivais.
         Sabemos que muitas obras imaginativas guardam boa distncia do modelo do devaneio ingnuo, mas no posso deixar de suspeitar que at mesmo os exemplos mais 
afastados daquele modelo podem ser ligados ao mesmo atravs de uma seqncia ininterrupta de casos transicionais. Notei que, na maioria dos chamados 'romances psicolgicos', 
s uma pessoa - o heri -  descrita anteriormente, como se o autor se colocasse em sua mente e observasse as outras personagens de fora. O romance psicolgico, 
sem dvida, deve sua singularidade  inclinao do escritor moderno de dividir seu ego, pela auto-observao, em muitos egos parciais, e em conseqncia personificar 
as correntes conflitantes de sua prpria vida mental por vrios heris. Certos romances, que poderamos classificar de 'excntricos', parecem contrapor-se ao devaneio 
modelo. Nestes, a pessoa apresentada como heri desempenha um papel muito pouco ativo; v os atos e sofrimentos das demais pessoas como espectador. Muitos dos ltimos 
romances de Zola pertencem a essa categoria. Mas devo assinalar que a anlise psicolgica de indivduos que no so escritores criativos, e que em alguns aspectos 
se afastam da norma, mostrou-nos variaes anlogas do devaneio, nos quais o ego se contenta com o papel de espectador.
         Para que nossa comparao do escritor imaginativo com o homem que devaneia e da criao potica com o devaneio tenha algum valor  necessrio, acima de 
tudo, que se revele frutuosa, de uma forma ou de outra. Tentemos, por exemplo, aplicar  obra desses autores a nossa tese anterior referente  relao entre a fantasia 
e os trs perodos de tempo, e o desejo que o entrelaa; e com seu auxlio estudemos as conexes existentes entre a vida do escritor e suas obras. Em geral, at 
agora no se formou uma idia concreta da natureza dos resultados dessa investigao, e com freqncia fez-se da mesma uma concepo simplista.  luz da compreenso 
interna (insight) de tais fantasias, podemos encarar a situao como se segue. Uma poderosa experincia no presente desperta no escritor criativo uma lembrana de 
uma experincia anterior (geralmente de sua infncia), da qual se origina ento um desejo que encontra realizao na obra criativa. A prpria obra revela elementos 
da ocasio motivadora do presente e da lembrana antiga.
         No se alarmem ante a complexidade dessa frmula. Na verdade suspeito que a mesma ir revelar-se como um esquema muito insuficiente. Entretanto, mesmo assim 
talvez oferea uma primeira aproximao do verdadeiro estado de coisas; por experincias que realizei, inclino-me a pensar que essa viso das obras criativas pode 
produzir seus frutos. No se esqueam que a nfase colocada nas lembranas infantis da vida do escritor - nfase talvez desconcertante - deriva-se basicamente da 
suposio de que a obra literria, como o devaneio,  uma continuao, ou um substituto, do que foi o brincar infantil.
         No devemos esquecer, entretanto, de examinar aquele outro gnero de obras imaginativas, que no so uma criao original do autor, mas uma reformulao 
de material preexistente e conhecido (ver em [1]). Mesmo nessas obras o escritor conserva uma certa independncia que se manifesta na escolha do material e nas alteraes 
do mesmo, s vezes muito amplas. Embora esse material no seja novo, procede do tesouro popular dos mitos, lendas e contos de fadas. Ainda est incompleto o estudo 
de tais construes da psicologia dos povos, mas  muito provvel que os mitos, por exemplo, sejam vestgios distorcidos de fantasias plenas de desejos de naes 
inteiras, os sonhos seculares da humanidade jovem.
         Podero dizer que, embora eu tenha colocado o escritor criativo em primeiro lugar no ttulo deste artigo, me ocupei menos dele que das fantasias. Reconheo 
o fato, e devo tentar desculpar-me alegando o estado atual de nossos conhecimentos. Pude apenas oferecer certos encorajamentos e sugestes que, partindo do estudo 
das fantasias, levaram ao problema da escolha do material literrio pelo escritor. Quanto ao outro problema - como o escritor criativo consegue em ns os efeitos 
emocionais provocados por suas criaes -, ainda no o tocamos. Mas gostaria, ao menos, de indicar-lhes o caminho que do nosso exame das fantasias conduz aos problemas 
dos efeitos poticos.
         Devem estar lembrados de que eu disse (ver a partir de [1]) que o indivduo que devaneia oculta cuidadosamente suas fantasias dos demais, porque sente ter 
razes para se envergonhar das mesmas. Devo acrescentar agora que, mesmo que ele as comunicasse para ns, o relato no nos causaria prazer. Sentiramos repulsa, 
ou permaneceramos indiferentes ao tomar conhecimento de tais fantasias. Mas quando um escritor criativo nos apresenta suas peas, ou nos relata o que julgamos ser 
seus prprios devaneios, sentimos um grande prazer, provavelmente originrio da confluncia de muitas fontes. Como o escritor o consegue constitui seu segredo mais 
ntimo. A verdadeira ars poetica est na tcnica de superar esse nosso sentimento de repulsa, sem dvida ligado s barreiras que separam cada ego dos demais. Podemos 
perceber dois dos mtodos empregados por essa tcnica. O escritor suaviza o carter de seus devaneios egostas por meio de alteraes e disfarces, e nos suborna 
com o prazer puramente formal, isto , esttico, que nos oferece na apresentao de suas fantasias. Denominamos de prmio de estmulo ou de prazer preliminar ao 
prazer desse gnero, que nos  oferecido para possibilitar a liberao de um prazer ainda maior, proveniente de fontes psquicas mais profundas. Em minha opinio, 
todo prazer esttico que o escritor criativo nos proporciona  da mesma natureza desse prazer preliminar, e a verdadeira satisfao que usufrumos de uma obra literria 
procede de uma libertao de tenses em nossas mentes. Talvez at grande parte desse efeito seja devida  possibilidade que o escritor nos oferece de, dali em diante, 
nos deleitarmos com nossos prprios devaneios, sem auto-acusaes ou vergonha. Isso nos leva ao limiar de novas e complexas investigaes, mas tambm, pelo menos 
no momento, ao fim deste exame.
         
         
         
         
         



















FANTASIAS HISTRICAS E SUA RELAO COM A BISSEXUALIDADE (1908)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         HYSTERISCHE PHANTASIEN UND IHRE BEZIEHUNG ZUR BISEXUALITT
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1908 Z. Sexualwiss., 1 (1) [janeiro], 27-34.
         1909 S.K.S.N., 2, 138-145. (1912, 2 ed.; 1921, 3 ed.)
         1924 G.S., 5, 246-254.
         1941 G.W., 7, 191-199.
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
         'Hysterical Fancies and their Relation to Bisexuality'
         1909 S.P.H; 194-200. (Trad. de A.A.Brill.) (1912, 2 ed.; 1920, 3 ed.)
         'Hysterical Phantasies and their Relation to Bisexuality'
         1924 C.P., 2, 51-48. (Trad. de D. Bryan.)
         
         A presente traduo  uma reviso da publicada em 1924.
         
         Este artigo foi escrito originalmente para o Jahrbuch fr sexuelle Zwischenstufen de Hirschfeld, sendo transferido para um novo peridico recm-lanado 
pelo mesmo editor. Em 1897, no decurso de sua auto-anlise, Freud percebera pela primeira vez a importncia das fantasias como bases dos sintomas histricos. Embora 
fizesse uma comunicao particular de suas descobertas a Fliess (ver, por exemplo, suas cartas de 7 de julho e 21 de setembro de 1897: Freud, 1950a, Cartas 66 e 
69), s as publicou integralmente dois anos antes de escrever o presente artigo. (Ver Freud, 1906a), em [1], 1972.) A parte principal deste artigo  um novo exame 
da relao entre fantasias e sintomas; apesar do ttulo, o tpico da bissexualidade surge quase como uma reflexo secundria. Deve ser assinalado, alis, que o assunto 
das fantasias parece ser um tema dominante na mente de Freud na poca deste artigo. Elas so novamente abordadas nos artigos sobre 'As Teorias Sexuais das Crianas' 
(ver em [2]), sobre 'Romances Familiares' (ver em [3]), sobre 'Escritores Criativos e Devaneio' (ver em [4]) e sobre 'Ataques Histricos' (ver em [5]), assim como 
em muitos trechos do estudo de Gradiva (e.g. em [6]). Grande parte do material do presente artigo naturalmente j fora examinada. Ver, por exemplo, a anlise de 
'Dora' (1905e [1901]), ver a partir de [7], 1972, e os Trs Ensaios (1905d), ver a partir de [8].
         FANTASIAS HISTRICAS E SUA RELAO COM A BISSEXUALIDADE
         
         Estamos familiarizados com as imaginaes delirantes do paranico acerca da grandeza ou dos sofrimentos do seu prprio eu (self), que aparecem em formas 
bem tpicas e quase montonas. Conhecemos tambm, atravs de numerosos relatos, os estranhos desempenhos pelos quais certos pervertidos encerram sua satisfao sexual, 
ou em idia ou na realidade. Entretanto, talvez seja novidade para alguns leitores o fato de que estruturas psquicas anlogas esto presentes regularmente em todas 
as psiconeuroses, em particular na histeria, e de que podemos demonstrar terem essas estruturas - conhecidas como fantasias histricas - importantes ligaes com 
a acusao dos sintomas neurticos.
         Todas essas criaes de fantasia tm sua fonte comum e seu prottipo normal nos chamados devaneios da juventude. Estes j foram examinados, embora insuficientemente, 
na literatura do assunto. Ocorrem talvez com igual freqncia em ambos os sexos, sendo invariavelmente de natureza ertica nas jovens e mulheres, enquanto nos homens 
so tanto ambiciosos como erticos. No se deve, entretanto, atribuir uma importncia secundria ao fator ertico nos homens; se investigarmos mais de perto os devaneios 
de um homem, veremos que seus feitos hericos e seus triunfos s tm por finalidade agradar a uma mulher para que ela o prefira aos outros homens. Essas fantasias 
so satisfaes de desejos originrios de privaes e anelos. So com justia denominadas de 'devaneios', j que nos do a chave para uma compreenso dos sonhos 
noturnos - nos quais o ncleo da formao onrica no consiste em nada mais do que em fantasias diurnas complicadas, que foram distorcidas e que so mal compreendidas 
pela instncia psquica consciente.
         Esses devaneios so catexizados com um vivo interesse; so acalentados carinhosamente pelo sujeito e em geral ocultos com muita sensibilidade.  fcil perceber 
na rua uma pessoa absorta num devaneio: fala sozinha, sorri subitamente distrada ou apressa o passo no momento em que a situao imaginada atinge o clmax. Todo 
ataque histrico que at hoje investiguei revelou a irrupo involuntria de tais devaneios, pois nossas observaes no deixam dvidas que tais fantasias tanto 
podem ser inconscientes como conscientes. Quando as ltimas tornam-se inconscientes, podem tornar-se tambm patognicas, isto , podem expressar-se atravs de sintomas 
e ataques. Em circunstncias favorveis o sujeito ainda logra apreender uma tal fantasia inconsciente na conscincia. Depois que chamei a ateno de uma das minhas 
pacientes para suas fantasias, ela me contou ter-se surpreendido em lgrimas na rua e, ao refletir no mesmo instante sobre o motivo deste pranto, ter conseguido 
capturar a fantasia que se segue. Em sua imaginao, ligara-se amorosamente a um conhecido pianista de sua cidade (embora no o conhecesse pessoalmente); em seguida 
fora abandonada, com o filho que tivera com ele (na verdade no tinha filhos), ficando na misria. Fora nesse momento de sua fantasia que irrompera em lgrimas.
         As fantasias inconscientes podem ter sido sempre inconscientes e formadas no inconsciente; ou, o que acontece com maior freqncia, foram inicialmente fantasias 
conscientes, devaneios, desde ento deliberadamente esquecidas, tornando-se inconscientes atravs da 'represso'. O contedo delas pode, posteriormente, ter permanecido 
o mesmo ou sofrido alteraes, de modo que as fantasias inconscientes atuais so derivadas das conscientes. Uma fantasia inconsciente tem uma conexo muito importante 
com a vida sexual do sujeito, pois  idntica  fantasia que serviu para lhe dar satisfao sexual durante um perodo de masturbao. Nesse perodo, o ato masturbatrio 
(no sentido mais amplo da palavra) compunha-se de duas partes. Uma era a evocao de uma fantasia e a outra um comportamento ativo para, no momento culminante da 
fantasia, obter autogratificao. Como sabemos, esse composto estava em si simplesmente soldado junto. Originalmente o ato era um processo puramente auto-ertico 
que visava obter prazer de uma determinada parte do corpo, que pode ser denominada de ergena. Mais tarde, esse ato fundiu-se a uma idia plena de desejo pertencente 
 esfera do amor objetal, e serviu como realizao parcial da situao em que culminou a fantasia. Quando, posteriormente, o sujeito renuncia a esse tipo de satisfao, 
composto de masturbao e fantasia, o ato  abandonado, e a fantasia passa de consciente a inconsciente. Se no obtm outro tipo de satisfao sexual, o sujeito 
permanece abstinente; se no consegue sublimar sua libido - isto , se no consegue defletir sua excitao sexual para fins mais elevados - estar preenchida a condio 
para que sua fantasia inconsciente reviva e se desenvolva, comeando a atuar, pelo menos no que diz respeito a parte de seu contedo, com todo o vigor da sua necessidade 
de amor, sob a forma de sintoma patolgico.
         Dessa forma as fantasias inconscientes so os precursores psquicos imediatos de toda uma srie de sintomas histricos. Estes nada mais so do que fantasias 
inconscientes exteriorizadas por meio da 'converso'; quando os sintomas so somticos, com freqncia so retirados do crculo das mesmas sensaes sexuais e inervaes 
motoras que originalmente acompanhavam as fantasias quando estas ainda eram inconscientes. Assim  anulada a renncia ao hbito da masturbao e atingido o propsito 
de todo o processo patolgico, que  o restabelecimento da satisfao sexual primria original - embora nunca,  verdade, de forma completa, mas numa espcie de 
aproximao.
         Quem estudar a histeria, portanto, logo transferir seu interesse dos sintomas para as fantasias que lhes deram origem. A tcnica da psicanlise nos permite 
em primeiro lugar inferir dos sintomas o que essas fantasias inconscientes so, e ento torn-las conscientes para o paciente. Dessa maneira descobriu-se que o contedo 
das fantasias inconscientes do histrico corresponde em sua totalidade s situaes nas quais os pervertidos obtm conscientemente satisfao; e se algum desejar 
exemplos de tais situaes, basta recordar-se das mundialmente famosas proezas dos imperadores romanos, cujos selvagens excessos eram determinados, naturalmente, 
pelo enorme e irrestrito poder dos autores das fantasias. Os delrios dos paranicos so fantasias da mesma natureza, embora se tenham tornado diretamente conscientes. 
Dependem dos componentes sadomasoquistas do instinto sexual, e tambm podem encontrar um correspondente completo em certas fantasias inconscientes de sujeitos histricos. 
Tambm conhecemos casos, com sua importncia prtica, nos quais os histricos no do expresso s suas fantasias sob a forma de sintomas, mas como realizaes conscientes, 
e assim tramam e encenam estupros, ataques ou atos de agresso sexual.
         Esse mtodo de investigao psicanaltica, que dos sintomas visveis conduz s fantasias inconscientes ocultas, revela-nos tudo que  possvel conhecer 
sobre a sexualidade dos psiconeurticos, inclusive o fato que deve ser o tpico principal dessa breve publicao preliminar.
         Provavelmente devido s dificuldades que as fantasias inconscientes encontram em seus esforos de expresso, a relao das fantasias com os sintomas no 
 simples, mas, ao contrrio, bem complexa. Via de regra, quando a neurose est plenamente desenvolvida e persiste h algum tempo, um determinado sintoma no corresponde 
a uma nica fantasia inconsciente, mas a vrias fantasias desse gnero, e essa correspondncia no  arbitrria, mas obedece a um padro regular. Sem dvida, no 
incio da doena ainda no se desenvolveram de todo essas complicaes.
         Considerando o interesse geral, vou afastar-me neste ponto das diretrizes deste trabalho e interpolar aqui uma srie de frmulas que tentam oferecer uma 
viso progressiva da natureza dos sintomas histricos. Essas frmulas no se contradizem, mas enquanto algumas examinam os fatos de forma cada vez mais completa 
e precisa, outras representam a aplicao de pontos de vista diferentes.
         (1) Os sintomas histricos so smbolos mnmicos de certas impresses e experincias (traumticas) operativas.
         (2) Os sintomas histricos so substitutos, produzidos por 'converso', para o retorno associativo dessas experincias traumticas.
         (3) Os sintomas histricos so - como outras estruturas psquicas - uma expresso da realizao de um desejo.
         (4) Os sintomas histricos so a realizao de uma fantasia inconsciente que serve  realizao de um desejo.
         (5) Os sintomas histricos esto a servio da satisfao sexual e representam uma parcela da vida sexual do sujeito (uma parcela que corresponde a um dos 
constituintes do seu instinto sexual).
         (6) Os sintomas histricos correspondem a um retorno a um modo de satisfao sexual que era real na vida infantil e que desde ento tem sido reprimido.
         (7) Os sintomas histricos surgem como uma conciliao entre dois impulsos afetivos e instintuais opostos, um dos quais tenta expressar um instinto componente 
ou um inconsciente da constituio sexual, enquanto o outro tenta suprimi-lo.
         
         (8) Os sintomas histricos podem assumir a representao de vrios impulsos inconscientes que no so sexuais, mas que possuem sempre uma significao sexual.
         Dessas diversas definies, a stima descreve de forma mais completa a natureza dos sintomas histricos como sendo a realizao de uma fantasia inconsciente, 
e a oitava concede ao fator sexual a sua devida significao. Algumas das frmulas anteriores conduzem a essas duas ltimas, estando nelas contidas.
         Como demonstrei em meus Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade [1905d], a conexo entre os sintomas e as fantasias torna fcil chegar da psicanlise 
dos primeiros a um conhecimento dos componentes dos instintos sexuais que dominam o indivduo. Em alguns casos, entretanto, uma investigao por esses meios produz 
resultado inesperado. Mostra que h muitos sintomas onde a exposio de uma fantasia sexual (ou de vrias fantasias, uma das quais, a mais significativa e primitiva, 
 de natureza sexual) no  suficiente para efetuar a resoluo dos sintomas. Para resolver isso  necessrio ter duas fantasias sexuais, uma de carter feminino 
e outra de carter masculino. Assim uma dessas fantasias origina-se de um impulso homossexual. Essa nova descoberta no altera nossa stima frmula. Continua sendo 
verdade que um sintoma histrico deve necessariamente representar uma conciliao entre um impulso libidinal e um impulso repressor, mas pode tambm representar 
a unio de duas fantasias libidinais de carter sexual oposto.
         Abster-me-ei de apresentar exemplos para comprovar essa tese. A experincia ensinou-me que anlises curtas, condensadas em resumos, nunca possuem o efeito 
persuasrio que desejaramos que produzissem; por outro lado, relatos de casos longamente analisados devem ser deixados para outra ocasio.
         Portanto, contentar-me-ei em expor uma nova frmula e em explicar sua significao.
         (9) Os sintomas histricos so a expresso, por um lado, de uma fantasia sexual inconsciente masculina e, por outro lado, de uma feminina.
         Devo ressalvar que no posso reivindicar para essa frmula a mesma validade geral que atribu s outras. A meu ver, ela no se aplica a todos os sintomas 
de um caso, nem a todos os casos. Ao contrrio, no  difcil encontrar casos em que os impulsos pertencentes a sexos opostos encontraram expresso sintomtica independente, 
de modo que os sintomas de heterossexualidade e os de homossexualidade podem ser to claramente diferenciados entre si como as fantasias ocultas por trs deles. 
Entretanto, a situao descrita na nova frmula  bastante comum e suficientemente importante quando ocorre para merecer uma nfase especial. Parece-me constituir 
o mais alto grau de complexidade que a determinao de um sintoma histrico pode atingir, e que s esperaramos encontrar numa neurose de longa durao e j muito 
organizada.
         A natureza bissexual dos sintomas histricos, que pode ser demonstrada em numerosos casos, constitui uma interessante confirmao da minha concepo de 
que, na anlise dos psiconeurticos, se evidencia de modo especialmente claro a pressuposta exigncia de uma disposio bissexual inata no homem. Uma situao exatamente 
anloga ocorre no mesmo campo quando uma pessoa que se masturba tenta em suas fantasias conscientes ter tanto os sentimentos do homem quanto os da mulher na situao 
por ela concebida. Encontraremos outros correlatos em certos ataques histricos nos quais o paciente desempenha simultaneamente ambos os papis na fantasia sexual 
subjacente. Em um caso que observei, por exemplo, a paciente pressionava o vestido contra o corpo com uma das mos (como mulher), enquanto tentava arranc-lo com 
a outra (como homem). Essa simultaneidade de atos contraditrios serve, em grande parte, para obscurecer a situao, que por outro lado  to plasticamente retratada 
no ataque, estando assim em condies de ocultar a fantasia inconsciente que est em ao.
         No tratamento psicanaltico  extremamente importante estar preparado para encontrar sintomas com significado bissexual. Assim no ficaremos surpresos ou 
confusos se um sintoma parece no diminuir, embora j tenhamos resolvido um dos seus significados sexuais, pois ele ainda  mantido por um, talvez insuspeito, que 
pertence ao sexo oposto. No tratamento de tais casos, alm disso, podemos observar como o paciente se utiliza, durante a anlise de um dos significados sexuais, 
da conveniente possibilidade de constantemente passar suas associaes para o campo do significado oposto, tal como para uma trilha paralela.
         
         
         
         






CARTER E EROTISMO ANAL (1908)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         CHARAKTER UND ANALEROTIK
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1908 Psychiat.-neurol. Wschr., 9 (52) [maro], 465-7.
         1909 S.K.S.N. 2, 132-7. (1912, 2 ed.; 1921, 3 ed.)
         1924 G.S., 5, 261-7.
         1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 62-8.
         1941 G.W., 7, 203-9.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Character and Anal Erotism'
         1924 C.P., 2, 45-50. (Trad. de R.C. McWatters.)
         
         A presente traduo  uma verso modificada da publicada em 1924.
         
         O tema deste artigo j se tornou to familiar que  difcil conceber a indignao e o assombro que ele provocou quando de sua primeira publicao. Segundo 
Ernest Jones (1955, 331-2), os trs traos de carter que so aqui associados ao erotismo anal j haviam sido mencionados por Freud em sua carta a Jung de 2 de outubro 
de 1906. Tambm os mencionou em algumas observaes dirigidas  Sociedade Psicanaltica de Viena a 6 de maro de 1907. (Ver Minutes, 1.) Em sua carta a Fliess de 
22 de dezembro de 1897 (Freud, 1950a, Carta 79), associara dinheiro e avareza com fezes. Foi a anlise do 'Rat Man' (1909d), concluda pouco antes, que em parte, 
sem dvida o estimulou a escrever este artigo. Entretanto, s alguns anos mais tarde viria a examinar a conexo especial entre o erotismo anal e a neurose obsessiva, 
em 'A Disposio  Neurose Obsessiva' (1913i). Outro caso clnico, o do 'Homem dos Lobos' (1918b [1914]) levou a uma outra ampliao do tema aqui tratado - o artigo 
'As Transformaes do Instinto' (1917c).
         
         
         
         
         CARTER E EROTISMO ANAL
         
         Entre aqueles que tentamos ajudar com nossos esforos psicanalticos, freqentemente encontramos um certo tipo de indivduo que se distingue por possuir 
determinados traos de carter, e simultaneamente nossa ateno  atrada pelo comportamento, em sua infncia, de uma de suas funes corporais e pelo rgo nela 
envolvido. No posso agora precisar em que ocasio comecei a ter a impresso de que havia uma conexo orgnica entre esse tipo de carter e esse comportamento de 
um rgo, mas posso assegurar ao leitor que nessa impresso no pesou qualquer suposio terica.
         A experincia acumulada fortaleceu de tal maneira minha crena na existncia dessa conexo que me aventuro agora a torn-la objeto de uma comunicao.
         As pessoas que passarei a descrever distinguem-se por uma combinao regular das trs caractersticas que se seguem. Elas so especialmente ordeiras, parcimoniosas 
e obstinadas. Cada um desses vocbulos abrange, na realidade, um pequeno grupo ou srie de traos de carter interligados. 'Ordeiro' tanto abrange a noo de esmero 
individual como o escrpulo no cumprimento de pequenos deveres e a fidedignidade. O contrrio de ordeiro seria 'descuidado' e 'desordenado'. A parcimnia pode aparecer 
de forma exagerada como avareza, e a obstinao pode transformar-se em rebeldia,  qual podem facilmente associar-se a clera e os mpetos vingativos. Essas duas 
ltimas caractersticas, a parcimnia e a obstinao, possuem entre si uma ligao mais estreita do que com a primeira - a ordem. Elas constituem tambm o elemento 
mais constante de todo o complexo. Parece-me, entretanto, que essas trs caractersticas esto indubitavelmente ligadas entre si.
          fcil inferir da histria da primeira infncia desses indivduos que os mesmos dispenderam um tempo relativamente longo para superar sua incontinencia 
alvi [incontinncia fecal] infantil, e que na infncia posterior sofreram falhas isoladas nessa funo. Quando bebs, parecem ter pertencido ao grupo que se recusa 
a esvaziar os intestinos ao ser colocado no urinol, porque obtm um prazer suplementar do ato de defecar, pois nos revelam que em anos posteriores gostavam de reter 
as fezes, e se lembram - embora atribuam o fato mais facilmente em relao a irmos e irms do que a si mesmos - de ter feito toda uma srie de coisas indecorosas 
com suas fezes. Deduzimos de tais indicaes que essas pessoas nasceram com uma constituio sexual na qual o carter ergeno da zona anal  excepcionalmente forte. 
Mas como no h resqucios dessas fraquezas e idiossincrasias aps o trmino de suas infncias, devemos concluir que no decurso do seu desenvolvimento a zona anal 
perdeu sua significao ergena.  de se suspeitar que a regularidade com que essa trade de propriedades apresenta-se no carter dessas pessoas possa ser relacionada 
com o desaparecimento do erotismo anal.
         Sei que ningum est disposto a dar crdito a uma situao enquanto a mesma se afigura ininteligvel e no passvel de explicao. Contudo, com a ajuda 
dos postulados que expus em 1905 em meus Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, podemos ao menos nos aproximar dos seus fatores bsicos. Tentei demonstrar nesses 
ensaios que o instinto sexual do homem  altamente complexo e resultante da contribuio de numerosos constituintes e instintos componentes. A 'excitao sexual' 
recebe importantes contribuies das excitaes perifricas de determinadas partes do corpo (os genitais, a boca, o nus, a uretra), que assim merecem a designao 
especial de 'zonas ergenas'. Mas as quantidades de excitao que provm dessas partes do corpo no sofrem as mesmas vicissitudes, nem tm destino igual em todos 
os perodos da vida. De modo geral, s uma parcela dela  utilizada na vida sexual; outra parte  defletida dos fins sexuais e dirigida para outros - um processo 
que denominamos de 'sublimao'. Durante o perodo de vida que vai do final do quinto ano s primeiras manifestaes da puberdade (por volta dos onze anos) e que 
pode ser chamado de perodo de 'latncia sexual', criam-se na mente formaes reativas, ou contraforas, como a vergonha, a repugnncia e a moralidade. Na verdade 
surgem s expensas das excitaes provenientes das zonas ergenas e erguem-se como diques para opor-se s atividades posteriores dos instintos sexuais. Ora, o erotismo 
anal  um dos componentes do instinto [sexual] que, no decurso do desenvolimento e de acordo com a educao que a nossa atual civilizao exige, se tornaro inteis 
para os fins sexuais. Portanto,  plausvel a suposio de que esses traos de carter - a ordem, a parcimnia e a obstinao -, com freqncia relevantes nos indivduos 
que anteriormente eram anal-erticos, sejam os primeiros e mais constantes resultados da sublimao do erotismo anal. A limpeza, a ordem e a fidedignidade do exatamente 
a impresso de uma formao reativa contra um interesse pela imundcie perturbadora que no deveria pertencer ao corpo. ('Dirt is matter in the wrong place.'). J 
no  fcil a tarefa de relacionar a obstinao com um interesse pela defecao, mas devamos lembrar que at mesmo um beb pode mostrar vontade prpria quando se 
trata do ato de defecar, como vimos acima (ver em [1]), e que  costume bastante difundido na educao da criana administrar estmulos dolorosos  pele das ndegas 
- ligada  zona ergena anal - para quebrar a obstinao da criana e torn-la submissa. Ainda persiste hoje o convite a uma carcia na zona anal, como expresso 
de desafio ou desprezo, convite esse que corresponde na realidade a um ato de ternura que sucumbiu  represso. A exibio das ndegas representa um abrandamento 
em gesto desse convite verbal. No Gtz von Berlichingen de Goethe aparecem tanto as palavras como o gesto, em momento apropriado, como expresso de desafio.
         As conexes entre os complexos do apego ao dinheiro e da defecao, aparentemente to diversos, afiguram-se as mais extensas. Todo mdico que j praticou 
a psicanlise sabe que os casos mais antigos e rebeldes daquilo que  descrito como constipao podem ser curados em neurticos por essa forma de tratamento, fato 
menos surpreendente se recordarmos que essa funo tambm se mostrou tratvel pela sugesto hipntica. Mas s alcanaremos esse resultado com a psicanlise se nos 
ocuparmos do complexo monetrio dos pacientes e os induzirmos a traz-lo  conscincia, como todas as suas conexes. Talvez a neurose aqui apenas siga um indcio 
fornecido pela linguagem popular, que qualifica o indivduo muito apegado ao seu dinheiro de 'sujo' ou 'imundo'. Mas essa explicao seria demasiadamente superficial. 
Na realidade, onde quer que tenham predominado ou ainda persistam as formas arcaicas do pensamento - nas antigas civilizaes, nos mitos, nos contos de fadas e supersties, 
no pensamento inconsciente, nos sonhos e nas neuroses - o dinheiro  intimamente relacionado com a sujeira. Sabemos que o ouro entregue pelo diabo a seus bem-amados 
converte-se em excremento aps sua partida, e o diabo nada mais  do que a personificao da vida instintual inconsciente reprimida. Tambm conhecemos a superstio 
que liga a descoberta de um tesouro com a defecao, e todos esto familiarizados com a figura do 'cagador de ducados' [Dukatenscheisser]'. Na verdade, segundo as 
antigas doutrinas da Babilnia, o ouro so 'as fezes do Inferno' (Mammon = ilu manman). Assim, aqui como em outras ocasies, a neurose, acompanhando os usos da linguagem, 
toma as palavras no seu sentido original e significativo; parecendo utiliz-las em seu sentido figurado, est na realidade simplesmente devolvendo a elas seu sentido 
primitivo.
          possvel que o contraste existente entre a substncia mais preciosa que o homem conhece e a mais desprezvel, que eles rejeitam como matria intil ('refugo') 
tenha levado a essa identificao especfica do ouro com fezes.
         Ainda uma outra circunstncia facilita essa equao no pensamento neurtico. Sabemos que o interesse ertico original na defecao est destinado a extinguir-se 
em anos posteriores. Nessa ocasio aparece o interesse pelo dinheiro, que no existia na infncia. Isso facilita a transferncia da impulso primitiva, que estava 
em processo de perder seu objetivo, para o nosso objetivo emergente.
         Se houver realmente alguma base para a relao que aqui estabelecemos entre o erotismo anal e essa trade de traos de carter, provavelmente no encontraremos 
um acentuado grau de 'carter anal' nos indivduos que conservaram na vida adulta o carter ergeno da zona anal, como acontece, por exemplo, com certos homossexuais. 
A menos que esteja enganado, a experincia comprova amplamente essa concluso.
         Devamos apreciar se os outros complexos de carter no revelam tambm uma conexo com a excitao de zonas ergenas especficas. Atualmente s tenho conhecimento 
da intensa e 'ardente' ambio de indivduos que sofreram anteriormente de enurese. De qualquer modo, podemos estabelecer uma frmula para o modo como o carter, 
em sua configurao final, se forma a partir dos instintos constituintes: os traos de carter permanentes, so ou prolongamentos inalterados dos instintos originais, 
ou sublimao desses instintos, ou formaes reativas contra os mesmos.
         
         
         
         















MORAL SEXUAL CIVILIZADA E DOENA NERVOSA MODERNA (1908)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DIE 'KULTURELLE' SEXUALMORAL UND DIE MODERNE NERVOSITT
         
         (a) EDIES ALEMS:
         
         1908 Sexual-Probleme 4 (3) [maro], 107-129.
         1909 S.K.S.N., 2, 175-196. (1912, 2 ed.; 1921, 3 ed.)
         1924 G.S., 5, 143-167.
         1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 17-42.
         1941 G.W., 7, 143-167.
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
         
         'Modern Sexual Morality and Modern Nervousness'
         
         1915 Amer. J. Urol., 11, 391-405. (Incompleta.)
         
         '"Civilized" Sexual Morality and Modern Nervousness'
         1924 C.P., 2, 76-99. (Trad. de E.B. Herford e E. C. Mayne.)
         Uma reimpresso da traduo de 1915 apareceu em forma de panfleto (organizado por W. J. Robinson) publicado por Eugenics Publications, Nova Iorque, 1931. 
Ambas omitem os dez primeiros pargrafos. A presente traduo, com um ttulo alterado, baseia-se na publicada em 1924.
         Sexual-Probleme, o peridico em que apareceram este artigo e o prximo (ver em [1]), foi o sucessor da revista Mutterschutz, sob cujo ttulo  s vezes 
catalogado. A numerao dos volumes no sofreu interrupo apesar da mudana de ttulo.
         Embora esta seja a primeira das longas exposies de Freud sobre o antagonismo entre civilizao e vida instintual, suas convices sobre o assunto so 
muito anteriores. Por exemplo, num memorando enviado a Fliess em 31 de maio de 1897, ele escreve que 'o incesto  anti-social e a civilizao consiste na renncia 
progressiva ao mesmo'. (Freud, 1950a,Rascunho N.) Contudo, na verdade, esse antagonismo estava implcito em toda a sua teoria do impacto do perodo de latncia sobre 
o desenvolvimento da sexualidade humana, e nas ltimas pginas dos seus Trs Ensaios (1905d) ele mencionou a 'relao inversa que existe entre a civilizao e o 
livre desenvolvimento da sexualidade' (ver em [1], 1972). O presente artigo  em grande parte um sumrio das descobertas do ltimo trabalho mencionado, que fora 
publicado apenas trs anos antes.
         Os aspectos sociolgicos desse antagonismo constituem o tema principal deste artigo, e Freud voltou freqentemente ao assunto em seus escritos posteriores. 
Sem determo-nos nas aluses passageiras, podemos mencionar as duas ltimas sees do seu segundo artigo sobre a psicologia do amor (1912d), ver a partir de [2], 
1970, as pginas iniciais de O Futuro de uma Iluso (1927c) e os pargrafos finais da carta aberta a Einstein, 'Por que a Guerra?' (1933b). No entanto, sua exposio 
mais longa e mais elaborada do assunto est, sem dvida, em O Mal-Estar na Civilizao (1930a).
         O antigo problema da traduo da palavra alem 'Kultur' por 'cultura' ou por 'civilizao' foi resolvido aqui pela escolha ora de um termo ora de outro. 
Na verdade os tradutores foram auxiliados por uma observao de Freud no terceiro pargrafo de O Futuro de uma Iluso: 'desprezo ter que distinguir entre cultura 
e civilizao.'
         
         MORAL SEXUAL CIVILIZADA E DOENA NERVOSA MODERNA
         
         Em seu livro recentemente publicado, tica Sexual, Von Ehrenfels (1907) discorre sobre a diferena entre a moral sexual 'natural' e a 'civilizada'. Segundo 
ele, devemos entender por moral sexual natural uma moral sexual sob cujo regime um grupo humano  capaz de conservar sua sade e eficincia, e por moral sexual civilizada, 
uma obedincia moral sexual quilo que, por outro lado, estimula os homens a uma intensa e produtiva atividade cultural. Esse contraste  mais bem ilustrado, segundo 
ele, comparando-se o carter inato de um povo com suas realizaes culturais. Remeterei o leitor que deseje deter-se no exame dessas importantes proposies  obra 
de Von Ehrenfels, limitando-me a colher ali somente o necessrio para alicerar minha prpria contribuio ao assunto.
         No  arriscado supor que sob o regime de uma moral sexual civilizada a sade e a eficincia dos indivduos esteja sujeita a danos, e que tais prejuzos 
causados pelos sacrifcios que lhes so exigidos terminem por atingir um grau to elevado, que indiretamente cheguem a colocar tambm em perigo os objetivos culturais. 
Von Ehrenfels atribui, de fato,  moral sexual que hoje rege a nossa sociedade ocidental numerosos prejuzos, pelos quais responsabiliza diretamente essa moral; 
embora reconhea plenamente sua vigorosa influncia no desenvolvimento da civilizao, no pode deixar de concluir da necessidade de uma reforma. Em sua opinio, 
a singularidade da moral sexual civilizada a que obedecemos  que as restries feitas s mulheres por tal sistema so estendidas  vida sexual masculina, sendo 
proibida toda relao sexual exceto dentro do casamento monogmico. No entanto, as diferenas naturais entre os sexos impem sanes menos severas s transgresses 
masculinas, tornando mesmo necessrio admitir uma moral dupla. Contudo, uma sociedade que aceita essa moral ambgua no pode levar muito longe o 'amor  verdade, 
 honestidade e  humanidade' (Von Ehrenfels, ibid., pg. 32 e segs.), e dever induzir seus membros  ocultao da verdade, a um falso otimismo, e a enganarem a 
si prprios e aos demais. A moral sexual civilizada traz conseqncias ainda mais graves, pois, glorificando a monogamia, impossibilita a seleo pela virilidade 
- nico fator que pode aperfeioar a constituio do homem, pois entre os povos civilizados a seleo pela vitalidade foi reduzida a um mnimo pelos princpios humanitrios 
e pela higiene (ibid., 35).
         Entre os danos acima atribudos a essa moral sexual civilizada, os mdicos tero notado a falta justamente daquele cuja significao examinaremos no presente 
artigo. Refiro-me ao aumento, imputvel a essa moral, da doena nervosa moderna, isto , da doena nervosa que se difunde rapidamente na sociedade contempornea. 
Ocasionalmente, um desses pacientes nervosos chamar, ele prprio, a ateno do mdico para o papel que o antagonismo existente entre a sua constituio e as exigncias 
da civilizao desempenhou na gnese de sua enfermidade, dizendo: 'Em nossa famlia todos tornamo-nos neurticos porque queramos ser melhores do que, com nossa 
origem, somos capazes de ser.' Os mdicos tambm encontram matria para reflexo no fato de que os indivduos vitimados por doenas nervosas so, com freqncia, 
justamente os filhos de casais procedentes de rudes e vigorosas famlias camponesas que viviam em condies simples e saudveis, e que, fixando-se em cidades, num 
curto espao de tempo elevaram seus filhos a um alto nvel cultural. Os prprios neurologistas asseveram enfaticamente que existe uma relao entre a 'alta incidncia 
da doena nervosa' e a moderna vida civilizada. As bases para tal afirmativa podero ser encontradas nos testemunhos de alguns eminentes observadores transcritos 
a seguir:
         W. Erb (1893): 'O problema est em determinar se as causas da doena nervosa que lhes foram expostas esto presentes na vida moderna num grau suficientemente 
elevado para explicar o incremento dessa doena. A questo ser respondida afirmativamente, sem hesitaes, se fizermos um rpido exame da nossa vida moderna e de 
seus aspectos particulares.
         'A simples enumerao de uma srie de fatos gerais j demonstra claramente a nossa proposio. As extraordinrias realizaes dos tempos modernos, as descobertas 
e as investigaes em todos os setores e a manuteno do progresso, apesar de crescente competio, s foram alcanados e s podem ser conservados por meio de um 
grande esforo mental. Cresceram as exigncias impostas  eficincia do indivduo, e s reunindo todos os seus poderes mentais ele pode atend-las. Simultaneamente, 
em todas as classes aumentam as necessidades individuais e a nsia de prazeres materiais; um luxo sem precedentes atingiu camadas da populao a que at ento era 
totalmente estranho; a irreligiosidade, o descontentamento e a cobia intensificam-se em amplas esferas sociais. O incremento das comunicaes resultante da rede 
telegrfica e telefnica que envolve o mundo alteraram completamente as condies do comrcio. Tudo  pressa e agitao. A noite  aproveitada para viajar, o dia 
para os negcios, e at mesmo as 'viagens de recreio' colocam em tenso o sistema nervoso. As crises polticas, industriais e financeiras atingem crculos muito 
mais amplos do que anteriormente. Quase toda a populao participa da vida poltica. Os conflitos religiosos, sociais e polticos, a atividade partidria, a agitao 
eleitoral e a grande expanso dos sindicalismos inflamam os espritos, exigindo violentos esforos da mente e roubando tempo  recreao, ao sono e ao lazer. A vida 
urbana torna-se cada vez mais sofisticada e intranqila. Os nervos exaustos buscam refgio em maiores estmulos e em prazeres intensos, caindo em ainda maior exausto. 
A literatura moderna ocupa-se de questes controvertidas, que despertam paixes e encorajam a sensualidade, a fome de prazeres, o desprezo por todos os princpios 
ticos e por todos os ideais, apresentando  mente do leitor personagens patolgicas, propondo-lhe problemas de sexualidade psicoptica, temas revolucionrios e 
outros. Nossa audio  excitada e superestimada por grandes doses de msica ruidosa e insistente. As artes cnicas cativam nossos sentidos com suas representaes 
excitantes, enquanto as artes plsticas se voltam de preferncia para o repulsivo, o feio e o estimulante, no hesitando em apresentar aos nossos olhos, com nauseante 
realismo, as imagens mais horrveis que a vida pode oferecer.
         'Esse quadro geral que nos indica os numerosos perigos inerentes  evoluo da civilizao moderna pode ser completado com alguns detalhes.'
         Binswanger (1896): 'Designa-se a neurastenia, em especial, como doena fundamentalmente moderna. Beard, a quem devemos sua primeira descrio minuciosa, 
acreditava ter descoberto uma nova doena nervosa oriunda do solo americano. Sem dvida tal suposio era errnea; entretanto, o fato de ter sido um mdico americano 
o primeiro a compreender e a expor os aspectos singulares dessa doena, devido a uma vasta experincia clnica, revela certamente a ntima conexo entre essa doena 
e a vida moderna, com sua desenfreada volpia de bens materiais e seus enormes progressos no campo da tecnologia, que destruram todos os entraves temporais ou espaciais 
 intercomunicao.'
         Von Krafft-Ebin (1895): 'O modo de vida de um sem-nmero de povos civilizados da atualidade apresenta uma grande quantidade de aspectos anti-higinicos 
que explicam o nocivo incremento de doenas nervosas, pois esses fatores atuam primordialmente sobre o crebro. As transformaes ocorridas nas ltimas dcadas nas 
condies polticas e sociais das naes civilizadas, especialmente no comrcio, na indstria e na agricultura, acarretaram grandes mudanas nas atividades profissionais 
dos indivduos, em sua posio social e na propriedade - tudo isso  custa do sistema nervoso, que deve atender ao aumento das exigncias sociais e econmicas com 
um maior dispndio de energia, do qual freqentemente tem insuficientes oportunidades de recuperar-se.'
         A meu ver, a deficincia destas e de outras teorias semelhantes est, no em sua impreciso, mas no fato de se revelarem insuficientes para explicar as 
peculiaridades dos distrbios nervosos, e de ignorarem justamente o fator etiolgico mais importante. Se deixarmos de lado as modalidades mais leves de 'nervosismo' 
e nos atermos s doenas nervosas propriamente ditas, veremos que a influncia prejudicial da civilizao reduz-se principalmente  represso nociva da vida sexual 
dos povos (ou classes) civilizados atravs da moral sexual 'civilizada' que os rege.
         Tentei expor a comprovao dessa minha afirmao em vrios artigos tcnicos. No vou reapresent-la aqui, mas farei um resumo dos argumentos mais importantes 
que resultaram de minhas investigaes.
         Cuidadosa observao clnica permitiu-nos distinguir dois grupos de distrbios nervosos: as neuroses propriamente ditas e as psiconeuroses. Nas primeiras, 
os distrbios (sintomas), com efeitos seja no funcionamento somtico, seja no mental, parecem ser de natureza txica, comportando-se da mesma forma que os fenmenos 
que acompanham o excesso ou a escassez de certos txicos nervosos. Essas neuroses - comumente agrupadas sob a denominao de 'neurastenia' - podem resultar de influncias 
nocivas na vida sexual, sem que seja necessria a presena de taras hereditrias; na verdade, a forma da doena corresponde  natureza desses males, de modo que, 
com freqncia, o fator etiolgico sexual pode ser deduzido do quadro clnico. Por outro lado, no existe nenhuma correspondncia entre as formas das doenas nervosas 
e as outras influncias nocivas da civilizao assinaladas por aquelas autoridades. Podemos, portanto, considerar o fator sexual como o fator bsico na causao 
das neuroses propriamente ditas.
         Nas psiconeuroses  mais evidente a influncia da hereditariedade, e menos transparente a causao. Entretanto, um mtodo peculiar de investigao, conhecido 
como psicanlise, possibilitou-nos perceber que os sintomas desses distrbios (histeria, neurose obsessiva, etc.) so psicognicos e dependem da atuao de complexos 
ideativos inconscientes (reprimidos). Esse mesmo mtodo revelou-nos a natureza desses complexos inconscientes, mostrando que, de maneira geral, possuem um contedo 
sexual. Derivam das necessidades sexuais de indivduos insatisfeitos, representando para os mesmos uma espcie de satisfao substitutiva. Portanto, todos os fatores 
que prejudicam a vida sexual, suprimem sua atividade ou distorcem seus fins devem tambm ser visto como fatores patognicos das psiconeuroses.
         Naturalmente o valor da diferenciao terica entre as neuroses txicas e as neuroses psicognicas no sofre restrio pelo fato de que podem ser observados 
distrbios provenientes de ambas as fontes na maior parte das pessoas que sofrem de doenas nervosas.
         O leitor que est disposto a procurar comigo a etiologia das doenas nervosas, principalmente em influncias nocivas  vida sexual, tambm estar pronto 
a acompanhar meus prximos argumentos, cujo fim  inserir num contexto mais amplo o tema do aumento das doenas nervosas.
         Nossa civilizao repousa, falando de modo geral, sobre a supresso dos instintos. Cada indivduo renuncia a uma parte dos seus atributos: a uma parcela 
do seu sentimento de onipotncia ou ainda das inclinaes vingativas ou agressivas de sua personalidade. Dessas contribuies resulta o acervo cultural comum de 
bens materiais e ideais. Alm das exigncias da vida, foram sem dvida os sentimentos familiares derivados do erotismo que levaram o homem a fazer essa renncia, 
que tem progressivamente aumentado com a evoluo da civilizao. Cada nova conquista foi sancionada pela religio, cada renncia do indivduo  satisfao instintual 
foi oferecida  divindade como um sacrifcio, e foi declarado 'santo' o proveito assim obtido pela comunidade. Aquele que em conseqncia de sua constituio indomvel 
no consegue concordar com a supresso do instinto, torna-se um 'criminoso', um 'outlaw', diante da sociedade - a menos que sua posio social ou suas capacidades 
excepcionais lhe permitam impor-se como um grande homem, um 'heri'.
         O instinto sexual - ou, mais corretamente, os instintos sexuais, pois a investigao analtica nos ensina que o instinto sexual  formado por muitos constituintes 
ou instintos componentes - apresenta-se provavelmente mais vigorosamente desenvolvido no homem do que na maioria dos animais superiores, sendo sem dvida mais constante, 
desde que superou completamente a periodicidade  qual  sujeito nos animais. Esse instinto coloca  disposio da atividade civilizada uma extraordinria quantidade 
de energia, em virtude de uma singular e marcante caracterstica: sua capacidade de deslocar seus objetivos sem restringir consideravelmente a sua intensidade. A 
essa capacidade de trocar seu objetivo sexual original por outro, no mais sexual, mas psiquicamente relacionado com o primeiro, chama-se capacidade de sublimao. 
Contrastando com essa motilidade, na qual reside seu valor para a civilizao, o instinto sexual  passvel tambm de fixar-se de uma forma particularmente obstinada, 
que o inutiliza e o leva algumas vezes a degenerar-se at as chamadas anormalidades. O vigor original do instinto sexual provavelmente varia com o indivduo, o que 
sem dvida tambm acontece com a parcela do instinto suscetvel de sublimao. Parece-nos que a constituio inata de cada indivduo  que ir decidir primeiramente 
qual parte do seu instinto sexual ser possvel sublimar e utilizar. Em acrscimo, os efeitos da experincia e das influncias intelectuais sobre seu aparelho mental 
conseguem provocar a sublimao de uma outra parcela desse instinto. Entretanto, no  possvel ampliar indefinidamente esse processo de deslocamento, da mesma forma 
que em nossas mquinas no  possvel transformar todo o calor em energia mecnica. Para a grande maioria das organizaes parece ser indispensvel uma certa quantidade 
de satisfao sexual direta, e qualquer restrio dessa quantidade, que varia de indivduo para indivduo, acarreta fenmenos que, devido aos prejuzos funcionais 
e ao seu carter subjetivo de desprazer, devem ser considerados como uma doena.
         Novas perspectivas se nos oferecem ao considerarmos que no homem o instinto sexual no serve originalmente aos propsitos da reproduo, mas  obteno 
de determinados tipos de prazer. Manifesta-se desse modo na infncia do homem, perodo em que atinge sua meta de obter prazer no s dos genitais, mas tambm de 
outras partes do corpo (zonas ergenas), podendo portanto prescindir de qualquer outro objeto menos cmodo. Chamamos a esse estdio de estdio de auto-erotismo, 
e a nosso ver a educao da criana tem como tarefa restringi-lo, pois a permanncia nele tornaria o instinto sexual incontrolvel, inutilizando-o posteriormente. 
O desenvolvimento do instinto sexual passa, ento, do auto-erotismo ao amor objetal, e da autonomia das zonas ergenas  subordinao destas  primazia dos genitais, 
postos a servio da reproduo.
         Durante esse desenvolvimento, uma parte da excitao sexual fornecida pelo prprio corpo do indivduo inibe-se por ser intil  funo reprodutora, sendo 
sublimada nos casos favorveis. Assim, grande parte das foras suscetveis de utilizao em atividades culturais so obtidas pela supresso dos chamados elementos 
pervertidos da excitao sexual.
         Considerando essa evoluo do instinto sexual, podemos distinguir trs estdios de civilizao: um primeiro em que o instinto sexual pode manifestar-se 
livremente sem que sejam consideradas as metas de reproduo; um segundo em que tudo do instinto sexual  suprimido, exceto quando serve ao objetivo da reproduo; 
e um terceiro no qual s a reproduo legtima  admitida como meta sexual. A esse terceiro estdio corresponde a moral sexual 'civilizada' da atualidade.
         Mesmo se tomarmos o segundo desses estdios como mdia,  preciso ressalvar que inmeros indivduos no se acham, devido  sua organizao, capacitados 
a satisfazer suas exigncias. Em toda uma srie de pessoas o desenvolvimento do instinto sexual, acima descrito, do auto-erotismo ao amor objetal com seu objetivo 
de unio dos genitais, no se realizou de forma perfeita e completa. Como resultado desses distrbios de desenvolvimento, surgem dois tipos de desvios nocivos da 
sexualidade normal, isto , da sexualidade que  til  civilizao - desvio esses que possuem entre si uma relao quase de positivo para negativo.
         Em primeiro lugar (deixando de lado os indivduos cujo instinto sexual  exagerado ou que resiste  inibio) esto diversas variedades de pervertidos, 
nos quais uma fixao infantil a um objetivo sexual preliminar impediu o estabelecimento da primazia da funo reprodutora, e os homossexuais ou invertidos, nos 
quais, de maneira ainda no compreendida, o objetivo sexual foi defletido do sexo oposto. Se os efeitos nocivos desses dois gneros de distrbios do desenvolvimento 
so menores do que seria de esperar, tal se deve justamente  complexa constituio do instinto sexual, que possibilita  vida sexual do indivduo atingir uma forma 
final til, mesmo que um ou mais componentes do instinto tenham sido alijados do seu desenvolvimento. A constituio das pessoas que sofrem de inverso - os homossexuais 
- distingue-se amide pela especial aptido do seu instinto sexual para a sublimao cultural.
         As formas mais acentuadas de perverso e de homossexualidade, especialmente quando exclusivas, sem dvida tornam o indivduo socialmente intil e infeliz, 
sendo necessrio reconhecer que as exigncias culturais do segundo estdio constituem uma fonte de sofrimentos para uma certa parcela da humanidade. O destino desses 
indivduos de constituio diversa da dos seus semelhantes  varivel, dependendo de terem nascido com um instinto sexual forte ou comparativamente fraco, em relao 
a padres absolutos. No segundo caso, quando o instinto sexual  em geral fraco, os pervertidos conseguem suprimir totalmente as inclinaes que os colocam em conflito 
com as exigncias morais do seu estdio de civilizao. Do ponto de vista ideal, essa  a sua nica realizao, pois para reprimir seu instinto sexual, esgotam as 
foras que poderiam ser utilizadas em atividades culturais.  como se esses indivduos estivessem interiormente inibidos e exteriormente paralisados. As apreciaes 
que faremos mais adiante sobre a abstinncia exigida de homens e mulheres pelo terceiro estdio de civilizao aplicam-se tambm a esses indivduos.
         Quando o instinto sexual  muito intenso, mas pervertido, existem dois desfechos possveis. No primeiro, que no examinaremos, o indivduo afetado permanece 
pervertido e sofre as conseqncias do seu desvio dos padres de civilizao. No segundo, muito mais interessante, o sujeito consegue realmente, sob a influncia 
da educao, e das exigncias sociais, suprimir seus instintos pervertidos, mas essa supresso  falsa, ou melhor, frustrada. Os instintos sexuais inibidos no so 
mais,  verdade, expressos como tais - e nisto consiste o xito do processo -, mas conseguem expressar-se de outras formas igualmente nocivas para o sujeito, e que 
o tornam to intil para a sociedade quanto o teria inutilizado a satisfao de seus instintos suprimidos. A reside o malogro do processo, malogro que um cmputo 
final mais do que contrabalana a sua parcela de xito. Os fenmenos substitutivos surgidos em conseqncia da supresso do instinto constituem o que chamamos de 
doenas nervosas ou, mais precisamente, de psiconeuroses. Os neurticos so uma classe de indivduos que, por possurem uma organizao recalcitrante, apenas conseguem 
sob o influxo de exigncias culturais efetuar uma supresso aparente de seus instintos, supresso essa que se torna cada vez mais falha. Portanto, eles s conseguem 
continuar a colaborar com as atividades culturais com um grande dispndio de energia e s expensas de um empobrecimento interno, sendo s vezes obrigados a interromper 
sua colaborao e a adoecer. Defini as neuroses como o 'negativo' das perverses (ver em [1]) porque nas neuroses os impulsos pervertidos, aps terem sido reprimidos, 
manifestam-se a partir da parte inconsciente da mente - porque as neuroses contm as mesmas tendncias, ainda que em estado de 'represso', das perverses positivas.
         A experincia nos ensina que existe para a imensa maioria das pessoas um limite alm do qual suas constituies no podem atender s exigncias da civilizao. 
Aqueles que desejam ser mais nobres do que suas constituies lhes permitem, so vitimados pela neurose. Esses indivduos teriam sido mais saudveis se lhes fosse 
possvel ser menos bons. A descoberta de que as perverses e as neuroses guardem entre si uma relao de positivo para negativo , com freqncia, confirmada inequivocamente 
pela observao de membros de uma mesma gerao de uma famlia.  comum a irm de um pervertido sexual, a qual em sua condio de mulher possui um instinto sexual 
mais dbil, apresentar uma neurose cujos sintomas expressam as mesmas inclinaes das perverses do seu irmo, mais ativo sexualmente. Correlatamente, em muitas 
famlias os homens so saudveis, embora do ponto de vista social sejam altamente imorais, enquanto as mulheres, cultas e de elevados princpios, sucumbem a graves 
neuroses.
         Uma das bvias injustias sociais  que os padres de civilizao exigem de todos uma idntica conduta sexual, conduta esta que pode ser observada sem dificuldades 
por alguns indivduos, graas s suas organizaes, mas que impe a outros os mais pesados sacrifcios psquicos. Entretanto, na realidade, essa injustia  geralmente 
sanada pela desobedincia s junes morais.
         At aqui essas consideraes referiram-se s exigncias impostas pelo segundo dos estdios de civilizao por ns definidos, exigncias que probem toda 
atividade sexual descrita como pervertida, ao mesmo tempo que concedem ampla liberdade s relaes sexuais chamadas normais. Vemos que, mesmo quando o limite entre 
a liberdade sexual e as restries  assim fixado, um certo nmero de indivduos  marginalizado como pervertido, e outro grupo, que se esfora para no ser pervertido, 
embora por constituio o devesse ser,  impelido s doenas nervosas.  fcil prever as conseqncias de uma maior reduo da liberdade sexual, quando as exigncias 
culturais se elevam ao terceiro estdio, que probe toda atividade sexual fora do matrimnio legtimo. O nmero de naturezas fortes que se colocar em franca oposio 
s exigncias da civilizao aumentar extraordinariamente, como tambm crescer o nmero de naturezas mais dbeis que, frente ao conflito entre as presses culturais 
e a resistncia de suas constituies, fugiro para a neurose.
         Tentemos agora responder a trs perguntas que aqui se apresentam:
         (1) Que deveres exige do indivduo o terceiro estdio de civilizao?
         (2) A satisfao sexual legtima permitida pode oferecer uma compensao aceitvel pela renncia a todas as outras satisfaes?
         (3) Qual a relao entre os possveis efeitos nocivos dessa renncia e seus proveitos no campo cultural?
         A resposta  primeira pergunta envolve um problema que tem sido freqentemente debatido e que no pode ser tratado aqui de forma exaustiva: o problema da 
abstinncia sexual. O nosso terceiro estdio cultural exige dos indivduos de ambos os sexos a prtica da abstinncia at o casamento, obrigando os que no contraem 
um casamento legtimo a permanecerem abstinentes por toda a sua vida. A posio, grata a todas as autoridades, de que a abstinncia sexual no  nociva nem rdua 
tambm tem sido amplamente defendida pela classe mdica. Entretanto, podemos afirmar que a tarefa de dominar um instinto to poderoso quanto o instinto sexual, por 
outro meio que no a sua satisfao,  de tal monta que consome todas as foras do indivduo. O domnio do instinto pela sublimao, defletindo as foras instintuais 
sexuais do seu objetivo sexual para fins culturais mais elevados, s pode ser efetuado por uma minoria, e mesmo assim de forma intermitente, sendo mais difcil no 
perodo ardente e vigoroso da juventude. Os demais, tornam-se em grande maioria neurticos, ou sofrem alguma espcie de prejuzo. A experincia demonstra que a maior 
parte dos indivduos que constituem a nossa sociedade no possuem a constituio necessria para enfrentar com xito a tarefa de uma abstinncia. Os que teriam j 
adoecido sob restries sexuais mais brandas, adoecem ainda mais rapidamente e com maior gravidade ante as exigncias de nossa moral sexual cultural contempornea. 
A meu ver, a satisfao sexual  a melhor proteo contra a ameaa que as disposies inatas anormais ou os distrbios do desenvolvimento constituem para uma vida 
sexual normal. Quanto maior a disposio de um indivduo para a neurose, menos ele tolerar a abstinncia. Os instintos cujo desenvolvimento normal foi coibido, 
como vimos acima, tornam-se ainda mais indomveis, e mesmo os indivduos que conservariam a sade sob as exigncias do segundo estdio cultural mergulharo em grande 
nmero na neurose, pois o valor psquico da satisfao sexual cresce com a sua frustrao. A libido represada torna-se capaz de perceber os pontos fracos raramente 
ausentes da estrutura da vida sexual, e por ali abre caminho obtendo uma satisfao substitutiva neurtica na forma de sintomas patolgicos. Quem penetrar nos determinantes 
das doenas nervosas cedo ficar convencido de que o incremento dessas doenas em nossa sociedade provm da intensificao das restries sexuais.
         Isso nos leva ao problema de determinarmos se as relaes sexuais no casamento legtimo podem oferecer uma total compensao para as restries impostas 
antes do casamento. Existe tanto material a favor de uma resposta negativa que ser necessrio exp-lo de forma muito condensada. Acima de tudo, no devemos esquecer 
que a nossa moral sexual restringe as relaes sexuais mesmo dentro do casamento, pois em geral obriga o casal a contentar-se com uns poucos atos procriadores. Em 
conseqncia desse fato, as relaes sexuais no casamento s so satisfatrias durante alguns poucos anos, e mesmo desse perodo  preciso subtrair os intervalos 
de absteno exigidos pela sade da esposa. Aps esses trs, quatro ou cinco anos, o casamento torna-se, pelo menos em relao  satisfao das necessidades sexuais, 
um fracasso, j que todos os artifcios at hoje inventados para impedir a concepo reduzem o prazer sexual, ferem a sensibilidade de ambos os cnjuges e podem 
at causar doenas. O medo das conseqncias do ato sexual acarreta, inicialmente, o trmino da afeio fsica do casal e, mais tarde, como efeito retardado, em 
geral tambm destri a afinidade psquica que os unia e que deveria substituir a paixo inicial A desiluso espiritual e a privao fsica a que a maioria dos casamentos 
esto ento condenados recolocam os cnjuges na situao anterior ao casamento, situao que  agora ainda mais penosa pela perda de uma iluso, e na qual devem 
mais uma vez apelar para suas energias a fim de subjugar e defletir seu instinto sexual. No  preciso que investiguemos o grau de xito obtido pelos homens, agora 
em sua maturidade, nessa tarefa. A experincia mostra que, com muita freqncia, eles recorrem - embora com relutncia e em segredo -  parcela de liberdade sexual 
que lhes  concedica at mesmo pelo cdigo sexual mais severo. Essa moral sexual 'dupla' que  vlida em nossa sociedade para os homens  a melhor confisso de que 
a prpria sociedade no acredita que seus preceitos possam ser obedecidos. Mas a experincia tambm mostra que as mulheres, em sua qualidade de verdadeiro instrumento 
dos interesses sexuais da humanidade, s possuem em pequeno grau o dom de sublimar seus instintos, e que, embora possam encontrar um substituto adequado do objeto 
sexual no filho que amamentam, mas no nas crianas maiores - a experincia mostra, insisto, que as mulheres ao sofrerem as desiluses do casamento contraem graves 
neuroses que lanam sombras duradouras sobre suas vidas. Nas presentes condies culturais, o casamento h muito deixou de ser uma panacia para os distrbios nervosos 
femininos; embora ns mdicos ainda aconselhemos o casamento em tais casos, sabemos que, ao contrrio, uma jovem precisa ser muito mais saudvel para o tolerar, 
e enfaticamente aconselhamos nossos pacientes masculinos a no se casarem com moas que antes do casamento j sofriam de doenas nervosas. Ao contrrio, a cura das 
doenas nervosas decorrentes do casamento estaria na infidelidade conjugal; porm, quanto mais severa houver sido a educao da jovem e mais seriamente ela se submeter 
s exigncias da civilizao, mais recear recorrer a essa sada; no conflito entre seus desejos e seu sentimento de dever, mais uma vez se refugiar na neurose. 
Nada proteger sua virtude to eficazmente quanto uma doena. Dessa forma o matrimnio, que  oferecido ao instinto sexual do jovem civilizado como uma consolao, 
mostra-se inadequado mesmo durante o seu decurso, no havendo sequer possibilidades de que possa compensar as privaes anteriores.
         Admitindo-se que a moral sexual civilizada cause danos, algum poderia argumentar em resposta  terceira pergunta (ver em [1]) que o proveito cultural decorrente 
de to ampla restrio da sexualidade compensa, provavelmente, esses sofrimentos, os quais afinal de contas s afligem de forma severa uma minoria. Devo confessar-me 
incapaz de contrapor corretamente os ganhos aos prejuzos, mas poderia oferecer maiores argumentos  causa das perdas. Voltando ao assunto da abstinncia, devo insistir 
que a mesma acarreta tambm outros males alm dos inclusos nas neuroses, e que a importncia dessas ainda no foi, em geral, suficientemente apreciada.
         A retardao do desenvolvimento e da atividade sexual a que aspiram nossa civilizao e educao certamente no  nociva a princpio, parecendo at uma 
necessidade quando consideramos quo tarde os jovens das classes instrudas atingem a independncia e so capazes de ganhar a vida. (Isso nos recorda a ntima interligao 
de todas as nossas instituies culturais e as dificuldades de alterar qualquer uma delas sem modificar o todo.) Mas a abstinncia mantida por um longo perodo depois 
dos vinte anos j apresenta perigo para o jovem, e mesmo que no acarrete uma neurose, causa outros prejuzos. Costuma-se dizer que a luta contra um instinto to 
poderoso, com a acentuao de todas as foras ticas e estticas necessrias para tal, 'enrijecem' o carter. Isso pode ser verdadeiro no caso de algumas naturezas 
de organizao muito favorvel. Devemos admitir tambm que a diferenciao do carter individual, to marcante hoje em dia, s se tornou possvel com a existncia 
da restrio sexual. Contudo, na imensa maioria dos casos, a luta contra a sexualidade consome toda a energia disponvel do carter, justamente quando o jovem precisa 
de suas foras para conquistar o seu quinho e o seu lugar na sociedade. A relao entre a quantidade de sublimao possvel e a quantidade de atividade sexual necessria 
varia muito, naturalmente, de indivduo para indivduo, e mesmo de profisso para profisso.  difcil conceber um artista abstinente, mas certamente no  nenhuma 
raridade um jovem savant abstinente. Este ltimo consegue por sua autodisciplina liberar energias para seus estudos, enquanto naquele provavelmente as experincias 
sexuais estimulam as realizaes artsticas. Em geral no me ficou a impresso de que a abstinncia sexual contribua para produzir homens de ao enrgicos e autoconfiantes, 
nem pensadores originais ou libertadores e reformistas audazes. Com freqncia bem maior produz homens fracos mas bem comportados, que mais tarde se perdem na multido 
que tende a seguir, de m-vontade, os caminhos apontados por indivduos fortes.
         O fato de que, em geral, o instinto sexual se comporta de forma voluntariosa e inflexvel evidencia-se tambm nos resultados da luta pela abstinncia. A 
educao civilizada talvez apenas tencione suprimir temporariamente o instinto at o casamento, com o propsito de ento utiliz-lo, concedendo-lhe ampla liberdade. 
Contudo, as medidas extremas so mais eficazes do que as tentativas moderadoras; assim, a supresso vai com freqncia longe demais, com o resultado indesejvel 
de, quando o instinto  liberado, revelar danos permanentes. Por esse motivo, a abstinncia total na juventude no , muitas vezes, a melhor preparao para o casamento 
no caso do homem. As mulheres apercebem-se disto, preferindo pretendentes que j provaram sua masculinidade com outras mulheres. Os efeitos nocivos que as severas 
exigncias da abstinncia antes do casamento produzem nas naturezas femininas so especialmente evidentes.  bvio que a educao no subestima as dificuldades de 
suprimir a sensualidade da jovem at o casamento, pois utiliza medidas drsticas. No somente probe as relaes sexuais e oferece altos prmios  preservao da 
castidade feminina, mas tambm protege a jovem da tentao durante o seu desenvolvimento, conservando-a ignorante do papel que ir desempenhar e no tolerando nela 
qualquer impulso amoroso que no possa conduzir ao casamento. O resultado  que, quando a jovem recebe a sbita autorizao de seus guardies para apaixonar-se, 
no est apta a essa realizao psquica, e chega ao matrimnio insegura dos seus sentimentos. Em conseqncia dessa retardao artificial de suas funes erticas, 
ela nada tem a oferecer alm de desapontamentos ao homem que poupou todos os seus desejos para ela. Seus sentimentos mentais permanecem presos aos seus genitores, 
cuja autoridade acarretou a supresso de sua sexualidade, e em seu comportamento fsico revela-se frgida, privando o homem de um maior prazer sexual. No sei se 
esse tipo de mulher anestesiada aparece fora da educao civilizada, embora o considere muito provvel, mas certamente essa educao o produz, e essas mulheres que 
concebem sem prazer mostram-se pouco dispostas a enfrentar as dores de partos freqentes. Assim, a prpria preparao do casamento faz malograr os seus desgnios. 
Quando mais tarde esse atraso do desenvolvimento da esposa  superado e sua capacidade de amar  despertada no clmax de sua vida de mulher, h muito se deteriorou 
sua relao com o marido; e, como recompensa da docilidade anterior, resta-lhe a escolha entre o desejo insatisfeito, a infidelidade ou uma neurose.
         O comportamento sexual de um ser humano freqentemente constitui o prottipo de suas demais reaes ante a vida. Do homem que mostra firmeza na conquista 
do seu objeto amoroso, podemos esperar que revele igual energia e constncia na luta pelos seus outros fins. Mas se, por toda uma srie de motivos, ele renuncia 
 satisfao de seus fortes instintos sexuais, seu comportamento em outros setores da vida ser, em vez de enrgico, conciliatrio e resignado. No sexo feminino 
percebemos facilmente um caso especial dessa tese de que a vida sexual constitui um prottipo para o exerccio de outras funes. A educao das mulheres impede 
que se ocupem intelectualmente dos problemas sexuais, embora o assunto lhes desperte uma extrema curiosidade, e as intimida condenando tal curiosidade como pouco 
feminina e como indcio de disposio pecaminosa. Assim a educao as afasta de qualquer forma de pensar, e o conhecimento perde para elas o valor. Essa interdio 
do pensamento estende-se alm do setor sexual, em parte atravs de associaes inevitveis, em parte automaticamente, como a interdio do pensamento religioso ou 
a proibio de idias sobre a lealdade entre cidados fiis. No acredito que a 'debilidade mental fisiolgica' feminina seja conseqncia de um antagonismo biolgico 
entre o trabalho intelectual e a atividade sexual, como afirmou Moebius em sua discutida obra. Acredito que a inegvel inferioridade intelectual de muitas mulheres 
pode antes ser atribuda  inibio do pensamento necessria  supresso sexual.
         Quanto  questo da abstinncia,  preciso estabelecer a absteno de qualquer atividade sexual e a absteno de relaes sexuais com o sexo oposto. Muitos 
indivduos que se vangloriam de ser abstinentes, s o conseguiram com o auxlio da masturbao e satisfaes anlogas ligadas s atividades sexuais auto-erticas 
da primeira infncia. Entretanto, esses meios substitutivos de satisfao sexual no so em absoluto inofensivos, justamente devido a essa conexo, e predispem 
s numerosas formas de neurose e psicose que podem resultar na involuo da vida sexual a formas infantis. Tampouco a masturbao satisfaz as exigncias ideais da 
moral sexual civilizada, conseqentemente levando os jovens a travar com os ideais da educao aqueles mesmos conflitos que procuravam evitar pela abstinncia. Alm 
disso, ela corrompe em mais de um sentido o carter, por meio da indulgncia. Em primeiro lugar, acostuma o indivduo a atingir objetivos importantes sem esforo 
e pelos meios mais fceis, e no atravs de uma ao vigorosa, ou seja, obedece ao princpio de que a sexualidade constitui o prottipo do comportamento (ver em 
[1]). Em segundo lugar, nas fantasias que acompanham a satisfao o objeto sexual  levado a nveis de perfeio dificilmente encontrados na realidade. Um espirituoso 
escritor (Karl Kraus, no jornal vienense Die Fackel) expressou essa mesma verdade, invertendo os seus termos, numa cnica observao: 'A copulao nada mais  do 
que um substituto insatisfatrio da masturbao.'
         
         A severidade das exigncias da civilizao e as dificuldades da abstinncia converteram a proibio da unio de genitais de sexos opostos no cerne do problema 
da abstinncia, favorecendo outros tipos de atividade sexual, equivalentes, por assim dizer, a uma semi-obedincia. Como o coito normal tem sido to implacavelmente 
perseguido pela moral e tambm pela higiene devido s possibilidades de infeco, as prticas sexuais chamadas pervertidas, nas quais outras partes do corpo assumem 
o papel de genitais, aumentaram sem dvida sua importncia social. Entretanto, essas atividades no podem ser consideradas to inofensivas como outras extenses 
anlogas [da meta sexual] nas relaes amorosas. So condenveis do ponto de vista tico, pois degradam as relaes amorosas de dois seres humanos, rebaixando-as 
de uma questo fundamental a um jogo cmodo, livre de riscos e sem nenhuma participao espiritual. Outra conseqncia desse incremento das dificuldades da vida 
sexual normal  a expanso da satisfao homossexual: queles que so homossexuais devido  sua organizao, e aos que passaram a s-lo na infncia, junta-se um 
grande nmero de indivduos em que a obstruo do curso principal de sua libido causou, em anos posteriores, o alargamento do canal secundrio da homossexualidade.
         Todas essas conseqncias inevitveis e indesejadas do preceito da abstinncia convergem para um nico resultado: o completo malogro da preparao para 
o casamento, casamento esse que a moral sexual civilizada pensa ser o nico herdeiro das impulses sexuais. Todo homem cuja libido, em conseqncia de prticas sexuais 
masturbatrias ou pervertidas, acostumou-se a situaes e condies de satisfao anormais apresenta no casamento uma potncia diminuda. Tambm as mulheres que 
puderam preservar sua virgindade com o auxlio de recursos anlogos mostram-se anestesiadas s relaes sexuais normais do casamento, que assim tem incio com ambos 
os cnjuges apresentando uma reduzida capacidade ertica que ir sucumbir ao processo de dissoluo com uma rapidez maior do que os demais. Em conseqncia da fraca 
potncia do marido, a mulher no se satisfaz, permanecendo anestesiada mesmo nos casos onde uma poderosa experincia sexual poderia ter superado sua predisposio 
para a frigidez decorrente de sua educao. Tal casal encontrar maiores dificuldades para impedir a concepo do que um casal saudvel, pois a reduzida potncia 
do marido suporta mal o uso de anticoncepcionais. Nesse embarao, sendo o ato sexual a fonte de todas as suas dificuldades, logo o casal renuncia ao mesmo, e com 
isso abre mo da base de sua vida conjugal.
         
         As pessoas bem informadas sabem que no exagero nessa descrio, e que muitos casos igualmente desastrosos podem ser encontrados a cada momento.  difcil 
para o no iniciado acreditar quo rara  a potncia normal num marido e quo freqente  a frigidez feminina no casal que vive sob o imprio da nossa moral sexual 
civilizada, que grau de renncia exige freqentemente de ambos os cnjuges o casamento e a que limites estreitos fica reduzida a vida conjugal - aquela felicidade 
to ardentemente desejada. J expliquei que nessas circunstncias o desenlace mais bvio  a doena nervosa, mas  preciso tambm assinalar que esse tipo de casamento 
continua a exercer sua influncia sobre os poucos filhos, ou o filho nico, gerado pelo mesmo.  primeira vista, parece um caso de hereditariedade, mas a um exame 
mais apurado comprova-se ser na realidade o efeito de poderosas impresses infantis. Uma esposa neurtica, insatisfeita, torna-se uma me excessivamente terna e 
ansiosa, transferindo para o filho sua necessidade de amor. Dessa forma ela o desperta para a precocidade sexual. Alm disso, o mau relacionamento dos pais excita 
a vida emocional da criana, fazendo-a sentir amor e dio em graus muito elevados ainda em tenra idade. Sua educao rgida, que no tolera qualquer atividade dessa 
vida sexual precocemente despertada, vai em auxlio da fora supressora e esse conflito, em idade to tenra, fornece todos os elementos necessrios ao aparecimento 
de uma doena nervosa que durar toda a vida.
         Retorno agora  minha afirmativa anterior (ver em [1]) de que em geral no se concede s neuroses sua real importncia. No me refiro  subestimao desses 
estados revelada no leviano menosprezo dos parentes e nas presunosas afirmaes dos mdicos de que algumas semanas de tratamento hidroterpico, ou alguns meses 
de repouso e convalescena, produziro a cura. Essas atitudes simplistas de leigos e mdicos ignorantes podem, no mximo, dar ao doente uma ilusria esperana. J 
 sabido, muito ao contrrio, que uma neurose crnica, mesmo que no destrua por completo a capacidade vital do indivduo, representa em sua vida uma sria desvantagem, 
talvez de grau idntico a uma tuberculose ou um defeito cardaco. A situao poderia ser tolervel se as neuroses subtrassem s atividades civilizadas s um certo 
grupo de indivduos mais dbeis, permitindo aos demais participar dessas atividades ao pequeno preo de alguns incmodos subjetivos. Mas como a realidade  bem diversa, 
devo insistir em meu ponto de vista de que as neuroses, quaisquer que sejam sua extenso e sua vtima, sempre conseguem frustrar os objetivos da civilizao, efetuando 
assim a obra das foras mentais suprimidas que so hostis  civilizao. Dessa forma, se uma sociedade paga pela obedincia a suas normas severas com um incremento 
de doenas nervosas, essa sociedade no pode vangloriar-se de ter obtido lucros  custa de sacrifcios; e nem ao menos pode falar em lucros. Consideremos, por exemplo, 
o caso muito comum da esposa que no ama seu marido, pois as condies em que se iniciou seu casamento no lhe deram motivos para estim-lo. Ela, porm, deseja intensamente 
amar esse marido, pois s isso corresponderia ao ideal de casamento em que foi educada. Tal esposa suprimir qualquer impulso que visasse expressar aquela verdade 
e contrariar seu empenho para satisfazer seu ideal, e far intensos esforos para desempenhar o papel de uma esposa amante, terna e cuidadosa. O resultado dessa 
auto-supresso ser uma doena neurtica, e com essa neurose em curto espao de tempo desforrar-se- do marido no amado, causando-lhe tanta insatisfao e incmodo 
quanto lhe teria causado a franca admisso da verdade. Este  um exemplo bem tpico dos efeitos de uma neurose. A supresso dos impulsos hostis  civilizao que 
no so diretamente sexuais acarreta, tambm, um fracasso semelhante na obteno de compensao. Por exemplo, se um homem tornou-se excessivamente bondoso em resultado 
de uma violenta supresso de uma inclinao constitucional para a aspereza e a crueldade, freqentemente perde tanta energia ao realizar isso que no consegue fazer 
tudo que os seus impulsos compensadores exigem, podendo, no final das contas, fazer pior do que teria feito sem a supresso.
         Acrescentemos que a restrio da atividade sexual numa comunidade , em geral, acompanhada de uma intensificao do medo da morte e da ansiedade ante a 
vida que perturba a capacidade do indivduo para o prazer, assim como a disposio de enfrentar a morte por uma causa. O resultado  uma reduo no desejo de gerar 
filhos, privando assim esse grupo ou comunidade de uma participao no futuro. Em vista disso,  justo que indaguemos se a nossa moral sexual 'civilizada' vale o 
sacrifcio que nos impe, j que estamos ainda to escravizados ao hedonismo a ponto de incluir entre os objetivos de nosso desenvolvimento cultural uma certa dose 
de satisfao da felicidade individual. Certamente no  atribuio do mdico propor reformas, mas me pareceu que eu poderia defender a necessidade de tais reformas 
se ampliasse a exposio de Von Ehrenfels sobre os efeitos nocivos de nossa moral sexual 'civilizada', indicando o importante papel que essa moral desempenha no 
incremento da doena nervosa moderna.
         
         
         
         
         














SOBRE AS TEORIAS SEXUAIS DAS CRIANAS (1908)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         BER INFANTILE SEXUALTHEORIEN
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1908 Sexual-Probleme, 4 (12) [dezembro], 763-779.
         1909 S.K.S.N. 2, 159-174. (1912, 2 ed.; 1921, 3 ed.)
         1924 G.S. 5, 168-185.
         1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 43-61.
         1941 G.K., 7, 171-188.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'On the Sexual Theories of Children'
         1924 C.P., 2, 59-75. (Trad. de D. Bryan.)
         
         A presente traduo  uma verso modificada da publicada em 1924.
         
         Este artigo foi publicado pela primeira vez num nmero posterior do mesmo peridico em que apareceu o artigo precedente (ver em [1]). Embora tenha vindo 
a pblico de forma discreta, e embora contenha muito poucas surpresas para o leitor moderno, na verdade apresentou ao mundo uma quantidade aprecivel de idias novas. 
Esse paradoxo torna-se compreensvel ao verificarmos que este artigo foi publicado alguns meses antes do caso clnico do 'Little Hands' (1909b) (embora, como revela 
em [1], esse trabalho j estivesse em reviso) e que a seo dos Trs Ensaios (1905d) sobre 'As Pesquisas Sexuais da Infncia' (ver a partir de [2], 1972) s tenha 
sido acrescentada a essa obra em 1915, oito anos depois da publicao deste artigo, do qual, na realidade, aquela seo  apenas pouco mais que um resumo.  verdade 
que, num artigo anterior sobre 'O Esclarecimento Sexual das Crianas' (1907c), Freud transcreveu algum material do 'Litle Hans' (ver a partir de [1]) e fez um breve 
exame da curiosidade infantil sobre o sexo, chegando a mencionar a existncia de 'teorias sexuais infantis' (ver em [2]) sem discorrer entretanto sobre a sua natureza.
         Aqui os primeiros leitores deste trabalho, quase sem uma preparao, defrontam-se com as idias da fertilizao pela boca, do nascimento pelo nus, das 
relaes sexuais dos pais como algo sdico e da posse de um pnis por membros de ambos os sexos. Essa ltima noo envolveria as implicaes mais extensas, tambm 
mencionadas pela primeira vez nestas pginas: a importncia do pnis para as crianas dos dois sexos, os resultados da descoberta de que um dos sexos no o possui, 
o aparecimento na menina da 'inveja do pnis' e nos meninos do conceito da 'mulher com um pnis', e o papel desse conceito numa forma de homossexualidade. Por fim, 
encontramos aqui a primeira meno e o primeiro exame explcito do 'complexo de castrao', cujo nico prenncio fora uma obscura referncia a uma ameaa de castrao 
em A Interpretao de Sonhos (1900a, ver em [1], 1972).
         O riqussimo material aqui exposto pode, sem dvida, ser em grande parte atribudo s descobertas da anlise do 'Little Hans', cujo relato, recentemente 
terminado, ilustrava e ampliava grande parte do contedo deste artigo.
         
         SOBRE AS TEORIAS SEXUAIS DAS CRIANAS
         
         O material que serve de base a esta sntese procede de vrias fontes. Em primeiro lugar, da observao direta do que as crianas dizem e fazem; em segundo, 
do que neurticos adultos conscientemente lembram de sua infncia e relatam durante o tratamento psicanaltico; e, em terceiro lugar, das tradues e concluses, 
e das lembranas inconscientes traduzidas em material consciente, que resultam da psicanlise de neurticos.
         O fato de que a primeira dessas trs fontes no tenha sido suficiente para fornecer todos os elementos necessrios para o esclarecimento do assunto deve-se 
 atitude do adulto em relao  vida sexual das crianas. No lhes atribuindo nenhuma atividade sexual, o adulto no se esfora por observar seus indcios, suprimindo, 
por outro lado, qualquer manifestao dessa atividade que lhe chame a ateno. Conseqentemente, so muito mais restritas as oportunidades de obter informaes dessa 
que seria a mais frtil e inequvoca das fontes. O que provm das comunicaes espontneas dos adultos a respeito de suas lembranas infantis conscientes est, na 
melhor das hipteses, sujeito  suspeita de uma adulterao no processo de rememorao; ademais, no seu exame deve ser levado em conta que os informantes se tornaram 
neurticos. J o material procedente da terceira fonte ser objeto daquelas crticas usualmente dirigidas contra a fidedignidade da psicanlise e de suas concluses. 
No me  possvel tentar aqui justific-la; e posso apenas assegurar que os que conhecem e praticam a tcnica psicanaltica adquirem uma ampla confiana em suas 
descobertas.
         No garanto ter alcanado resultados perfeitos, mas asseguro que empreguei o mximo cuidado para chegar a eles.
         Uma questo difcil  determinar at que ponto se deve supor que as observaes aqui relatadas a respeito de algumas crianas seja verdade para todas as 
crianas. As presses da educao e a varivel intensidade do instinto sexual certamente permitem grandes variaes individuais no comportamento sexual das crianas, 
e sobretudo influenciam a poca do aparecimento do interesse sexual da criana. Por esse motivo no dividi minha apresentao do material de acordo com os sucessivos 
perodos da infncia, mas reuni numa nica exposio fatos que ocorrem ou mais cedo ou mais tarde em cada criana. Estou convicto de que nenhuma criana - pelo menos 
nenhuma que seja mentalmente normal e menos ainda as bem dotadas intelectualmente - pode evitar o interesse pelos problemas do sexo nos anos anteriores  puberdade.
         
         No dou valor  objeo de que os neurticos constituem uma classe especial, marcada por uma disposio inata 'degenerada', e de cuja vida infantil no 
podemos tirar qualquer concluso sobre a infncia de outras pessoas. Os neurticos so muito semelhantes aos demais homens. No se diferenciam acentuadamente das 
pessoas normais, e na infncia no  fcil distingui-los dos que permanecero sadios em sua vida posterior. Um dos resultados mais valiosos das investigaes psicanalticas 
 a descoberta de que as neuroses de tais indivduos no possuem um contedo mental especial e peculiar, mas que, como Jung j analisou, eles adoecem devido aos 
mesmos complexos com que ns, as pessoas sadias, lutamos. A nica diferena  que as sadias sabem superar esse complexos sem sofrer danos graves e visveis na vida 
prtica, enquanto nos casos nervosos a supresso dos complexos s obtm xito  custa de dispendiosas formaes substitutivas, isto , do ponto de vista prtico 
trata-se de um fracasso Na infncia, as pessoas neurticas e as normais esto naturalmente muito mais prximas do que posteriormente, e assim no considero um erro 
de metodologia utilizar as comunicaes dos neurticos a respeito de sua infncia para delas inferir, por analogia, concluses sobre a vida infantil normal. Mas 
como aqueles que posteriormente se tornam neurticos com freqncia apresentam em sua constituio inata um instinto sexual particularmente forte e uma tendncia 
 precocidade e  expresso prematura desse instinto, eles nos permitem perceber com maior clareza e preciso uma quantidade maior da atividade sexual infantil do 
que nossa embotada faculdade de observao poderia reconhecer em outras coisas. No entanto, certamente s poderemos avaliar de forma correta essas comunicaes de 
adultos neurticos quando, seguindo o exemplo de Havelock Ellis, consideramos proveitoso recolher as lembranas infantis tambm de adultos saudveis.
         Em conseqncia de circunstncias desfavorveis de natureza interna e externa, as observaes que se seguem aplicam-se principalmente ao desenvolvimento 
sexual de apenas um sexo - isto , o masculino. Entretanto, o valor de uma tal compilao no deve ser puramente de natureza descritiva. O conhecimento das teorias 
sexuais infantis, tais como as concebe a mente da criana, pode ter interesse em mais de um sentido - at mesmo, surpreendentemente, para a elucidao dos mitos 
e contos de fadas. Alm disso, so indispensveis para uma compreenso das prprias neuroses, j que nestas ainda atuam as teorias infantis, exercendo uma decisiva 
influncia sobre a forma assumida pelos sintomas.
         Se pudssemos despojar-nos de nossa exigncia corprea e observar as coisas da terra com uma nova perspectiva, como seres puramente pensantes, de outro 
planeta por exemplo, talvez nada despertasse tanto a nossa ateno como o fato da existncia de dois sexos entre os seres humanos, que, embora to semelhantes em 
outros aspectos, assinalam suas diferenas com sinais externos muito bvios. No entanto, no me parece que as crianas tambm tomem esse fato fundamental como ponto 
de partida de suas pesquisas sobre os problemas sexuais. Como suas lembranas mais antigas j incluem um pai e uma me, aceitam a existncia destes como uma realidade 
indiscutvel, e um menino adotar a mesma atitude em relao a uma irmzinha da qual o separam apenas um ou dois anos. O desejo da criana por esse tipo de conhecimento 
no surge espontaneamente, em conseqncia talvez de alguma necessidade inata de causas estabelecidas; surge sob o aguilho dos instintos egostas que a dominam, 
quando  surpreendida - talvez ao fim do seu segundo ano - pela chegada de um novo beb. Tambm a criana cuja famlia no aumentou pode colocar-se na mesma situao 
observando os outros lares. A perda, realmente experimentada ou justamente temida, dos carinhos dos pais e o pressentimento de que, de agora em diante, ter sempre 
de compartilhar seus bens com o recm-chegado despertam suas emoes e aguam sua capacidade de pensamento. A criana mais velha expressa sua franca hostilidade 
ao rival atravs de crticas inamistosas, esperando que 'a cegonha o leve de volta', e s vezes at atravs de pequenas agresses  desamparada criatura que est 
no bero. Quando a diferena de idades  maior, a expresso dessa hostilidade primria  geralmente mais suave. Assim, em idade posterior, se no apareceu um irmo 
ou uma irm menores, o desejo da criana por um companheiro de brinquedos, tal como viu em outras famlias, pode alcanar a primazia.
         Sob a instigao desses sentimentos e preocupaes, a criana comea a refletir sobre o primeiro grande problema da vida e pergunta a si mesma: 'De onde 
vm os bebs?' - indagao cuja forma original certamente era: 'De onde veio esse beb intrometido?' Parece-nos que ouvimos os ecos desse primeiro enigma nos inmeros 
enigmas dos mitos e lendas. Essa pergunta , como toda pesquisa, o produto de uma exigncia vital, como se ao pensamento fosse atribuda a tarefa de impedir a repetio 
de eventos to temidos. Suponhamos, entretanto, que o pensamento infantil logo se torne independente dessa instigao e passe a operar como um instinto auto-sustentado 
de pesquisa. Quando a criana no foi demasiadamente intimidada, mais cedo ou mais tarde recorre ao mtodo direto de exigir uma resposta dos pais ou dos que cuidam 
dela, que representam a seus olhos a fonte de todo o conhecimento. Esse mtodo, entretanto, falha. A criana recebe respostas evasivas, ou repreenses por sua curiosidade, 
ou ainda  despedida com a explicao mitolgica que, nos pases germnicos,  a seguinte: 'A cegonha traz os bebs; ela os retira da gua.' Tenho motivos para acreditar 
que o nmero de crianas que no se satisfazem com essa soluo, recebendo-a com fortes dvidas que entretanto no admitem abertamente,  bem maior do que os pais 
supem. Sei de um menino de trs anos que, aps receber essa informao, desapareceu - para terror de sua ama. Foi encontrado  margem de um grande lago que ficava 
perto da casa, para onde acorrera a fim de ver os bebs que estavam dentro d'gua.
         Sei tambm de outro menino que s conseguiu expressar sua dvida retrucando timidamente que no era uma cegonha que trazia os bebs, mas sim uma gara. 
De um grande nmero de informaes que reuni, deduzi que as crianas se recusam a crer na teoria da cegonha e que, a partir dessa primeira decepo, comeam a desconfiar 
dos adultos e a suspeitar que estes lhe escondem algo proibido, passando como resultado a manter em segredo suas investigaes posteriores. Com isso, entretanto, 
a criana experimenta o seu primeiro 'conflito psquico', pois certas concepes pelas quais sente uma preferncia instintual no so consideradas corretas pelos 
adultos e contrapem-se a outras defendidas pela autoridade dos mais velhos, as quais, entretanto, no lhe parecem aceitveis. Esse conflito psquico logo pode transformar-se 
numa 'dissociao psquica'. O conjunto de concepes consideradas 'boas', mas que resultam numa cessao da reflexo, torna-se o conjunto das concepes dominantes 
e conscientes, enquanto o outro conjunto, a favor do qual o trabalho de investigao infantil coligiu novas provas, as quais entretanto no devem ser consideradas, 
torna-se o conjunto das opinies reprimidas e inconscientes. Est assim formado o complexo nuclear de uma neurose.
         Recentemente, a anlise de um menino de cinco anos, feita pelo pai e a mim confiada para publicao, forneceu-me a confirmao irrefutvel da correo de 
uma concepo que h muito inferi da psicanlise de adultos. Sei agora que as alteraes sofridas pela me no decurso da gravidez no escapam aos olhos aguados 
da criana, e que esta  perfeitamente capaz de logo estabelecer uma relao entre o aumento de volume materno e o aparecimento do beb. No caso que citei acima, 
o menino tinha trs anos e meio quando nasceu a irm, e quatro anos e nove meses quando revelou o seu conhecimento por meio de claras aluses. Essa descoberta precoce, 
entretanto,  sempre conservada em segredo e mais tarde reprimida e esquecida, de acordo com as posteriores vicissitudes das pesquisas sexuais da criana.
         A 'fbula da cegonha', portanto, no  uma das teorias sexuais da criana. Sua descrena nela , ao contrrio, fortalecida pela observao dos animais, 
que to pouco dissimulam sua vida sexual e aos quais ela se sente to intimamente ligada. Com o conhecimento de que os bebs crescem no interior do corpo da me, 
conhecimento a que chegou por si s, a criana estaria no caminho certo para solucionar o primeiro problema a que aplica suas energias mentais. No entanto, seu progresso 
 inibido pela ignorncia que no pode ser confirmada (ver a partir de [1]) e pelas falsas teorias que lhe so impostas por sua prpria sexualidade.
         Essas teorias sexuais falsas, que agora examinei, possuem uma caracterstica muito curiosa: embora cometam equvocos grotescos, cada uma delas contm um 
fragmento da verdade, no que se assemelham s tentativas dos adultos, que consideramos geniais, para decifrar os problemas do universo, que so to complexos para 
a compreenso humana. A parte dessas teorias que  correta e atinge o alvo provm dos componentes do instinto sexual que j atuam no organismo infantil. No surge 
de um ato mental arbitrrio ou de impresses casuais, mas das necessidades da constituio psicossexual da criana, motivo pelo qual podemos falar de teorias sexuais 
infantis tpicas, e pelo qual encontramos as mesmas crenas errneas em todas as crianas a cuja vida sexual temos acesso.
         A primeira dessas teorias deriva do desconhecimento das diferenas entre os sexos a que me referi no incio deste artigo (ver a partir de [1]) como uma 
caracterstica infantil. Consiste em atribuir a todos, inclusive s mulheres, a posse de um pnis, tal como o menino sabe a partir de seu prprio corpo.  justamente 
na constituio sexual que devemos encarar como 'normal' que, j na infncia, o pnis  a principal zona ergena e o mais importante objeto sexual auto-ertico. 
O alto valor que o menino lhe concede reflete-se naturalmente em sua incapacidade de imaginar uma pessoa semelhante a ele que seja desprovida desse constituinte 
essencial. As palavras de um menino pequeno quando v os genitais de sua irmzinha demonstram que o seu preconceito j  suficientemente forte para falsear uma percepo. 
Ele no se refere  ausncia do pnis, mas comenta invariavelmente, com inteno consoladora: 'O dela ainda  muito pequeno, mas vai aumentar quando ela crescer.' 
A idia de uma mulher com pnis retorna mais tarde, nos sonhos dos adultos; o indivduo que sonha, num estado de excitao sexual noturna, subjuga a mulher, despoja-a 
de suas vestes, mas quando vai realizar o coito v no lugar dos genitais femininos um pnis bem desenvolvido, e pe fim ao sonho e  excitao. Os numerosos hermafroditas 
da Antigidade clssica reproduzem fielmente essa idia generalizada na infncia. Embora tais imagens no repugnem  maioria das pessoas normais, os exemplos reais 
de hermafroditismo que ocorrem na natureza despertam sempre o maior asco.
         Se um indivduo na infncia 'fixa' essa idia da mulher com um pnis, tornar-se-, resistindo a todas as influncias dos anos posteriores, incapaz de prescindir 
de um pnis no seu objeto sexual, e, embora em outros aspectos tenha uma vida sexual normal, est fadado a tornar-se um homossexual, indo procurar seu objeto sexual 
entre os homens que, devido a caractersticas fsicas e mentais, lembram a mulher. Quando, mais tarde, vem a conhecer mulheres, elas j no podem mais ser para ele 
objetos sexuais porque carecem da atrao sexual bsica; na verdade, em conexo com uma outra impresso de sua vida infantil, elas podem causar-lhe repugnncia. 
O menino, no qual dominam principalmente as excitaes do pnis, costuma obter prazer estimulando esse rgo com a mo. Seus pais e sua ama o surpreenderam nesse 
ato e o intimidam com a ameaa de cortar-lhe o pnis. O efeito dessa 'ameaa de castrao'  proporcional ao valor conferido ao rgo, sendo extraordinariamente 
profundo e persistente. As lendas e os mitos atestam o transtorno da vida emocional e todo o horror ligado ao complexo de castrao, complexo este que ser subseqentemente 
lembrado com grande relutncia pela conscincia. Os genitais femininos, vistos mais tarde, so encarados como um rgo mutilado e trazem  lembrana aquela ameaa, 
despertando assim horror, em vez de prazer, no homossexual. Essa reao no sofre nenhuma alterao quando o homossexual, atravs da cincia, vem a saber que a suposio 
infantil que atribui um pnis  mulher no  assim to errada. A anatomia reconheceu no clitris situado no interior da vulva feminina um rgo homlogo ao pnis, 
e a fisiologia dos processos sexuais acrescenta que esse pequeno pnis, que no aumenta de tamanho, comporta-se na realidade, durante a infncia, como um pnis genuno 
- torna-se a sede de excitaes que fazem com que ele seja tocado, e a sua excitabilidade confere  atividade sexual da menina um carter masculino, sendo necessria 
uma vaga de represso nos anos da puberdade para que desaparea essa sexualidade masculina e surja a mulher. Como a funo sexual de muitas mulheres apresenta-se 
reduzida, seja por seu obstinado apego a essa excitabilidade do clitris, de modo a permanecerem anestesiadas durante o coito, seja por uma represso to excessiva 
que seu funcionamento  em parte substitudo por formaes compensatrias histricas - tudo isso parece mostrar que existe uma dose de verdade na teoria sexual infantil 
de que as mulheres possuem, como os homens, um pnis.
         Observa-se com facilidade que as meninas compartilham plenamente a opinio que seus irmos tm do pnis. Elas desenvolvem um vivo interesse por essa parte 
do corpo masculino, interesse que  logo seguido pela inveja. As meninas julgam-se prejudicadas e tentam urinar na postura que  possvel para os meninos porque 
possuem um pnis grande; e quando uma delas declara que 'preferiria ser um menino', j sabemos qual a deficincia que desejaria sanar.
         Se as crianas seguissem as pistas fornecidas pela excitao do pnis, chegariam bem mais perto da soluo do seu problema. Que o beb se forma dentro do 
corpo da me no  obviamente uma explicao suficiente. Como ele chega l dentro? O que provoca o seu desenvolvimento? Parece lgico que o pai tenha alguma coisa 
a ver com isso, pois diz que o beb tambm  dele. O pnis tambm desempenha certamente algum papel nesses misteriosos acontecimentos, como comprova a excitao 
desse rgo que acompanha tais atividades mentais da criana. A essa excitao associam-se impulses que a criana no consegue explicar, compulses obscuras a um 
ato violento, a esmagar ou romper qualquer coisa, a abrir um buraco em algum lugar. Mas quando parecesse assim bem encaminhada para descobrir a existncia da vagina 
e inferir que a penetrao do pnis paterno na me foi o ato que gerou o beb no corpo desta - nesse momento crtico, a criana perplexa e impotente  obrigada a 
interromper sua investigao. O obstculo que impede que ela descubra a existncia de uma cavidade que acolhe o pnis  a sua prpria teoria de que a me possui 
um pnis, como um homem. No  difcil concluir que o malogro de seus esforos intelectuais o faz rejeit-los e esquec-los. Essas hesitaes e dvidas tornam-se, 
entretanto, o prottipo de todo o seu trabalho intelectual posterior aplicado  soluo de problemas, tendo esse primeiro fracasso um efeito cerceante sobre todo 
o futuro da criana.
         A ignorncia da vagina tambm permite s crianas acreditar na segunda de suas teorias sexuais. Se o beb se desenvolve no corpo da me, sendo ento retirado, 
isto s pode acontecer atravs de um nico caminho: a passagem anal. O beb precisa ser expelido como excremento, numa evacuao. Quando, na infncia posterior, 
a mesma questo  assunto de reflexo solitria ou de discusso entre duas crianas, as explicaes encontradas so de que o beb sai pelo umbigo, que se abre, ou 
atravs de um corte na barriga - que foi o que aconteceu com o lobo na histria do Chapeuzinho Vermelho. Essas teorias so expressas em voz alta e depois lembradas 
conscientemente, pois nada contm de censurvel. Essas mesmas crianas j esqueceram completamente que em anos anteriores acreditaram em outra teoria do nascimento, 
agora obliterada pela represso, ocorrida nesse intervalo, dos componentes sexuais anais. Naquela poca a criana podia falar em evacuao sem envergonhar-se, no 
estando ainda to distanciada de suas inclinaes coprfilas constitucionais. A idia de vir ao mundo como uma massa de fezes no era degradante, no tendo sido 
ainda condenada por sentimentos de repugnncia. A teoria cloacal, que afinal  vlida para tantos animais, era a teoria mais natural, a nica que poderia parecer 
provvel  criana.
         Sendo assim, entretanto, era apenas lgico que a criana negasse s mulheres o doloroso privilgio de dar  luz bebs. Se estes nascem pelo nus, um homem 
pode parir to bem quanto uma mulher. Portanto,  possvel que o menino imagine que tambm ele tenha filhos, sem que por isto tenhamos de lhe atribuir inclinaes 
femininas. Com isso ele apenas revela o erotismo anal nele ainda atuante.
         Se a teoria cloacal do nascimento  preservada na conscincia nos anos posteriores da infncia, como s vezes sucede, a ela se associa uma soluo, agora 
no mais primria, da questo da origem dos bebs. Essa soluo  semelhante  dos contos de fadas: a ingesto de uma determinada comida ocasiona a concepo de 
uma criana. Essa teoria infantil do nascimento  revivida em casos de insanidade. Uma mulher manaca, por exemplo, ir mostrar ao mdico atendente as fezes que 
defecara a um canto da cela e dizer-lhe com uma gargalhada: 'eis o beb que tive hoje.'
         A terceira das teorias sexuais tpicas surge nas crianas quando, por qualquer circunstncia domstica, elas testemunham acidentalmente uma relao sexual 
entre os pais. Sua percepo dos acontecimentos  fatalmente muito incompleta. Quaisquer que tenham sido os detalhes que atraram sua ateno - as posies das duas 
pessoas, os rudos ou qualquer circunstncia acessria -, a criana chega sempre  mesma concluso, adotando o que se poderia chamar de uma concepo sdica do coito. 
Ela o encara como um ato imposto violentamente pelo participante mais forte ao mais fraco. No caso do menino, principalmente, compara-o aos brinquedos violentos 
da infncia, que lhe so to familiares, e dos quais no est ausente uma certa dose de excitao sexual. No consegui certificar-me se a criana v, neste comportamento 
que testemunhou entre seus pais, o elo que lhe faltava para solucionar o problema dos bebs.  bem provvel que no percebam essa conexo pelas simples razo de 
que interpretam o ato de amor como sendo um ato de violncia. No entanto, essa concepo d a impresso de um retorno ao obscuro impulso para um comportamento cruel 
que se associou s excitaes do pnis da criana no momento em que ela principiou a refletir sobre a origem dos bebs (ver em [1]). No podemos tambm excluir a 
possibilidade de que esse impulso sdico prematuro, que quase levou  descoberta do coito, emergiu sob a influncia de lembranas extremamente obscuras das relaes 
sexuais dos pais, cujo material, no utilizado na poca, foi obtido pela criana em seus primeiros anos, quando ainda compartilhava do quarto dos pais.
         A teoria sdica do coito, que tomada isoladamente  enganosa, quando poderia fornecer provas corroborativas,  tambm a expresso de um dos componentes 
inatos do instinto sexual, componentes que podem ser mais ou menos vigorosos segundo a criana. Por esse motivo, a teoria  at certo ponto correta, pois adivinhou 
parcialmente a natureza do ato sexual e da 'batalha do sexo' que o precede. Algumas vezes a criana pode confirmar essa teoria por meio de observaes acidentais, 
que em parte compreende corretamente, mas em parte incorretamente, e at mesmo no sentido inverso. Em muitos casamentos a esposa de fato resiste ao abrao do marido, 
que no lhe causa prazer, mas sim o risco de uma nova gravidez. E assim a criana que julgam adormecida (ou que se finge adormecida) pode ficar com a impresso de 
que sua me se defendia de um ato de violncia. Outras vezes o casamento oferece  observadora criana o espetculo de brigas contnuas, expressas em palavras duras 
e gestos inamistosos. Assim, ela no se surpreende se o conflito continua  noite, sendo por fim encerrado pelo mtodo que ela prpria utiliza em sua relao com 
os irmos e irms ou companheiros de brinquedos.
         Em acrscimo, se a criana descobre manchas de sangue na cama da me ou em suas roupas ntimas, considera-se como uma confirmao de suas concepes. Para 
ela so provas de que o pai tornou a agredir a me  noite (ao passo que interpretaramos essas manchas como indcio de uma interrupo temporria das relaes sexuais). 
Grande parte do 'horror ao sangue' dos neurticos s  explicvel atravs dessa conexo. Uma vez mais, porm, o engano infantil contm um fragmento da verdade, pois, 
em certas circunstncias que nos so familiares, os vestgios de sangue so na verdade interpretados como um sinal de iniciao sexual.
         Uma outra questo indiretamente relacionada com o problema insolvel da origem dos bebs atrai tambm a ateno da criana: a questo da natureza e do contedo 
do estado de casamento. Ela responder de formas diversas a essa questo, conforme os instintos nela ainda revestidos de prazer tenham coincidido com suas percepes 
fortuitas dos pais. Contudo, todas essas respostas tm em comum o fato de que a criana v no casamento uma promessa de prazer e acredita que esse prazer esteja 
relacionado com uma ausncia de pudor. O conceito que encontrei com maior freqncia foi que os casados urinam um em frente do outro. Uma variao que parece incluir 
simbolicamente um maior conhecimento  que o homem urina no urinol da mulher. Para outras crianas o casamento significa que as duas pessoas mostram seus traseiros 
um ao outro (sem sentir vergonha). Uma menina de quatorze anos, j menstruada, de quem a educao conseguira afastar o conhecimento sexual, deduziu da leitura de 
alguns livros que o casamento consistia na 'mistura de sangue'; como sua prpria irm ainda no iniciara seus perodos, a jovem tentou uma agresso sexual a uma 
visitante que confessara estar menstruada no momento, para for-la a participar dessa 'mistura de sangue'.
         As teorias infantis a respeito do casamento, retidas com freqncia pela memria consciente, tm grande significao na sintomatologia de doenas neurticas 
posteriores. A princpio elas so expressas pelos jogos infantis nos quais a criana faz com uma outra aquilo que a seu ver constitui o casamento; mais tarde, o 
desejo de ser casado pode expressar-se de uma forma infantil e aparecer numa fobia,  primeira vista inexplicvel, ou em algum sintoma correlato.
         Estas parecem ser as mais importantes das teorias sexuais tpicas concebidas espontaneamente pela criana nos primeiros anos da infncia, sob a nica influncia 
dos componentes do instinto sexual. Sei que no consegui tornar seu material completo, nem estabelecer uma relao contnua entre ele e o resto da vida infantil. 
No entanto, devo acrescentar algumas observaes suplementares cuja ausncia seria notada por pessoas bem informadas. Existe assim, por exemplo, a importante teoria 
de que a criana  gerada num beijo - teoria que obviamente revela a predominncia da zona ergena da boca. Que eu saiba, essa teoria  exclusivamente feminina e 
algumas vezes mostra-se patognica em meninas cujas pesquisas sexuais foram sujeitadas a inibies fortssimas na infncia. Uma das minhas pacientes, por meio de 
uma observao fortuita, chegou  teoria da 'couvade', que como se sabe  um costume generalizado entre alguns povos, e cuja finalidade era provavelmente desfazer 
as dvidas quanto  paternidade, que nunca podem ser totalmente afastadas. Um tio dessa paciente, meio excntrico, costumava permanecer em casa por vrios dias aps 
os partos de sua mulher, recebendo os visitantes de roupo, fato que a levou  concluso de que tanto o pai como a me participavam do nascimento da criana e precisavam 
repousar.
         Mais ou menos aos dez ou onze anos as crianas comeam a ouvir falar de assuntos sexuais. Uma criana que cresceu numa atmosfera social menos inibida, ou 
que teve melhores oportunidades de observao, conta s outras aquilo que sabe, pois isso a faz sentir-se amadurecida e superior. Os conhecimentos que as crianas 
adquirem dessa forma so na maior parte corretos, isto , elas descobrem a existncia da vagina e sua finalidade; no mais, porm, as revelaes que trocam entre 
si so freqentemente mescladas com idias falsas e resduos de teorias sexuais infantis anteriores. Essas revelaes que nunca so completas ou suficientes para 
resolver o problema bsico. Agora  o desconhecimento do smen, como era anteriormente o desconhecimento da vagina, o obstculo para a compreenso de todo o processo. 
A criana no pode adivinhar que o rgo sexual masculino excreta outra substncia que no a urina. Ocasionalmente uma jovem 'inocente' ainda fica indignada na noite 
de npcias pelo fato de o marido 'urinar dentro dela'. A essa informao adquirida nos anos pr-puberdade seguem-se novas tentativas de investigao sexual por parte 
da criana, mas as teorias que ela agora concebe no tm mais aquele carter tpico e original das teorias primitivas dos primrdios da infncia, quando os componentes 
sexuais infantis podiam ser expressos sem inibies e sem alteraes. Os esforos intelectuais posteriores das crianas para decifrar os enigmas do sexo no me parecem 
dignos de ateno, nem possuir alguma significao patognica. Sua variedade depende sem dvida principalmente da natureza do esclarecimento que a criana recebe, 
mas sua significao reside antes no fato de despertarem os traos, que se tornaram inconscientes, do primeiro perodo infantil de interesse sexual. Assim  freqente 
que a essas investigaes se associe uma atividade sexual masturbatria e um certo grau de afastamento emocional dos pais. Da o juzo condenatrio de alguns professores 
de que o esclarecimento nessa idade 'corrompe' as crianas.
         Vou oferecer-lhes agora alguns exemplos que mostram quais os elementos que integram essas especulaes tardias das crianas sobre a vida sexual. Uma menina 
soubera por seus colegas que o marido d  esposa um ovo que ela choca no interior do corpo. Um menino, ao ouvir a mesma histria, identificou esse ovo com o testculo, 
que [em alemo]  vulgarmente conhecido pela mesma palavra [Ei]; e empregou todos os esforos mentais para descobrir como o contedo do escroto poderia ser constantemente 
renovado. A informao recebida raramente  suficiente para prevenir o aparecimento de dvidas importantes sobre os efeitos sexuais. Assim, uma menina pode imaginar 
que o coito s ocorreu uma nica vez, durando entretanto muito tempo, vinte e quatro horas, e que todos os bebs do casal provm dessa nica ocasio. Poder-se-ia 
supor que essa criana obteve seus conhecimentos dos processos reprodutivos de certos insetos, mas essa hiptese no se confirmou; a teoria emergira como uma criao 
espontnea. Outras meninas ignoram a durao da gestao, a vida no tero, e supem que o beb aparece imediatamente aps a primeira noite das relaes sexuais. 
Marcel Prvost utilizou esse equvoco juvenil numa divertida histria que aparece em uma das suas 'Lettres de femmes'.As pesquisas sexuais posteriores de crianas, 
ou de adolescentes que permaneceram no estdio infantil, oferecem um tema quase inexaurvel, que apresenta um certo interesse geral, mas que no momento est um tanto 
fora do meu interesse. Devo ainda assinalar que nesse setor as crianas produzem muitas idias errneas a fim de refutar conhecimento mais antigo e mais preciso 
que se tornou inconsciente e reprimido.
         O modo pelo qual as crianas reagem  informao recebida tambm  significativo. Em algumas a represso sexual est to adiantada que elas no do ouvidos 
a nada; essas crianas conseguem permanecer ignorantes mesmo na vida adulta - aparentemente ignorantes, pelo menos - at que, na psicanlise de neurticos, o conhecimento 
originado na primeira infncia vem  luz. Sei tambm de dois meninos entre dez e treze anos que, ao receberem informaes sexuais, rejeitaram-nas com as seguintes 
palavras: 'Seu pai e outras pessoas podem fazer isso, mas tenho certeza de que meu pai nunca o faria.' Mas por mais diversas que sejam as reaes posteriores das 
crianas  satisfao de sua curiosidade sexual, podemos supor que nos primeiros anos da infncia sua atitude era absolutamente uniforme, e ter a certeza de que 
nesse perodo todas elas tentaram ansiosamente descobrir o que os pais faziam um com o outro para terem bebs.
         
         
         













ALGUMAS OBSERVAES GERAIS SOBRE ATAQUES HISTRICOS (1909 [1908])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         ALLGEMEINES BER DEN HYSTERISCHEN ANFALL
         
         (a) EDIES ALEMS:
         (1908 Data provvel da redao.)
         1909 Z. Psychother. med. Psychol., 1 (1) [Janeiro], 10-14.
         1909 S.K.S.N., 2, 146-150. (1912, 2 ed.; 1921, 3 ed.)
         1924 G.S., 5, 255-260.
         1941 G.W., 7, 235-240.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'General Remarks on Hysterical Attacks'
         1924 C.P., 2 100-104. (Trad. de D. Bryan.)
         
         A presente traduo, com um ttulo ligeiramente alterado,  uma verso modificada da publicada em 1924.
         
         Freud escreveu este artigo a pedido de Albert Moll para o primeiro nmero de um novo peridico fundado pelo mesmo. Alguns meses antes, a 8 de abril de 1908, 
Freud discorrera sobre o mesmo assunto numa reunio da Sociedade Psicanaltica de Viena. A ltima vez em que o discutira fora na Seo IV da 'Comunicao Preliminar' 
(1893a) de Breuer e Freud aos Estudos sobre a Histeria. O presente artigo  uma dessas obras extremamente condensadas, quase esquemticas, em que podemos perceber 
as sementes de posteriores desenvolvimentos. (Ver especialmente a Seo B). S vinte anos mais tarde, porm, Freud retornou ao tema dos ataques histricos, ao examinar 
os ataques 'epilpticos' de Dostoievski (1928b).
         
         
         
         
         
         
         ALGUMAS OBSERVAES GERAIS SOBRE ATAQUES HISTRICOS
         
         Ao empreendermos a psicanlise de uma paciente histrica cuja enfermidade manifesta-se atravs de ataques, logo nos convencemos de que tais ataques no 
passam de fantasias traduzidas para a esfera motora, projetadas sobre a motilidade e representadas por meio de mmica.  verdade que as fantasias so inconscientes, 
mas, com exceo desse detalhe, so da mesma natureza das fantasias que podem ser observadas diretamente nos devaneios ou que podemos inferir da interpretao dos 
sonhos noturnos. Muitas vezes um sonho pode substituir um ataque, e ainda mais freqentemente explicar o mesmo, j que a mesma fantasia se expressa de formas diversas 
no sonho e no ataque. Poderamos supor que, pela observao de um ataque, vissemos a descobrir a fantasia nele representada, mais isso  raro. Via de regra, devido 
 influncia da censura, a representao mmica da fantasia sofre distores idnticas s distores alucinatrias do sonho, de forma que ambas se tornam incompreensveis 
tanto para a conscincia do indivduo como para a compreenso do observador. O ataque histrico, portanto, deve ser submetido  mesma reviso interpretativa que 
empregamos para os sonhos noturnos, pois tanto as foras que do origem  distoro, como a finalidade dessa distoro e a tcnica nela empregada so as mesmas que 
deduzimos da interpretao dos sonhos.
         (1) O ataque torna-se ininteligvel por representar simultaneamente vrias fantasias em um mesmo material, ou seja, atravs da condensao. Os elementos 
comuns s duas (ou mais) fantasias constituem o ncleo da representao, como sucede nos sonhos. As fantasias que assim coincidem so sempre de naturezas bem diversas, 
podendo, por exemplo, consistir num desejo recente e numa reativao de uma impresso infantil. As mesmas inervaes servem ento s duas finalidades, muitas vezes 
de forma bastante engenhosa. Nos pacientes histricos que utilizam em alto grau a condensao, uma nica forma de ataque pode ser suficiente; outros expressam suas 
numerosas fantasias patognicas atravs da multiplicidade das formas de ataque.
         (2) O ataque torna-se obscuro pelo fato de o paciente tentar realizar as atividades de ambas as figuras que aparecem na fantasia, ou seja, por meio de uma 
identificao mltipla. Confira-se, por exemplo, o caso que mencionei em meu artigo sobre 'Fantasias Histricas e sua Relao com a Bissexualidade' (1908a), no qual 
a paciente tentava despojar-se de suas vestes com uma das mos (como homem) enquanto as retinha com a outra (como mulher).
         (3) Uma inverso antagnica de inervaes, processo anlogo  transformao de um elemento em seu oposto, comum no trabalho onrico, acarreta tambm uma 
distoro muito ampla. Um abrao, por exemplo, pode ser representado no ataque pelo esticar convulsivo dos braos para trs at que as mos se tocam no plano da 
coluna vertebral.  bem possvel que o conhecido arc de cercle que ocorre nos ataques histricos graves seja apenas uma anloga e enrgica rejeio, atravs de uma 
inervao antagnica, de uma postura do corpo adequada para a relao sexual.
         (4) Quase to desorientadora e enganosa  a inverso da ordem cronolgica na fantasia que  representada, a qual tambm tem seu correspondente em certos 
sonhos que comeam com o final da ao e terminam com seu incio. Vamos supor, por exemplo, que uma mulher histrica tem uma fantasia de seduo na qual se encontra 
sentada lendo num parque, com a saia ligeiramente erguida, de modo a mostrar o p. Um cavalheiro aproxima-se e dirige-lhe a palavra; os dois vo para um lugar qualquer 
e se entregam a carcias amorosas. A atuao da fantasia no ataque inicia-se com convulses que correspondem ao coito. Em seguida a mulher se levanta, dirige-se 
a um outro aposento, senta-se lendo um livro e dali a pouco responde a uma observao imaginria dirigida a ela.
         As duas ltimas formas de distoro acima descritas nos do alguma idia da intensidade das resistncias que o material reprimido precisa levar em conta 
mesmo quando irrompe atravs de um ataque histrico.
         
         
         O desencadeamento de ataques histricos segue leis de fcil compreenso. Como o complexo reprimido consiste numa catexia libidinal e num contedo ideativo 
(a fantasia), o ataque pode ser determinado (1) associativamente, quando o contedo do complexo (se suficientemente catexizado)  atingido por um acontecimento da 
vida consciente a ele ligado; (2) organicamente, quando por razes somticas internas resultantes de influncias psquicas externas a catexia libidinal eleva-se 
acima de um determinado nvel; (3) a servio do objetivo primrio, como uma expresso da 'fuga para a doena', quando a realidade torna-se penosa ou temvel, isto 
, como um consolo; (4) a servio de objetivos secundrios aos quais a doena se alia para que atravs do ataque o paciente atinja uma meta til para ele. Neste 
ltimo caso o ataque  endereado a determinados indivduos, podendo ser adiado at que estes estejam presentes e dando a impresso de ser conscientemente simulado.
         
         A investigao da histria infantil de pacientes histricos mostra que o ataque histrico destina-se a substituir uma satisfao auto-rotica praticada 
no passado e  qual o indivduo renunciou. Num grande nmero de casos essa satisfao (masturbao por contato ou por presso das coxas, movimentos da lngua, etc.) 
repete-se durante o ataque, enquanto a conscincia do indivduo est defletida. Ademais, o desencadeamento de um ataque que  devido a um aumento da libido e que 
est a servio do objeto primrio - na qualidade de consolo - repete exatamente as condies em que numa poca anterior o paciente procurava intencionalmente essa 
satisfao auto-ertica. A anamnese do paciente revela os seguintes estdios: (a) satisfao auto-ertica, sem contedo ideativo; b) a mesma satisfao, em conexo 
com uma fantasia que leva ao ato de satisfao (c) renncia ao ato, com a permanncia da fantasia; (d) represso da fantasia, que ento se manifesta atravs do ataque 
histrico, ou em uma forma inalterada ou numa forma modificada e adaptada s novas impresses do meio. Alm disso, (e) a fantasia pode at restabelecer o ato de 
satisfao ao qual se abdicara aparentemente. Eis aqui um ciclo tpico de atividade sexual infantil: represso, malogro da represso e retorno do reprimido.
         A incontinncia urinria certamente no  incompatvel com o diagnstico de ataque histrico, j que no faz seno repetir uma forma infantil de poluo 
violenta. Em casos inequvocos de histeria tambm pode acontecer de o indivduo morder a lngua, ato to compatvel com a histeria quanto com os jogos amorosos, 
e que ocorre com maior freqncia quando o mdico alerta o paciente para as dificuldades de estabelecer um diagnstico diferencial. Em ataques histricos (mais freqentes 
entre homens) pode ocorrer um autoferimento que repete um acidente da vida infantil - como, por exemplo, as conseqncias de um folguedo violento.
         A perda de conscincia num ataque histrico, a 'absence', deriva-se do fugaz mas inegvel lapso de conscincia que se observa no clmax de toda satisfao 
sexual intensa, inclusive as auto-erticas. Esse curso de desenvolvimento pode ser delineado com mais certeza onde as absences histricas surgem a partir do desencadeamento 
de polues em jovens do sexo feminino. Os chamados 'estados hipnides' - absences durante os devaneios -, to comuns entre indivduos histricos, revelam a mesma 
origem. O mecanismo dessas absences  comparativamente simples. Toda a ateno do indivduo fica concentrada inicialmente no curso do processo de satisfao; quando 
esta ocorre, toda essa catexia de ateno  subitamente removida, da resultando um momentneo vazio na conscincia. Esse vazio, que se poderia qualificar de fisiolgico, 
amplia-se a servio da represso para tragar tudo aquilo que a instncia repressora rejeita.
         
          o mecanismo reflexo do coito que mostra o caminho para a descarga motora da libido reprimida em um ataque histrico - mecanismo este pronto a operar em 
todos, inclusive nas mulheres, e que vemos em operao manifesta quando o indivduo se entrega sem restries  atividade sexual. J na Antiguidade o coito era descrito 
como uma 'pequena epilepsia'. Alterando isso um pouco, podemos dizer que um ataque histrico convulsivo  equivalente de um coito. A analogia com um ataque epilptico 
 de pouca valia, pois a gnese deste  ainda mais obscura do que a dos ataques histricos.
         Encarando o conjunto, os ataques histricos, assim como a histeria em geral, revivem uma parcela da atividade sexual das mulheres que existiu durante sua 
infncia e que naquele perodo revelava um carter essencialmente masculino. Podemos observar com freqncia que aquelas jovens que mostravam natureza e tendncias 
masculinas nos anos anteriores  puberdade, so justamente as que se tornam histricas da em diante. Em grande nmero de casos a neurose histrica representa apenas 
uma intensificao excessiva daquele influxo tpico de represso que, apagando a sexualidade masculina, permite o aparecimento da mulher.
         
         
         
         











ROMANCES FAMILIARES (1909 [1908])


NOTA DO EDITOR INGLS

DER FAMILIENROMAN DER NEUROTIKER

(a) EDIES ALEMS:

(1908 Data provvel de redao.)
1909 Em O. Rank, Der Mythus von der Geburt des Helden, 64-8, Leipzig e Viena: Deuticke. (1922, 2 ed., 82-6.)
1931 Neurosenlehre und Technik, 300-4.
1934 G.S., 12, 367-71.
1934 Psychoan. Pd., 8, 281-5.
1941 G.W., 7, 227-31.

(b) TRADUES INGLESAS:
1913 Em Rank, Myth of the Birth of the Hero, J. Nerv. Ment. Dis. 40, 668-71, 718-19. (Trad. de S. E.)
'Family Romances'
1914 A mesma, em formato de livro, 63-8. Nova Iorque: Nervous and Mental Diseases Publishing Co.
'Family Romances'
1950 C.P., 5, 74-8. (Trad. de James Strachey.)
         
         A presente traduo  uma reimpresso, ligeiramente modificada, da publicada em 1950.
         
         Quando este artigo foi publicado pela primeira vez, no livro de Rank, no tinha qualquer ttulo, nem formava uma seo separada. Foi simplesmente inserido 
no correr do texto de Rank com algumas palavras de agradecimento. S veio a receber um ttulo em alemo em sua primeira reimpresso. Como o prefcio ao livro de 
Rank est datado 'Natal, 1908',  provvel que a contribuio de Freud tenha sido escrita nesse ano. H muito Freud descobrira esses 'romances familiares', como 
os designara, embora inicialmente os atribusse especialmente aos paranicos. Ver suas cartas a Fliess de 24 de janeiro e 25 de maio de 1897 e de 20 de junho de 
1898 (Freud, 1950a, Carta 57, Rascunho M, e Carta 91, onde o termo  usado pela primeira vez).
         
         ROMANCES FAMILIARES
         
         Ao crescer, o indivduo liberta-se da autoridade dos pais, o que constitui um dos mais necessrios, ainda que mais dolorosos, resultados do curso do seu 
desenvolvimento. Tal liberao  primordial e presume-se que todos os que atingiram a normalidade lograram-na pelo menos em parte. Na verdade, todo o progresso da 
sociedade repousa sobre a oposio entre as geraes sucessivas. Existe, porm, uma classe de neurticos cuja condio  determinada visivelmente por terem falhado 
nessa tarefa.
         Os pais constituem para a criana pequena a autoridade nica e a fonte de todos os conhecimentos. O desejo mais intenso e mais importante da criana nesses 
primeiros anos  igualar-se aos pais (isto , ao progenitor do mesmo sexo), e ser grande como seu pai e sua me. Contudo, ao desenvolver-se intelectualmente, a criana 
acaba por descobrir gradualmente a categoria a que seus pais pertencem. Vem a conhecer outros pais e os compara com os seus, adquirindo assim o direito de pr em 
dvida as qualidades extraordinrias e incomparveis que lhes atribura. Os pequenos fatos da vida da criana que a tornam descontente, fornece-lhe um pretexto para 
comear a criticar os pais; para manter essa atitude crtica, utiliza seu novo conhecimento de que existem outros pais que em certos aspectos so preferveis aos 
seus. A psicologia das neuroses nos ensina que, entre outros fatores, contribuem para esse resultado os impulsos mais intensos da rivalidade sexual. O sentimento 
de estar sendo negligenciado constitui obviamente o cerne de tais pretextos, pois existe sem dvida um grande nmero de ocasies em que a criana  negligenciada, 
ou pelo menos sente que  negligenciada, ou que no est recebendo todo o amor dos pais, e principalmente em que lamenta ter de compartilhar esse amor com seus irmos 
e irms. Sua sensao de que sua afeio no est sendo retribuda encontra abrigo na idia, mais tarde lembrada conscientemente a partir da infncia inicial, de 
que  uma criana adotada, ou de que o pai ou a me no passam de um padrasto ou de uma madrasta. Alguns indivduos que no desenvolveram neuroses se lembram com 
muita freqncia de ocasies em que - em geral em conseqncia de alguma leitura - interpretaram e responderam dessa forma ao comportamento hostil dos pais. Mas 
j aqui evidencia-se a influncia do sexo, pois o menino tem maiores tendncias a sentir impulsos hostis contra o pai do que contra a me, tendo um desejo bem mais 
intenso de libertar-se dele do que dela. A esse respeito a imaginao das meninas tende a revelar-se muito mais fraca. Esses impulsos mentais da infncia conscientemente 
lembrados constituem o fator que nos permite entender a natureza dos mitos.
         
         O estdio seguinte no desenvolvimento do afastamento do neurtico de seus pais, que assim teve incio, pode ser descrito como o 'romance familiar do neurtico', 
sendo raramente lembrado conscientemente, mas podendo quase sempre ser revelado pela psicanlise, j que uma atividade imaginativa estranhamente acentuada  uma 
das caractersticas essenciais dos neurticos e tambm de todas as pessoas relativamente bem dotadas. Essa atividade emerge inicialmente no brincar das crianas 
e depois, mais ou menos a partir do perodo anterior  puberdade, passa a ocupar-se das relaes familiares. Um exemplo caracterstico dessa atividade imaginativa 
est nos devaneios que se prolongam at muito depois da puberdade. Se examinarmos com cuidado esses devaneios, descobriremos que constituem uma realizao de desejos 
e uma retificao da vida real. Tm dois objetivos principais: um ertico e um ambicioso - embora um objeto ertico esteja comumente oculto sob o ltimo. No perodo 
j mencionado a imaginao da criana entrega-se  tarefa de libertar-se dos pais que desceram em sua estima, e de substitu-los por outros, em geral de uma posio 
social mais elevada. Nessa conexo ela lanar mo de quaisquer coincidncias oportunas de sua experincia real, tal como quando trava conhecimento com o senhor 
da Casa Grande ou com o dono de alguma grande propriedade, se mora no campo, ou com algum membro da aristocracia, se mora na cidade. Esses acontecimentos fortuitos 
despertam a inveja da criana, que encontra expresso numa fantasia em que seus pais so substitudos por outros de melhor linhagem. A tcnica utilizada no desenvolvimento 
dessas fantasias (que, naturalmente, so conscientes nesse perodo) depende da inventividade e do material  disposio da criana. H tambm a questo de as fantasias 
serem desenvolvidas com maior ou menor esforo para se obter verossimilhana. Esse estdio  alcanado numa poca em que a criana ainda ignora os determinantes 
sexuais da procriao.
         Quando finalmente a criana vem a conhecer a diferena entre os papis desempenhados pelos pais e pelas mes em suas relaes sexuais, e compreende que 
'pater semper incertus est', enquanto a me  'certissima' o romance familiar sofre uma curiosa restrio: contenta-se em exaltar o pai da criana, deixando de lanar 
dvidas sobre sua origem materna, que  encarada como fato indiscutvel. Esse segundo estdio (sexual) do romance familiar sofre o influxo de um outro motivo que 
est ausente do primeiro estdio (assexual). A criana que j conhece os processos sexuais tende a se imaginar em relaes e situaes erticas, cuja fora motivadora 
 o desejo de colocar a me (objeto da mais intensa curiosidade sexual) em situaes de secreta infidelidade e em secretos casos amorosos. Dessa forma, as fantasias 
da criana, que inicialmente eram assexuais, elevam-se ao nvel do seu conhecimento posterior.
         Alm disso, o motivo da vingana e da retaliao, que estava em primeiro plano no estdio inicial, tambm est presente no posterior. Via de regra, so 
precisamente essas crianas neurticas, que foram punidas pelos pais por travessuras sexuais, que agora se vingam dos mesmos atravs de tais fantasias.
         A criana mais nova tende especialmente a utilizar essas histrias imaginativas para despojar os irmos mais velhos de suas prerrogativas - de uma maneira 
que lembra as intrigas histricas; e com freqncia no hesita em atribuir  me tantos casos de amor fictcios quantos so os seus competidores. Pode ento surgir 
uma interessante variao desses romances familiares, e um que o heri e autor tem uma legitimidade reconhecida enquanto seus irmos e irms so declarados bastardos. 
Se estiverem operando tambm outros interesses, estes podem determinar o curso do romance familiar, j que sua multiplicidade e amplitude de formas permite-lhe satisfazer 
toda uma srie de requisitos. Assim, por exemplo, o jovem construtor de fantasias pode eliminar o grau proibitrio de parentesco que o une a uma irm por quem se 
sente sexualmente atrado.
         Se algum est inclinado a fugir horrorizado ante essa depravao do corao infantil ou se sente at mesmo tentado a refutar a possibilidade de tais coisas, 
deveria observar que nenhuma dessas obras de fico, aparentemente plenas de hostilidade, possui na realidade uma inteno to m, e que ainda conservam, sob um 
leve disfarce, a primitiva afeio da criana por seus pais. A infidelidade e a ingratido so apenas aparentes. Se examinarmos em detalhe o mais comum desses romances 
imaginativos, a substituio dos pais, ou s do pai, por pessoas de melhor situao, veremos que a criana atribui a esses novos e aristocrticos pais qualidades 
que se originam das recordaes reais dos pais mais humildes e verdadeiros. Dessa forma a criana no est se descartando do pai, mas enaltecendo-o. Na verdade, 
todo esse esforo para substituir o pai verdadeiro por um que lhe  superior nada mais  do que a expresso da saudade que a criana tem dos dias felizes do passado, 
quando o pai lhe parecia o mais nobre e o mais forte dos homens, e a me a mais linda e amvel das mulheres. Ela d as costas ao pai, tal como o conhece no presente, 
para voltar-se para aquele pai em quem confiava nos primeiros anos de sua infncia, e sua fantasia  a expresso de um lamento pelos dias felizes que se foram. Assim 
volta a manifestar-se nessas fantasias a supervalorizao que caracteriza os primeiros anos da criana. O estudo dos sonhos nos fornece uma contribuio interessante 
ao assunto. Da interpretao dos mesmos conclumos que mesmo em anos posteriores, se o Imperador e a Imperatriz aparecem em sonhos, tais nobres personagens representam 
o pai e a me do sonhador. Assim, a supervalorizao dos pais pela criana sobrevive tambm nos sonhos de adultos normais.
         
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       BREVES ESCRITOS (1903-1909)
         
         
         RESPOSTA A UM QUESTIONRIO SOBRE LEITURA (1906)
         
         Pedem-me que faa uma relao de 'dez bons livros' sem a tal acrescentarem maiores explicaes. Cabe-me assim no somente a escolha dos livros, mas tambm 
a interpretao do pedido. Como estou acostumado a dar ateno a pequenos sinais, devo basear-me na forma como esse enigmtico pedido foi expresso. No me solicitaram 
'os dez mais esplndidos livros (da literatura mundial)', quando eu seria obrigado a responder, como tantos outros: Homero, as tragdias de Sfocles, o Fausto de 
Goethe, o Hamlet e o Macbeth de Shakespeare, etc. Nem me pediram 'os dez livros mais significativos', entre os quais teriam de ser includas as realizaes cientficas 
de Coprnico, do velho mdico Johann Weier sobre a crena nas bruxas, a Descendncia do Homem de Darwin, e outros. Nem falaram em 'livros favoritos', entre os quais 
eu no teria esquecido O Paraso Perdido de Milton e o Lzaro de Heine. Parece-me pairar uma nfase especial sobre o adjetivo 'bons', em sua frase, e com isso pretenderem 
os senhores designar aqueles livros que se assemelham a 'bons' amigos, aos quais devemos uma parcela do nosso conhecimento da vida e de nossa viso do mundo - livros 
que nos deram prazer e que recomendamos de bom grado a outros, mas que no nos despertam uma particular e tmida reverncia, nem uma sensao de pequenez diante 
de sua grandiosidade.
         Indicarei, portanto, dez 'bons' livros que me vieram  mente sem muita reflexo.
         Multatuli, Cartas e Obras. [Cf. pg. 138 n.]
         Kipling, Jungle Book.
         Anatole France, Sur la pierre blanche.
         Zola, Fcondit.
         Merezhkovsky, Leonardo da Vinci.
         G. Keller, Leute von Seldwyla.
         C. F. Meyer, Huttens letzte Tage.
         Macaulay, Essays.
         Gomperz, Griechische Denker.
         Mark Twain, Sketches.
         No sei o que pretendem fazer com essa lista. At mesmo a mim ela parece estranha, e no posso envi-la sem algumas observaes. No me deterei nas razes 
desses livros e no de outros igualmente 'bons'. S desejo examinar a relao entre o autor e sua obra. Esse elo no  sempre to firme como, por exemplo, no caso 
do Jungle Book de Kipling. Na maior parte das vezes, eu poderia ter escolhido outro livro do mesmo autor - como, no caso de Zola, o Docteur Pascal -, e assim por 
diante. Com freqncia o mesmo homem que nos ofereceu um bom livro produziu outras boas obras. No caso de Multatuli hesitei entre escolher as 'Cartas de Amor', em 
detrimento das cartas particulares, e rejeitar as primeiras a favor das segundas, e assim escrevi: 'Cartas e Obras'. Exclu dessa lista obras realmente criativas 
de valor puramente potico, porque no parece ser este exatamente o objetivo de sua solicitao: bons livros. Quanto a Hutten de C. F. Meyer, coloco sua condio 
de 'bom' bem acima de suas qualidades formais; nele procuramos 'edificao'acima de prazer esttico.
         Com esse pedido de 'dez bons livros' os senhores levantaram uma questo que poderia ser estendida indefinidamente. E aqui concluo, para no me tornar em 
demasia informativo.
         Sinceramente seu,
         FREUD.
         
         PROSPECTO PARA SCHRIFTEN ZUR ANGEWANDTEN SEELENKUNDE (1907)
         
         Os Schriften zur Angewandten Seelenkunde, cujo primeiro nmero acaba de ser publicado, dirigem-se quele amplo crculo de pessoas instrudas que, sem serem 
realmente filsofos ou mdicos, estimam as cincias da mente humana por sua importncia na compreenso e no aprimoramento de nossas vidas. Os artigos no sero publicados 
numa ordem predeterminada, mas sempre apresentaro em cada caso um nico estudo sobre a aplicao de conhecimentos psicolgicos a temas artsticos e literrios, 
 histria das civilizaes e religies, e a outros setores anlogos. Esses trabalhos tero algumas vezes o carter de investigaes exatas, outras vezes o de esforos 
especulativos, ora tentando abranger questes mais amplas, ora tentando aprofundar-se num problema mais restrito. Contudo, sero sempre realizaes originais que 
evitaro se assemelhar a simples resenhas ou compilaes.
         O Organizador sente-se no dever de responder pela originalidade e valor dos artigos a serem lanados nesta srie. Quanto ao mais, no  sua inteno interferir 
na independncia de seus colaboradores, ou responsabilizar-se pelas palavras dos mesmos. O fato de que os primeiros nmeros da srie aliam-se em particular s teorias 
por ele defendidas no campo da cincia no ir necessariamente caracterizar todo o empreendimento. Ao contrrio, esta srie est aberta aos representantes de opinies 
divergentes, e espera poder ser um veculo para a expresso da multiplicidade de pontos de vista e princpios da cincia contempornea.
         O EDITOR
         O ORGANIZADOR
         
         PREFCIO A NERVOUS ANXIETY-STATES AND THEIR TREATMENT, DE WILHELM STEKEL (1908)
         
         Minhas investigaes sobre a etiologia e o mecanismo psquico das doenas neurticas, que me ocupam desde 1893, de incio passaram quase desapercebidas 
dos meus colegas especialistas. Por fim, entretanto, essas investigaes mereceram a aprovao de vrios pesquisadores mdicos, chamando tambm a ateno para os 
mtodos psicanalticos de exame e tratamento aos quais devo minhas descobertas. O Dr. Wilhelm Stekel, um dos primeiros colegas com quem pude partilhar meus conhecimentos 
de psicanlise, e que se familiarizou com essa tcnica atravs de muitos anos de prtica, incumbiu-se de estudar um tpico dessas neuroses do ponto de vista clnico, 
baseado em minhas concepes, e de oferecer aos leitores mdicos as experincias que obteve pelo mtodo psicanaltico. Embora de bom grado eu responda por este trabalho 
no sentido que acima indiquei,  apenas justo que declare explicitamente que foi muito pequena a minha influncia sobre este volume a respeito dos estados nervosos 
de ansiedade. As observaes e todas as minuciosas opinies e interpretaes so inteiramente do prprio autor. Minha participao limitou-se a propor ao autor o 
uso do termo 'histeria de angstia'.
         Acrescentarei que o trabalho do Dr. Stekel fundamentou-se sobre uma rica experincia e dever estimular outros mdicos a confirmarem por seus prprios esforos 
nossas opinies sobre a etiologia desses estados. Seu trabalho nos revela imagens inesperadas das realidades da vida, to freqentemente ocultas sob os sintomas 
neurticos, e poder convencer nossos colegas de que as atitudes que decidirem adotar diante das indicaes e explicaes oferecidas nestas pginas no ser uma 
questo indiferente do ponto de vista tanto do seu discernimento como da sua eficincia teraputica.
         VIENA, maro de 1908.
         
         PREFCIO A PSYCHO-ANALYSIS: ESSAYS IN THE FIELD OF PSYCHO-ANALYSIS, DE SANDOR FERENCZI (1910 [1909])
         
         A investigao psicanaltica das neuroses (as vrias formas de doenas nervosas com causao mental) empenhou-se em estabelecer sua conexo com a vida instintual 
e as restries a ela impostas pelas exigncias da civilizao, com as atividades do indivduo normal em fantasias e sonhos, e com as criaes da mente popular no 
campo das religies, dos mitos e dos contos de fadas. O tratamento psicanaltico de pacientes neurticos, baseado nesse mtodo de investigao, exige muito mais 
do mdico e do paciente que os mtodos comumente usados at aqui, que operam por meio de medicamentos, dieta, hidropatia e sugesto; contudo, traz aos pacientes 
um alvio muito maior e um fortalecimento permanente diante dos problemas da vida, de modo que no h motivo para surpresa ante os contnuos progressos desse mtodo 
teraputico, apesar da violenta oposio.
         Conheo bem de perto o autor destes ensaios, que est, como poucos, familiarizado com as dificuldades das questes psicanalticas, sendo o primeiro hngaro 
a empreender a tarefa de despertar nos mdicos e homens esclarecidos de seu pas o interesse pela psicanlise por meio de material escrito em sua lngua materna. 
Cordialmente desejamos que essa sua tentativa seja bem sucedida e possa angariar para esse novo campo de trabalho novos adeptos entre seus compatriotas.
         
         
         
         
         
         
         COLABORAES PARA NEUE FREIE PRESSE
         
         I
         RESENHA DE Im Kampfe Gegen Hirnbacillen, DE GEORG BIEDENKAPP
         Oculto sob um ttulo pouco promissor, esse livro de um homem corajoso traz ao leitor muitas consideraes dignas de estudo. O subttulo  mais revelador 
quanto ao contedo: 'Uma Filosofia de Pequenas Palavras'. Nele o autor combate o uso daquelas 'pequenas palavras e expresses que incluem ou excluem em demasia', 
que, quando usadas freqentemente, revelam uma tendncia para 'julgamentos exclusivos e superlativos'.  evidente - e nosso autor contestaria at mesmo essa expresso 
- que sua luta no  contra essas palavras inofensivas, mas contra a tendncia do indivduo a inebriar-se com as mesmas e a esquecer, devido  representao exagerada 
assim expressa, as necessrias limitaes de nossas declaraes e a inevitvel relatividade de nossos julgamentos.  realmente muito til que as pessoas sejam advertidas 
de que grande parte do que era considerado 'evidente' ou 'disparatado' por geraes anteriores,  hoje por ns julgado, inversamente, 'disparatado' e 'evidente'; 
 til tambm que observem atravs de uma srie de exemplos bem escolhidos que at escritores importantes so vtimas de um estreitamento de horizonte mental em 
conseqncia de um uso incorreto de superlativos. A exortao a uma moderao de juzos e expresses  apenas um ponto de partida do autor para um estudo ulterior 
de outros 'erros de pensamento' dos seres humanos: sobre delrio central, f, sobre moralidade atia, e outros. Em todas essas observaes evidencia-se o honesto 
esforo do autor para acatar as implicaes da viso do mundo decorrente das descobertas da cincia moderna, em particular da teoria da evoluo. No texto encontraremos 
muitas verdades psicolgicas, e outras que, embora j ditas, nunca sero suficientemente repetidas. O autor impe-se a ingrata tarefa de 'aprimorar e converter os 
indivduos' atravs de uma influncia moderadora, sem tentar influenci-los pelo riso ou pelo humor, ou arrebat-los pela paixo. Desejemos-lhe, portanto, muito 
sucesso.
         
         II
         RESENHA DE The Mystery of Sleep, DE JOHN BIGELOW
         Em vez de reservar  cincia a soluo do mistrio do sono, o piedoso autor recorre a argumentos bblicos e causas teolgicas. Segundo ele, por exemplo, 
seria indigno da providncia divina permitir que os seres humanos passassem um tero de suas vidas espiritualmente inativos. O sono seria, portanto, um estado em 
que a influncia divina penetra mais efetiva e livremente na vida mental humana. Apesar de todas as nossas objees ao modo de pensar do autor, no deixaremos de 
assinalar o elemento de verdade que existe nessa afirmao. Os estudos cientficos do estado da vida mental durante o sono obrigam-nos a rejeitar como inadequada 
a nossa antiga teoria de que o sono reduz a um mnimo a atividade mental. No h interrupo dos importantes processos de atividade mental inconsciente e mesmo intelectual 
- como demonstra a elucidao dos sonhos feita por esse crtico -, mesmo durante o sono profundo. Essa atividade mental inconsciente mereceria ser chamada de 'demonaca', 
mas dificilmente de 'divina'.
         
         
         III
         NECROLGIO DO PROFESSOR S. HAMMERSCHLAG
         S. Hammerschlag, que h cerca de trinta anos encerrou suas atividades como professor da religio judaica, era uma dessas personalidades que possuem o dom 
de marcar indelevelmente o desenvolvimento de seu alunos. Possua uma centelha da mesma chama que iluminou os espritos dos grandes videntes e profetas judeus, centelha 
essa que s se extinguiu quando a idade avanada debilitou suas foras. O lado passional de sua natureza, porm, era moderado pelo ideal humanista do nosso perodo 
clssico alemo que o guiava, e seu mtodo pedaggico estava baseado nos fundamentos dos estudos clssicos e filolgicos a que devotara sua juventude. A instruo 
religiosa era para ele um meio de despertar o amor das humanidades, e atravs da histria judaica conseguia desobstruir as fontes de entusiasmo ocultas nos coraes 
jovens e faz-las fluir at ultrapassarem as limitaes do nacionalismo ou do dogma. Aqueles alunos seus que mais tarde puderam privar com o mestre o seu prprio 
lar, nele encontraram um amigo paternal e solcito e descobriram a compassiva bondade que era a caracterstica fundamental de sua natureza. Em seu enterro, o Dr. 
Friedjung, o historiador, expressou seus sentimentos de gratido para o venervel professor, sentimentos que vrias dcadas no conseguiram alterar.
         
         
         
         
         
         



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  "Gradiva" de Jensen e outros trabalhos -  Sigmund Freud
